BERT HELLINGER: O CENTRO VAZIO

Bert Hellinger

“Aquilo que é essencial não pode ser observado. As coisas essenciais encontram-se atrás das coisas que conseguimos observar.

E como alcançamos o conhecimento essencial?  Expomo-nos a uma situação sem o desejo de que ela seja diferente daquilo que é. Expomo-nos, por exemplo, a um cliente sem o desejo de que alguma coisa seja diferente daquilo que é.

E expomo-nos nós próprios a nós próprios sem o desejo de que devemos saber mais.

E desta forma tornamo-nos vazios. E então, de repente, aquilo que é essencial é visto.”

 

BERT HELLINGER In Primeiro seminário internacional “Las Ordenes de la Ayuda”, México 2004

Vídeo com tradução e legendas em português por Eva Jacinto (www.cf-evajacinto.pt)

 (toque na imagem para assistir)

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SERENO, LIBERTO

Sereno, Liberto

 

Sereno é aquele que é capaz de soltar, por exemplo, uma preocupação, a revolta do coração depois de uma ofensa, uma humilhação, uma calúnia.

Sereno é também aquele que é capaz de deixar para trás velhos sonhos, velhas pretensões, velhas censuras, liberta assim o seu coração para que esteja sossegado, pronto e disposto para o possível e para o que se lhe oferece.

Sereno é também, portanto, aquele que perdoa, no sentido de “o passado, já passou”, sem guardar rancor por nada.

Esta serenidade é força sem emoção, disposição concentrada da alma para o que está para vir e para o agora.

 

Bert Hellinger In “Pensamientos en el Camino”. Editorial Rigden Institut Gestalt

Tradução do castelhano por Eva Jacinto

Edvard Munch: Summer Night on the Beach (1902)

EPISTEMOLOGIA FENOMENOLÓGICA

Epistemologia científica e epistemologia fenomenológica

São dois os movimentos que levam à compreensão. Um estende-se para abarcar o desconhecido até possui-lo e poder dele dispor. Desta natureza é o esforço científico, e sabemos bem o muito que tem contribuído para mudar, tornar seguro e enriquecer o nosso mundo e a nossa vida.

O segundo movimento acontece quando, ainda durante o esforço de estender o nosso pensamento, nos detemos e, de algo concreto que poderíamos captar, dirigimos o olhar a um todo. Quer dizer, o olhar está disposto a assimilar a imensidão que se expõe diante ele. Entregamo-nos a este movimento, por exemplo, frente a uma paisagem, a uma tarefa ou a um problema e apercebemo-nos de como o nosso olhar se enche e se esvazia ao mesmo tempo. Apenas podemos expor-nos à plenitude e resistir ao seu impacto prescindindo dos detalhes. Para isso, detemo-nos no movimento que se lança, recuando um pouco até chegarmos aquele ponto vazio capaz de suportar a plenitude e a variedade imensa.

                                                                                                     Green emptyness – Wassily Kandinsky (1930).

Este movimento que se detém e depois se retira defino-o como fenomenológico. Ele conduz-nos a outras compreensões, diferentes daquelas a que nos conduz o movimento que se lança para o entendimento. Os dois, no entanto, são complementares, já que também no movimento que se estende para a compreensão científica, às vezes temos que parar e dirigir o olhar do estreito para o abrangente e do próximo para o distante. Por outro lado, também a compreensão alcançada através do procedimento fenomenológico exige a verificação no individual e no mais próximo.

O processo

No caminho da epistemologia fenomenológica, a pessoa expõe-se a uma grande variedade de fenómenos perante um determinado horizonte, sem os seleccionar ou valorizar. Então, este caminho de entendimento exige que a pessoa se esvazie, tanto em relação às ideias que até ao momento albergava, como em relação aos movimentos internos, seja ao nível emocional, intencional ou dos julgamentos. Aqui, a atenção está simultaneamente orientada e não orientada, centrada e vazia.

A atitude fenomenológica exige a disposição atenta para a acção, mas sem passar ao acto. Graças a esta tensão, a nossa capacidade e a nossa disposição para a percepção potenciam-se de forma extraordinária. Quem consegue sustentar esta tensão, depois de um tempo percebe como o muito que o seu horizonte abrange se vai formando em torno de um centro e, de repente, descobre um contexto, talvez uma ordem, uma verdade, ou o próximo passo que leva adiante. Esta compreensão vem de fora, por assim dizer, é vivida como um presente e, regra geral, é limitada.

