A BONDADE

A BONDADE

Texto de Bert Hellinger, traduzido do castelhano por Eva Jacinto*

 

Bondade significa: estou bem disposto para alguém. Estou bem disposto para o outro, tal como ele é. E como se demonstra esta bondade? Por minha parte, deixo que os outros sejam como são. Na minha presença podem mostrar-se tal como são, sem temer que lhe faça reparos. Esta é razão pela qual nos sentimos bem na presença de pessoas bondosas.

A pessoa bondosa é também boa para si própria. Ela é tal como é. E também é boa de coração.

A pessoa bondosa é como é ou será que ela se converte em algo mais para si e para os outros devido à sua bondade? Porque é boa, a bondade permite frutificar muitas coisas ao seu redor, de uma maneira boa. Muitas vezes basta que a pessoa esteja presente, sem fazer nada, como o sol, que ao brilhar faz com que a vida prospere.

A bondade acaba quando faz distinções. A partir do momento em que faz distinções, prefere uma coisa a outra. Distingue entre algo melhor para ela e o que considera ser menos bom ou mau. Então, também aqueles que consideram a bondade boa num determinado momento, temem ser considerados menos bons ao fim de algum tempo, temem que a bondade deixe de ser bondosa com eles.

A verdadeira bondade é bondosa com tudo. (…)

Será que o bondoso aprova também os maus e os violentos, aqueles que actuam contra a vida de outro e inclusivamente matam de uma maneira evidentemente injusta?

O bondoso é bondoso com eles, tal como é bondoso consigo próprio, porque percebe em si mesmo os mesmos impulsos: no seu coração, na sua profundidade oculta, o mesmo potencial cruel e maligno.

O que é que acontece àqueles que consideram os outros piores do que eles próprios? Que acontece com aqueles que, à vista do maligno e cruel sentem ascender nos outros e nos seus próprios corações o maligno e o cruel, o que os torna idênticos àqueles que eles rejeitam, torna-os semelhantes no mais profundo do seu interior?

A bondade, tal como uma gota de água suave e macia que ao cabo de algum tempo amolece até a rocha mais dura, torna-se irresistível no coração do próprio maligno. Até a rocha mais dura se dissolve ao fim de algum tempo na água macia.

Esta bondade é uma bondade divina. Amacia até a rocha mais dura e por fim leva-a com a água da nascente até ao oceano, ao oceano de uma bondade infinita.

 

*Bert Hellinger (2010). Historias de éxito en la empresa y el trabajo. Rigden Edit, S.L.

Pintura de Ernesto Shikhani – Maputo, 1998.

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O FASCÍNIO PELO PAPEL DE VÍTIMA

 

O FASCÍNIO PELO PAPEL DE VÍTIMA

Por que razão é tao difícil abandonar o papel de vítima e, com isso, o sofrimento? Existem diversas abordagens para a sua explicação, todos os processos decorrem mais ou menos inconscientemente, uma vez que os limites são permeáveis.