Livre de intenções

A primeira premissa para a compreensão alcançada desta forma é uma atitude desinteressada. Quem retém intenções, aborda a realidade com conteúdos próprios, pretendendo talvez mudá-la de acordo com uma imagem preconcebida, ou influenciar e convencer os outros de acordo com esta imagem. Mas dessa forma age como se se encontrasse numa posição superior relativamente à realidade, como se ela fosse o objecto para o sujeito, e não ao contrário, ele o objecto da realidade. Aqui se põe em evidência a atitude de renúncia que nos obriga a desistir das nossas intenções, incluindo as nossas intenções boas. Para além de que a sensatez também nos exige essa renúncia, pois, e como nos mostra a experiência, aquilo que fazemos com boas intenções, até mesmo com a melhor das intenções, muitas vezes sai errado. A intenção não é um substituto para a compreensão.

Livre do medo

A segunda premissa para essa compreensão é uma atitude livre de medo. Coloca palas a si próprio aquele que tem medo do que a realidade lhe mostra. E aquele que sente medo do que as outras pessoas pensarão e farão se ele comunicar o que percebe, está a fechar-se perante qualquer compreensão ulterior. E quem, como terapeuta, tem medo de enfrentar a realidade de um cliente, por exemplo, o facto de que apenas um curto tempo de vida lhe resta, acaba incutindo medo ao outro, porque ele vê que o terapeuta não está à altura dessa realidade.

A concordância

Uma atitude livre de intenções e do medo permite a concordância com a realidade tal como ela é, também com o seu lado temível, violento e terrível. Portanto, o terapeuta está em concordância com a felicidade e a desdita, com a inocência e a culpa, com a saúde e a doença, com a vida e a morte. Justamente, a partir desta concordância ganha a compreensão e a força para enfrentar também a fatalidade e em concordância com esta realidade, por vezes, pode dar-lhe a volta.

A este respeito, contarei uma história:

Um discípulo dirigiu-se a um mestre: Diga-me o que é a liberdade!

Qual liberdade? Perguntou-lhe o mestre. A primeira liberdade é a necessidade. Assemelha-se ao cavalo que, relinchando, derruba o cavaleiro, mas depois sente-lhe a mão ainda mais forte. A segunda liberdade é o arrependimento. Assemelha-se ao timoneiro que fica no barco naufragado, em vez baixar o bote salva-vidas. A terceira liberdade é o entendimento. Ela vem depois da necessidade e depois do arrependimento. Assemelha-se à haste delgada que oscila com o vento e porque cede onde é débil, sustém-se.

O discípulo perguntou: E isso é tudo?

O mestre respondeu: Alguns pensam que são eles próprios que procuram a verdade da sua alma. Mas a Grande Alma pensa e busca através deles. Tal como a natureza, que pode permitir-se muitos erros, pois sem esforço substitui os jogadores errados por outros novos. Àquele que, contudo, deixa que seja ela a que pensa, as vezes concede-lhe alguma margem de manobra e tal como o rio leva o nadador que se entrega às suas águas, também ela o leva à margem, unindo as suas forças às dele.

Bert Hellinger. “La fuerza del centro vacío. La epistemología fenomenológica en Psicoterapia”.  16-02-2006, Boletín No. 4 de ECOS, Escuela de Constelaciones Sistémicas.

Tradução a partir do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Green emptyness, Wassily Kandinsky (1930).

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TRABALHO SISTÉMICO COM DOENÇAS

Texto de Stephan Hausner*, traduzido do castelhano por Eva Jacinto

 

Todas as possibilidades que as constelações sistémicas nos concedem no trabalho com doentes só se podem revelar no trabalho individual com cada um dos pacientes. Ainda que com frequência se demonstrem em muitas doenças e sintomas dinâmicas familiares iguais ou similares, os passos para chegar à solução são diferentes para cada pessoa. A arte do terapeuta consiste, por um lado, em tornar consciente para o paciente aquelas imagens internas, atitudes e crenças que o conduzem à doença ou que o levam a persistir nela e nos sintomas existentes e, por outro lado, pô-lo em contacto, através do processo terapêutico, com realidades que o conduzam a modificar a sua atitude e, com isso, a encontrar uma via de alívio ou talvez de cura. (…)

Quando aqui falo de solução, refiro-me a libertar-se de algo para poder dar um primeiro passo. Porém, toda a mudança pressupõe que haja mobilidade e isto é valido também para o terapeuta. Este deve evitar que a experiência acumulada se transforme em teoria, porque senão perde-se o seu efeito curativo. Com isto quero afirmar que a experiência tem um efeito curativo através do ser do terapeuta e não através do seu conhecimento.