  1. O sofrimento tornou-se um sentimento a que a pessoa está acostumada e através do qual a sua vida se organizou. Este hábito é tão rotineiro que ainda que a pessoa sofra, ela pode sentir-se bem com ele. Para pôr fim ao sofrimento, exige-se uma mudança de hábitos. Esta mudança pode conseguir-se através de decisões conscientes ou ocorrências do destino.
  2. Para muitas pessoas o sofrimento é a única possibilidade de se sentirem intensamente a si próprias: “sofro, por tanto sinto-me, logo existo”. O sofrimento converte-se na experiência mais intensa das suas vivências. Embora possa parecer contraditório, este paradoxo observa-se com frequência. Muitas vezes os pacientes queixam-se de uma sensação de vazio difícil de suportar depois de se ”terem despedido” do seu sofrimento.
  3. O sofrimento recompensa, como no clássico caso de quem se beneficia através da doença. Enquanto se sofre, recebe-se mais amor, cuidado e dedicação. Através da doença, por exemplo um enfarte do miocárdio, conseguir-se-á ser mais importante. Tudo gira em torno desse acontecimento.
  4. O sofrimento eleva o sofredor a uma melhor posição. Porque ele sofre, sente-se numa melhor posição relativamente aos seus semelhantes e daí surge a exigência, que é inconsciente na maioria dos casos. Uma vez que essa exigência é inadequada, não chega a conseguir cumprir-se, motivo pelo qual o papel de vítima e de sofredor se reforçam. Expressões tais como “ninguém me compreende” ou “estão todos contra mim” são convicções básicas dessas vítimas “crónicas”, que permanecem cativas no círculo vicioso do sofrimento. Especialmente no cristianismo, o sofrimento tem para os outros uma grande importância: o martírio é notoriamente uma boa premissa para a santificação.
  5. O sofrimento pode ser reconhecido socialmente e condicionar o sentimento de pertença a um grupo. A sociedade compadece-se superficialmente das “pobres mulheres abandonadas”, enquanto aos “homens abandonados” não se lhes reconhece socialmente o direito ao seu sofrimento. As “mulheres abandonadas” formam um grupo que se lamenta, afirma e motiva reciprocamente. Quando a mulher abandona o seu papel de vítima, deixa de pertencer a este grupo. Desta forma, e pese embora todos os aspectos de significação, também os grupos de auto-ajuda correm riscos. Frequentemente, a identidade do grupo ordena que somente se possa participar quando se sofre.
  6. O sofrimento caracteriza-se geralmente pela passividade, portanto, deixar a posição passiva significa agir e passar do papel da vítima ao de sacrificador. Neste contexto positivo, ser sacrificador significa assumir uma responsabilidade e “entrar em acção”. Pude observar que os sofredores sentem uma forte inibição para colocar-se em acção, devido às implicações familiares procedentes de gerações anteriores (homicídio, desapropriação, etc.). Nestes casos, os sintomas são o fracasso e a falta de trabalho. Aferrar-se ao papel da vítima serve para “não chegar a ser assim, como os pais e os avós”.
  7. O sofrimento pode ser mal interpretado e, dessa forma, restabelecer a própria inocência. Por medo a reconhecer a autoria, a pessoa refugia-se no papel de vítima e volta a ser aparentemente inocente. Como exemplo queria aqui mencionar o papel de muitas pessoas durante o III Reich, que depois da guerra tornaram ao papel de vítimas e “nunca tinham ali estado”. O papel de vítima aqui é quase um fenómeno de massas e foi, durante muito tempo, socialmente aprovado. Esta “falta de reconhecimento” da própria culpa provoca novamente o sofrimento das gerações seguintes.
  8. Frequentemente, como compensação pela culpa “não reconhecida” dos sacrificadores em gerações anteriores, os membros da família subsequentes sentem-se responsáveis infundadamente. Estas implicações provocam uma persistência no papel de vítima. Por lealdade com as vítimas dos sacrificadores, sentem-se traidores quando abandonam esse papel. Assim que o amor pelo sacrificador ganhe espaço, poderá deixar-se com ele os factos que lhe correspondem, resolvendo-se dessa forma a compulsão para o sacrifício. Para os descendentes das vítimas vale a pena frisar que também eles permanecem no papel de vítima “por lealdade com os seus antepassados”. Os sintomas destes sofredores são similares, são formas graves de doença e depressão.

 

Ilse Kutschera e Christine Schäffler In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”.  Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Joanna Concejo

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A ALMA E OS MOVIMENTOS DA ALMA

Por Wilfried Nelles

Traduzido do Inglês por Eva Jacinto

 

Os “movimentos da alma” são algo que podemos perceber de imediato como um movimento subtil interno. Quando estamos ao lado de um ser humano, a nossa alma pode abrir-se e expandir-se ou retirar-se e fechar-se. Acontece frequentemente, geralmente não nos apercebemos, mas conseguimos senti-lo quando nisso focamos a atenção. Tal como notamos de imediato quando a alma de outra pessoa se abre ou fecha para nós. Não só com humanos temos esta experiência, mas também com os animais, plantas e toda a natureza, até mesmo com nós próprios podemos ter esta experiência.

W. Kandinsky. Black increasing (1927)

Este movimento parece-me ser um processo natural, uma espécie de ritmo, como as marés. Mas para muitas pessoas este movimento está limitado, com alguns está quase completamente congelado. Experienciamos este torpor como um sentimento de estar separado, como isolamento e solidão. A razão desta contracção e torpor da alma é sempre algum evento traumático, seja sistémico ou pessoal. Na terapia tentamos aliviar este torpor, a fim de permitir que a alma se expanda, pois o movimento natural da alma é o de se abrir a espaços cada vez mais amplos.

Esta abertura da alma é também uma condição prévia para a percepção fenomenológica e insight. Adoptando a atitude fenomenológica, observo aquilo para que olho não apenas como objecto, mas como sujeito com alma (mesmo que seja apenas um pedaço de pedra). Abro a minha alma o suficiente para poder ser tocado pela alma daquilo que contemplo. E então, chega até mim uma mensagem vinda daí. Em vez de falar de uma abertura da “minha” alma, pode ser mais apropriado falar de uma abertura para a alma, de uma abertura em direcção à dimensão da alma. Formulação que exprime melhor que este espaço não está definido por limites e pertença; não falamos acerca de algo que é meu, mas acerca de crescimento e de estar conectado a tudo que o está.

Bert Hellinger descreveu isto afirmando que nós não temos uma alma, mas estamos dentro de uma alma. A alma não está dentro de nós, mas à nossa volta. Este ponto é crucial. É uma extensão decisiva da compreensão corrente de alma. Quando sintonizamos com esta imagem, percebe-se imediatamente que algo dentro de nós se abre e amplia. Então a alma não me pertence, eu pertenço à alma, sou mais ou menos parte dela. Acrescentaria ainda que a alma deverá ser considerada mais como uma qualidade ou dimensão do que como uma entidade que pode ser encontrada em algum lugar (dentro ou fora). Considero que ambos são verdadeiros: a alma está tanto dentro de nós como ao nosso redor. Penso que não devemos imaginar a alma como uma coisa, como algo localizado nalgum lugar, dentro ou fora. Para mim, a alma é aquilo que liga e conecta. O que me liga a outras pessoas e a tudo o que existe à minha volta. Quanto mais ampla a minha alma, mais aberto estou a esse espaço, a esta dimensão que é a alma, mais conectado estou. Nesse sentido, o crescimento espiritual nada mais é que uma extensão do meu sentido de ser, da minha identidade, em direcção ao espaço cada vez mais amplo e constantemente em movimento da alma.

Não se trata aqui de elaborar uma definição precisa, mas apenas de representar aquilo de que falamos quando falamos da alma ou dos movimentos da alma. Considero ser importante compreender que a alma não é uma construção mental, mas algo real que podemos perceber e sentir exactamente naquele momento em que a alma se está abrindo ou fechando, quando está em movimento. E em segundo lugar, que isso é algo natural e que acontece constantemente – por isso não é um método de constelação.

Quando olhamos para o trabalho das constelações, parece bastante claro que as constelações familiares foram orientadas, desde o início, para esta abertura do espaço da nossa alma. Ou deveria dizer, orientado para a abertura de nós próprios para aquele espaço da alma, para a conexão com esta dimensão? Esta abertura foi apoiada pelo facto de o facilitador não olhar apenas para o cliente, mas tendo em conta toda a família ou clã na sua alma.