Muitas doenças estão relacionadas com o destino de membros da família que foram excluídos. O sofrimento e a dor que as doenças causam animam a reconhecer a pertença não só dessas pessoas, como também de acontecimentos traumáticos excluídos, e a voltar a incluí-los e integrá-los.

Esta integração passa, multo frequentemente, por um processo de solução com os pais e constitui também um processo de solução dos pais e da família. Exige ir mais além da consciência familiar sobre o bom e o mau, consciência esta que separa. Significa distanciar-se de juízos e movimentos excludentes e significa reconhecer que cada qual, seja como seja e tenha feito o que tenha feito, tem o mesmo direito de pertencer. Esta atitude que integra a todos na alma é sentida como algo sereno e curativo.

 

*Stephan Hausner (2010). Aunque me Cueste la Vida. Constelaciones Sistémicas en Casos de Enfermedades y Síntomas Crónicos. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

 

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A BONDADE

A BONDADE

Texto de Bert Hellinger, traduzido do castelhano por Eva Jacinto*

 

Bondade significa: estou bem disposto para alguém. Estou bem disposto para o outro, tal como ele é. E como se demonstra esta bondade? Por minha parte, deixo que os outros sejam como são. Na minha presença podem mostrar-se tal como são, sem temer que lhe faça reparos. Esta é razão pela qual nos sentimos bem na presença de pessoas bondosas.

A pessoa bondosa é também boa para si própria. Ela é tal como é. E também é boa de coração.

A pessoa bondosa é como é ou será que ela se converte em algo mais para si e para os outros devido à sua bondade? Porque é boa, a bondade permite frutificar muitas coisas ao seu redor, de uma maneira boa. Muitas vezes basta que a pessoa esteja presente, sem fazer nada, como o sol, que ao brilhar faz com que a vida prospere.

A bondade acaba quando faz distinções. A partir do momento em que faz distinções, prefere uma coisa a outra. Distingue entre algo melhor para ela e o que considera ser menos bom ou mau. Então, também aqueles que consideram a bondade boa num determinado momento, temem ser considerados menos bons ao fim de algum tempo, temem que a bondade deixe de ser bondosa com eles.

A verdadeira bondade é bondosa com tudo. (…)

Será que o bondoso aprova também os maus e os violentos, aqueles que actuam contra a vida de outro e inclusivamente matam de uma maneira evidentemente injusta?

O bondoso é bondoso com eles, tal como é bondoso consigo próprio, porque percebe em si mesmo os mesmos impulsos: no seu coração, na sua profundidade oculta, o mesmo potencial cruel e maligno.

O que é que acontece àqueles que consideram os outros piores do que eles próprios? Que acontece com aqueles que, à vista do maligno e cruel sentem ascender nos outros e nos seus próprios corações o maligno e o cruel, o que os torna idênticos àqueles que eles rejeitam, torna-os semelhantes no mais profundo do seu interior?

A bondade, tal como uma gota de água suave e macia que ao cabo de algum tempo amolece até a rocha mais dura, torna-se irresistível no coração do próprio maligno. Até a rocha mais dura se dissolve ao fim de algum tempo na água macia.

Esta bondade é uma bondade divina. Amacia até a rocha mais dura e por fim leva-a com a água da nascente até ao oceano, ao oceano de uma bondade infinita.

 

*Bert Hellinger (2010). Historias de éxito en la empresa y el trabajo. Rigden Edit, S.L.

Pintura de Ernesto Shikhani – Maputo, 1998.

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O FASCÍNIO PELO PAPEL DE VÍTIMA

 

O FASCÍNIO PELO PAPEL DE VÍTIMA

Por que razão é tao difícil abandonar o papel de vítima e, com isso, o sofrimento? Existem diversas abordagens para a sua explicação, todos os processos decorrem mais ou menos inconscientemente, uma vez que os limites são permeáveis.

  1. O sofrimento tornou-se um sentimento a que a pessoa está acostumada e através do qual a sua vida se organizou. Este hábito é tão rotineiro que ainda que a pessoa sofra, ela pode sentir-se bem com ele. Para pôr fim ao sofrimento, exige-se uma mudança de hábitos. Esta mudança pode conseguir-se através de decisões conscientes ou ocorrências do destino.
  2. Para muitas pessoas o sofrimento é a única possibilidade de se sentirem intensamente a si próprias: “sofro, por tanto sinto-me, logo existo”. O sofrimento converte-se na experiência mais intensa das suas vivências. Embora possa parecer contraditório, este paradoxo observa-se com frequência. Muitas vezes os pacientes queixam-se de uma sensação de vazio difícil de suportar depois de se ”terem despedido” do seu sofrimento.
  3. O sofrimento recompensa, como no clássico caso de quem se beneficia através da doença. Enquanto se sofre, recebe-se mais amor, cuidado e dedicação. Através da doença, por exemplo um enfarte do miocárdio, conseguir-se-á ser mais importante. Tudo gira em torno desse acontecimento.
  4. O sofrimento eleva o sofredor a uma melhor posição. Porque ele sofre, sente-se numa melhor posição relativamente aos seus semelhantes e daí surge a exigência, que é inconsciente na maioria dos casos. Uma vez que essa exigência é inadequada, não chega a conseguir cumprir-se, motivo pelo qual o papel de vítima e de sofredor se reforçam. Expressões tais como “ninguém me compreende” ou “estão todos contra mim” são convicções básicas dessas vítimas “crónicas”, que permanecem cativas no círculo vicioso do sofrimento. Especialmente no cristianismo, o sofrimento tem para os outros uma grande importância: o martírio é notoriamente uma boa premissa para a santificação.
  5. O sofrimento pode ser reconhecido socialmente e condicionar o sentimento de pertença a um grupo. A sociedade compadece-se superficialmente das “pobres mulheres abandonadas”, enquanto aos “homens abandonados” não se lhes reconhece socialmente o direito ao seu sofrimento. As “mulheres abandonadas” formam um grupo que se lamenta, afirma e motiva reciprocamente. Quando a mulher abandona o seu papel de vítima, deixa de pertencer a este grupo. Desta forma, e pese embora todos os aspectos de significação, também os grupos de auto-ajuda correm riscos. Frequentemente, a identidade do grupo ordena que somente se possa participar quando se sofre.
  6. O sofrimento caracteriza-se geralmente pela passividade, portanto, deixar a posição passiva significa agir e passar do papel da vítima ao de sacrificador. Neste contexto positivo, ser sacrificador significa assumir uma responsabilidade e “entrar em acção”. Pude observar que os sofredores sentem uma forte inibição para colocar-se em acção, devido às implicações familiares procedentes de gerações anteriores (homicídio, desapropriação, etc.). Nestes casos, os sintomas são o fracasso e a falta de trabalho. Aferrar-se ao papel da vítima serve para “não chegar a ser assim, como os pais e os avós”.
  7. O sofrimento pode ser mal interpretado e, dessa forma, restabelecer a própria inocência. Por medo a reconhecer a autoria, a pessoa refugia-se no papel de vítima e volta a ser aparentemente inocente. Como exemplo queria aqui mencionar o papel de muitas pessoas durante o III Reich, que depois da guerra tornaram ao papel de vítimas e “nunca tinham ali estado”. O papel de vítima aqui é quase um fenómeno de massas e foi, durante muito tempo, socialmente aprovado. Esta “falta de reconhecimento” da própria culpa provoca novamente o sofrimento das gerações seguintes.
  8. Frequentemente, como compensação pela culpa “não reconhecida” dos sacrificadores em gerações anteriores, os membros da família subsequentes sentem-se responsáveis infundadamente. Estas implicações provocam uma persistência no papel de vítima. Por lealdade com as vítimas dos sacrificadores, sentem-se traidores quando abandonam esse papel. Assim que o amor pelo sacrificador ganhe espaço, poderá deixar-se com ele os factos que lhe correspondem, resolvendo-se dessa forma a compulsão para o sacrifício. Para os descendentes das vítimas vale a pena frisar que também eles permanecem no papel de vítima “por lealdade com os seus antepassados”. Os sintomas destes sofredores são similares, são formas graves de doença e depressão.

 

Ilse Kutschera e Christine Schäffler In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”.  Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Joanna Concejo

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A ALMA E OS MOVIMENTOS DA ALMA

Por Wilfried Nelles

Traduzido do Inglês por Eva Jacinto

 

Os “movimentos da alma” são algo que podemos perceber de imediato como um movimento subtil interno. Quando estamos ao lado de um ser humano, a nossa alma pode abrir-se e expandir-se ou retirar-se e fechar-se. Acontece frequentemente, geralmente não nos apercebemos, mas conseguimos senti-lo quando nisso focamos a atenção. Tal como notamos de imediato quando a alma de outra pessoa se abre ou fecha para nós. Não só com humanos temos esta experiência, mas também com os animais, plantas e toda a natureza, até mesmo com nós próprios podemos ter esta experiência.