Assim, esta abertura começa com o terapeuta, que dá espaço a todos no movimento da sua própria alma, sem fazer qualquer diferença, mas especialmente àqueles que foram excluídos, esquecidos, desvalorizados e repudiados. Assim, as Constelações Familiares exigem um movimento da alma que está para além de todas as questões de método do terapeuta, um movimento para uma maior abertura e abrangência.

Sob esta perspectiva, as mudanças inspiradas ao longo dos anos por Bert Hellinger não são, nem mais nem menos, do que um movimento cada vez mais amplo e profundo da alma que integra cada vez mais sem operar diferenças. No início havia o movimento de olhar apenas para o cliente para ver toda a família, rapidamente então, para além da família, o olhar passou a dirigir-se àqueles com quem não se está relacionado por laços de sangue e posteriormente mesmo até para os inimigos, tiranos e assassinos em massa, com a mesma abertura em relação ao bem e ao mal, para finalmente alcançar o que Hellinger chama “espírito-mente”.

 

Wilfried Nelles (2007) In Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

 

Tradução do inglês por Eva Jacinto

 

Texto integral aqui: Wilfried Nelles (2007). Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

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B. HELLINGER: A EMPATIA

BERT HELLINGER:

Na formação de psicoterapeutas e também na formação de assistentes socais, dá-se muito valor ao exercício da empatia, ao sentir com o cliente.

Mas o que é que acontece ao terapeuta que sente empatia por um cliente? O que se passa com os terapeutas, o que fazem na realidade com o cliente?

– Convertem-no numa criança e comportam-se como se fossem a sua mãe ou pai. E uma vez estabelecida esta empatia, impedem que o cliente actue.

 

(clique na imagem para assistir ao vídeo desta palestra)

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SOBRE O ABUSO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES

SOBRE O ABUSO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES…

 

O perigo das constelações familiares radica no uso superficial desta forma de psicoterapia. “Vou constelar o meu sistema de origem e noutra vez vou constelar o meu sistema actual”. As constelações familiares como tendência, como fenómeno de moda, degradam este método reduzindo-o a um artigo de consumo. Esta utilização pouco formal das constelações familiares não serve o paciente, mas cria-lhe a ilusão de resolver todos os problemas de forma rápida através de uma constelação. Ao iniciar cada grupo, digo aos meus pacientes: “No melhor dos casos, a
constelação é, nem mais nem menos, um passo no teu desenvolvimento”. Alem disso, gosto de empregar a imagem de um veleiro que modifica o seu curso original em aproximadamente um grau e, portanto, chegará a outro lugar completamente diferente daquele projectado inicialmente. Assim também a constelação pode produzir uma grande mudança com uma pequena “correcção de curso”. Esta modificação situa-se na atitude interna do paciente, no critério pessoal. A constelação não é um elixir, não é um truque de magia nem significa que o problema tenha sido solucionado para sempre.

 

In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”, de Ilse Kutschera e Christine Schäffler. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Toni Demuro

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DAR E RECEBER

DAR E RECEBER

O assunto central na dinâmica de dar e receber é a aceitação da vida, tal como a recebemos dos nossos pais. Não temos outra possibilidade, uma vez que as condições nos são dadas com antecedência. Assentir é a premissa para a felicidade: “Tomo a vida tal como ela me foi dada”. Pela minha experiência verifico que este método, lógico e aparentemente simples, é com frequência difícil de levar a cabo. Honrar o pai e a mãe não significa estar de acordo com todos os seus actos, mas antes recebermos agradecidos e apreciarmos tudo quanto nos puderam dar.

Se a pessoa se nega a receber, pode ter a sensação de se “sentir melhor”. “Quando recebes, sentes-te culpado” – o significado que Bert Hellinger dá à palavra culpa nesta frase não é a do seu sentido limitado, mas antes no sentido da obrigação de recompensar. Quando não se recebe, não existe culpa nem obrigação, portanto, fica-se basicamente livre. Contudo, quem não recebe mantém exigências: “mais dinheiro, mais compreensão, mais apoio, outra infância, outras formas de amor, etc.”. Ninguém consegue satisfazer estas exigências e portanto geram discordância e a sensação de ter sido colocado à margem, o que por sua vez alimenta novas exigências.