W. Kandinsky. Black increasing (1927)

Este movimento parece-me ser um processo natural, uma espécie de ritmo, como as marés. Mas para muitas pessoas este movimento está limitado, com alguns está quase completamente congelado. Experienciamos este torpor como um sentimento de estar separado, como isolamento e solidão. A razão desta contracção e torpor da alma é sempre algum evento traumático, seja sistémico ou pessoal. Na terapia tentamos aliviar este torpor, a fim de permitir que a alma se expanda, pois o movimento natural da alma é o de se abrir a espaços cada vez mais amplos.

Esta abertura da alma é também uma condição prévia para a percepção fenomenológica e insight. Adoptando a atitude fenomenológica, observo aquilo para que olho não apenas como objecto, mas como sujeito com alma (mesmo que seja apenas um pedaço de pedra). Abro a minha alma o suficiente para poder ser tocado pela alma daquilo que contemplo. E então, chega até mim uma mensagem vinda daí. Em vez de falar de uma abertura da “minha” alma, pode ser mais apropriado falar de uma abertura para a alma, de uma abertura em direcção à dimensão da alma. Formulação que exprime melhor que este espaço não está definido por limites e pertença; não falamos acerca de algo que é meu, mas acerca de crescimento e de estar conectado a tudo que o está.

Bert Hellinger descreveu isto afirmando que nós não temos uma alma, mas estamos dentro de uma alma. A alma não está dentro de nós, mas à nossa volta. Este ponto é crucial. É uma extensão decisiva da compreensão corrente de alma. Quando sintonizamos com esta imagem, percebe-se imediatamente que algo dentro de nós se abre e amplia. Então a alma não me pertence, eu pertenço à alma, sou mais ou menos parte dela. Acrescentaria ainda que a alma deverá ser considerada mais como uma qualidade ou dimensão do que como uma entidade que pode ser encontrada em algum lugar (dentro ou fora). Considero que ambos são verdadeiros: a alma está tanto dentro de nós como ao nosso redor. Penso que não devemos imaginar a alma como uma coisa, como algo localizado nalgum lugar, dentro ou fora. Para mim, a alma é aquilo que liga e conecta. O que me liga a outras pessoas e a tudo o que existe à minha volta. Quanto mais ampla a minha alma, mais aberto estou a esse espaço, a esta dimensão que é a alma, mais conectado estou. Nesse sentido, o crescimento espiritual nada mais é que uma extensão do meu sentido de ser, da minha identidade, em direcção ao espaço cada vez mais amplo e constantemente em movimento da alma.

Não se trata aqui de elaborar uma definição precisa, mas apenas de representar aquilo de que falamos quando falamos da alma ou dos movimentos da alma. Considero ser importante compreender que a alma não é uma construção mental, mas algo real que podemos perceber e sentir exactamente naquele momento em que a alma se está abrindo ou fechando, quando está em movimento. E em segundo lugar, que isso é algo natural e que acontece constantemente – por isso não é um método de constelação.

Quando olhamos para o trabalho das constelações, parece bastante claro que as constelações familiares foram orientadas, desde o início, para esta abertura do espaço da nossa alma. Ou deveria dizer, orientado para a abertura de nós próprios para aquele espaço da alma, para a conexão com esta dimensão? Esta abertura foi apoiada pelo facto de o facilitador não olhar apenas para o cliente, mas tendo em conta toda a família ou clã na sua alma.

Assim, esta abertura começa com o terapeuta, que dá espaço a todos no movimento da sua própria alma, sem fazer qualquer diferença, mas especialmente àqueles que foram excluídos, esquecidos, desvalorizados e repudiados. Assim, as Constelações Familiares exigem um movimento da alma que está para além de todas as questões de método do terapeuta, um movimento para uma maior abertura e abrangência.

Sob esta perspectiva, as mudanças inspiradas ao longo dos anos por Bert Hellinger não são, nem mais nem menos, do que um movimento cada vez mais amplo e profundo da alma que integra cada vez mais sem operar diferenças. No início havia o movimento de olhar apenas para o cliente para ver toda a família, rapidamente então, para além da família, o olhar passou a dirigir-se àqueles com quem não se está relacionado por laços de sangue e posteriormente mesmo até para os inimigos, tiranos e assassinos em massa, com a mesma abertura em relação ao bem e ao mal, para finalmente alcançar o que Hellinger chama “espírito-mente”.

 

Wilfried Nelles (2007) In Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

 

Tradução do inglês por Eva Jacinto

 

Texto integral aqui: Wilfried Nelles (2007). Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

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B. HELLINGER: A EMPATIA

BERT HELLINGER:

Na formação de psicoterapeutas e também na formação de assistentes socais, dá-se muito valor ao exercício da empatia, ao sentir com o cliente.

Mas o que é que acontece ao terapeuta que sente empatia por um cliente? O que se passa com os terapeutas, o que fazem na realidade com o cliente?

– Convertem-no numa criança e comportam-se como se fossem a sua mãe ou pai. E uma vez estabelecida esta empatia, impedem que o cliente actue.

 

(clique na imagem para assistir ao vídeo desta palestra)

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SOBRE O ABUSO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES

SOBRE O ABUSO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES…

 

O perigo das constelações familiares radica no uso superficial desta forma de psicoterapia. “Vou constelar o meu sistema de origem e noutra vez vou constelar o meu sistema actual”. As constelações familiares como tendência, como fenómeno de moda, degradam este método reduzindo-o a um artigo de consumo. Esta utilização pouco formal das constelações familiares não serve o paciente, mas cria-lhe a ilusão de resolver todos os problemas de forma rápida através de uma constelação. Ao iniciar cada grupo, digo aos meus pacientes: “No melhor dos casos, a
constelação é, nem mais nem menos, um passo no teu desenvolvimento”. Alem disso, gosto de empregar a imagem de um veleiro que modifica o seu curso original em aproximadamente um grau e, portanto, chegará a outro lugar completamente diferente daquele projectado inicialmente. Assim também a constelação pode produzir uma grande mudança com uma pequena “correcção de curso”. Esta modificação situa-se na atitude interna do paciente, no critério pessoal. A constelação não é um elixir, não é um truque de magia nem significa que o problema tenha sido solucionado para sempre.

 

In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”, de Ilse Kutschera e Christine Schäffler. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Toni Demuro

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DAR E RECEBER

DAR E RECEBER

O assunto central na dinâmica de dar e receber é a aceitação da vida, tal como a recebemos dos nossos pais. Não temos outra possibilidade, uma vez que as condições nos são dadas com antecedência. Assentir é a premissa para a felicidade: “Tomo a vida tal como ela me foi dada”. Pela minha experiência verifico que este método, lógico e aparentemente simples, é com frequência difícil de levar a cabo. Honrar o pai e a mãe não significa estar de acordo com todos os seus actos, mas antes recebermos agradecidos e apreciarmos tudo quanto nos puderam dar.

Se a pessoa se nega a receber, pode ter a sensação de se “sentir melhor”. “Quando recebes, sentes-te culpado” – o significado que Bert Hellinger dá à palavra culpa nesta frase não é a do seu sentido limitado, mas antes no sentido da obrigação de recompensar. Quando não se recebe, não existe culpa nem obrigação, portanto, fica-se basicamente livre. Contudo, quem não recebe mantém exigências: “mais dinheiro, mais compreensão, mais apoio, outra infância, outras formas de amor, etc.”. Ninguém consegue satisfazer estas exigências e portanto geram discordância e a sensação de ter sido colocado à margem, o que por sua vez alimenta novas exigências.

Elisa Talentino

Todas as relações funcionam mediante o dar e receber. Se uma pessoa se nega a tomar o amor que recebe e compensa essa necessidade com o consumo de bens materiais, então as relações ficam em perigo. Todos conhecemos “pessoas que nunca estão satisfeitas”. O consumo torna-se cada vez mais o centro da vida, enquanto a vida, o amor, a fidelidade continuam a ser bens inestimáveis. O consumo, que se nutre da exigência, é um substituto do receber no campo das relações e impede a satisfação. Bert Hellinger diz: “Voracidade significa querer ter sem tomar”. Uma relação promove-se na medida em que se receba agradecido e se devolva algo com mais amor. Assim a relação pode crescer e alimentar-se o “círculo vicioso”. (…). O agradecimento reconhecido é um das formas mais essenciais de equilíbrio.

 

In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”, de Ilse Kutschera e Christine Schäffler. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Elisa Talentino

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