Elisa Talentino

Todas as relações funcionam mediante o dar e receber. Se uma pessoa se nega a tomar o amor que recebe e compensa essa necessidade com o consumo de bens materiais, então as relações ficam em perigo. Todos conhecemos “pessoas que nunca estão satisfeitas”. O consumo torna-se cada vez mais o centro da vida, enquanto a vida, o amor, a fidelidade continuam a ser bens inestimáveis. O consumo, que se nutre da exigência, é um substituto do receber no campo das relações e impede a satisfação. Bert Hellinger diz: “Voracidade significa querer ter sem tomar”. Uma relação promove-se na medida em que se receba agradecido e se devolva algo com mais amor. Assim a relação pode crescer e alimentar-se o “círculo vicioso”. (…). O agradecimento reconhecido é um das formas mais essenciais de equilíbrio.

 

In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”, de Ilse Kutschera e Christine Schäffler. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Elisa Talentino

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INFELICIDADES A DESPRENDER

 

Infelicidades de que Devemos Desprender-nos para que Haja Liberdade. O Equilíbrio entre o Dar e o Receber

Por Joan Garriga

 

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade e, ainda que num plano se a deseje intensamente, noutro plano é difícil permitir-se ser intencionalmente feliz quando se sabe que outras pessoas na família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Querubim Lapa. cabeça de Mulher Caracol

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e,

por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”. Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí também vemos, com frequência, como os sucessores tratam de expiar culpas dos antecessores ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial, a vida, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente:” “a este preço tão elevado não a quero e portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas assim, o que é que a mãe ganha? De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu, de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos. Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Querubim Lapa | Placa de cerâmica: Cabeça de mulher-caracol | 1970 | Museu Nacional do Azulejo

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SOBRE A SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO

Sobre a separação e divórcio

Por Bert Hellinger (In “A Simetria Oculta do Amor”)

 

Não raro, as pessoas optam por sofrer durante muito tempo antes de se sentirem livres para liquidar uma má situação, porque não querem ferir o parceiro ou porque receiam o que os outros vão dizer ou pensar. Usualmente, a pessoa deseja um espaço novo e maior, mas não acha justo trabalhar para isso, porque assim vai magoar alguém. Age como se o seu próprio sofrimento pudesse neutralizar o sofrimento do parceiro ou justificar as suas acções aos olhos dos outros. Por isso o processo de divórcio é tão demorado.

Quando finalmente se dá a separação, ambos os parceiros se vêem diante das possibilidades e riscos de um novo começo. Se um deles rejeitar a oportunidade de um novo começo e ignorar a possibilidade de criar algo de bom, preferindo apegar-se à dor, torna-se difícil para o outro parceiro libertar-se. Por outro lado, se ambos aproveitarem as oportunidades surgidas e fizerem alguma coisa com elas, ambos se libertarão e ficarão aliviados do fardo. Entre todas as possibilidades de perdão nas situações de divórcio e separação, esta é a melhor, porque traz harmonia mesmo quando a separação ocorre.

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Se a separação é dolorosa, há sempre a tendência a procurar alguém para incriminar. Os envolvidos tentam aliviar o peso do destino arranjando um bode expiatório. Em regra, o casamento não se desfaz porque um parceiro é culpado e o outro inocente, mas porque um deles está assoberbado por problemas da sua família de origem, ou ambos caminham em direcções opostas. Se se incrimina um parceiro, cria-se a ilusão de que algo diferente poderia ter sido feito ou de que um comportamento novo salvaria o casamento. Nesse caso, a gravidade e a profundidade da situação são ignoradas, os parceiros começam a recriminar-se e a acusar-se mutuamente.

A solução para combater a ilusão e a crítica destrutiva é resignar-se à forte dor provocada pelo fim do relacionamento. Essa dor não dura muito, mas é lancinante. Se os parceiros se dispuserem a sofrer, poderão tratar do que merece ser tratado e dispor as coisas que precisam ser dispostas com lucidez, ponderação e respeito mútuo. Numa separação, a raiva e a censura estão a substituir o sofrimento e a tristeza. Continue reading

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Movimentos Fundamentais da Alma

 

Há dois movimentos fundamentais da alma. Um movimento é o que leva à vida. O outro é um movimento inverso, que leva à morte. E como se demonstra isto? O movimento para a vida é um movimento que leva a mais e mais e mais. O movimento para a morte é um movimento para menos, menos e menos até que tudo acaba.

 

In Meditaciones de Bert Hellinger, Grupo Cudec Editorial

 

tronco arvore

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PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

Por Joan Garriga *

 

As grandes questões existenciais concernem a alma. Ultimamente tenho vindo a dizer que, de forma resumida, qualquer problema que enfrentamos na terapia está relacionado com o facto de existir algo que não somos capazes de amar ou de integrar, não somos capazes de lhe dar um bom lugar no coração. E isso tem consequências: adoecemos, aparecem os sintomas, as más relações, os problemas, etc.. Dizemos não a algo ou a alguém e retraímos a nossa alma, em vez de expandi-la. Este algo pode ser algo da realidade e dos factos, como o amigo que ficou doente, o pai que morreu, etc.. A Buda, por exemplo, morreu-lhe a mãe no seu terceiro dia de vida. Pode-se dizer “isto não deveria ter sido assim” e deste modo não podemos amar nem apreciar esta parte da realidade. Às vezes não podemos amar ou apreciar algo de nós próprios e dizemos: “não, eu não deveria ter esta timidez” ou “não, eu não deveria ter medo” ou “devia ser mais simpático” ou “devia ser mais bem-sucedido” e então, no fundo, consideramos que há partes de nós que não merecem ser blossoming-odilon-redon-1910-14respeitadas e estamos em luta com elas, ou seja, dizemos “não” e estamos numa guerra interior com nós próprios. Às vezes dizemos “não” às pessoas, dizemos “o meu pai portou-se mal comigo” e fechamos-lhe o coração ou “a minha avó pôs chifres ao meu avô” e fecho-lhe o meu coração ou “aquele meu amigo devia tratar-me da maneira X”. E então estamos numa guerra interpessoal. Quando olhamos para o fim dos problemas que surgem na terapia podemos sempre rastrear e encontrar algo a que a pessoa não pode dizer “sim”, diz-lhe “não”. Então aquilo de que se trata é conseguir uma maneira de fazer poder integrar aquilo que se rejeita e de se estender naquilo que fecha. E nesse sentido creio que a espiritualidade e a psicoterapia apontam na mesma direcção, mas isto muitos psicoterapeutas negam e diriam que a psicoterapia não tem nada a ver com a espiritualidade; sem dúvida que existem muitas técnicas que fazem com que algumas pessoas resolvam problemas e mudem e que pouco têm a ver com a espiritualidade. Embora, e na verdade se as analisarmos com precisão, vemos que no fundo quase sempre conduzem a uma maior assunção de responsabilidade das pessoas sobre a sua própria realidade. A terapia pode manipular o ego para afastá-lo daquilo que ele tem que enfrentar, mas trata-se de soluções passageiras e calmantes que duram apenas um tempo. A grande mudança, a que dura, muda algo de essencial na nossa atitude. Integra em vez de destruir, une em vez de separar, acolhe em vez de amputar. Diz “sim”.

 

Joan Garriga In Sobre la Terapia y la Espiritualidad. Revista Conciencia Sin Fronteras, nº 34. Diálogo entre Joan Garriga y Julián Peragón.

Tradução do castelhano por Eva Jacinto

Pintura: Desabrochar, de Odilon Redon, 1910-14

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