Hellinger Sciencia

Hellinger Sciencia

A ciência dos relacionamentos em todos os âmbitos da vida.

Artigo de Bert Hellinger

A Hellinger Sciencia, intencionalmente escrita desta maneira, é uma “scientia universalis”, por referência à tradição filosófica original. É uma ciência universal das ordens e das leis que actuam em todos os vínculos e interacções humanas relevantes.

Estas ordens aplicam-se, em primeiro lugar, às relações dentro da família, ou seja, às relações entre homem e mulher e entre pais e filhos, o que inclui as relações que se estabelecem no âmbito da sua educação.

Abrange também as ordens que dizem respeito à vida profissional, nas organizações e instituições, estendendo-se ainda às ordens entre grupos mais vastos, como povos ou culturas.

Simultaneamente trata-se de uma “scientia universalis” das desordens que levam ao conflito nas relações humanas, isto é, daquilo que separa as pessoas em vez de as unir.

Estas ordens e desordens também se transmitem ao corpo, desempenhando um importante papel nas doenças, assim como na saúde do corpo, da alma e da mente.

Por que razão utilizo o termo Hellinger Sciencia? Ao longo de várias décadas dediquei-me a colher e a descrever de forma livre estas compreensões. Testei-as em situações de vida real e de uma forma pública. Isto permitiu que muitas pessoas examinassem os seus efeitos, tanto nelas próprias como nas suas relações pessoais.

Enquanto ciência, a Hellinger Sciencia é um trabalho em contínua progressão, o que significa que evolui de forma ininterrupta, não só através do meu trabalho como também através da experiência e das compreensões de numerosas pessoas que fizeram com ela (e com as suas consequências) um compromisso de dedicação.

Enquanto ciência viva, não lhe é possível forjar os alicerces estáticos que lhe confeririam o estatuto de escola, como se de um saber completo e definitivo se tratasse e que pudesse, enquanto tal, ser transmitido e aprendido. O desenvolvimento da Hellinger Sciencia procede sem controle de eficácia, uma vez que os seus efeitos não podem ser avaliados por parâmetros que lhe são externos e depois esperar-se que esses mesmos padrões de avaliação a justifiquem. A verificação reside no seu efeito, sendo este o seu sucesso.

Sob todos os ângulos, a Hellinger Sciencia é uma ciência aberta.

A dimensão espiritual da Hellinger Sciencia

Para além das compreensões acerca das ordens e desordens nas relações humanas, que podem ser demonstradas de uma forma directa e imediata, a Hellinger Sciencia alcançou uma outra dimensão – a dimensão espiritual.

É unicamente a partir desta dimensão que podemos estar cientes do que podem atingir estas compreensões, do seu alcance. Somente através do reconhecimento e admissão deste nível podemos entender o seu significado universal e experienciar as suas consequências em todas as esferas.

O que é esta compreensão espiritual e quais são as suas dimensões? Esta compreensão provém de uma observação profunda: tudo o que existe não se move por vontade própria, sendo antes movido por força externa. Todas as coisas viventes, mesmo quando parecem mover-se por si próprias, têm uma origem que não pode provir de si mesmas. Todo o movimento, incluindo todo o movimento de tudo o que está vivo, resulta de um movimento exterior. Isto não é apenas verdade para o início de um movimento, mas continuamente, durante todo o tempo em que dure a sua existência.

Mas há algo mais a considerar: todo o movimento, especialmente todo o movimento das coisas vivas, é um movimento conhecido, consciente e com um propósito. Este conceito pressupõe uma consciência na própria força que tudo movimenta. Por outras palavras, todo o movimento é deliberado, inicia-se porque é pensado por esta força e torna-se exactamente no movimento que foi por ela pensado.

O que é que dá então início a cada movimento? Um pensamento que pensa tudo tal qual como é.

O que resulta daqui? Para este pensamento nada existe que não seja da forma que ele quer que seja e que não se mova da forma exacta que ele quer que se mova. Todo o movimento é um movimento do espírito. Por isso, para este espírito nada acaba. Tudo o que foi, é: o espírito continua a pensar-nos do mesmo modo que nos pensou no passado, no presente, e também como pensa tudo o que está para vir.

Porque ele pensa aquilo que está para vir ao mesmo tempo que pensa aquilo que já foi. O que já foi está completamente relacionado com o que está para vir. O que foi movimenta-se em direcção ao que está para vir e nele encontra a sua realização plena.

O que está para vir irá converter-se em algo que já foi e no passado moveu-se em direcção ao que está para vir. Para nós é inconcebível que este pensamento que tudo movimenta possa chegar ao fim. Tal como não pode existir nada que não tenha sido concebido por ele, nada pode vir depois dele. Pois, quem ou o que poderia ser pensado depois dele?

Com este pensamento em mente, deixam de ter importância muito dos pressupostos e ideias que até agora considerávamos fundamentais, como por exemplo, o conceito de livre arbítrio ou o de responsabilidade pessoal. Caem por terra muitos dos juízos de valor e noções que consideramos essenciais na nossa cultura. Mas o principal tema que se dissolve em face do espírito diz respeito às distinções que fazemos entre bem e mal, entre certo e errado, entre eleito e rejeitado, entre acima e abaixo, alto e baixo, melhor e pior e, em última análise, entre vida e morte.

Continuamos, contudo, a fazer estas distinções e vivemo-las como se fossem reais. Mas não serão também elas, as distinções, concebidas pelo espírito?

Neste ponto há que considerar o seguinte: o passado (o que foi) e o futuro (o que está para vir) não são a mesma coisa. O que foi vem na direcção daquilo que está para vir. Portanto, na nossa experiência vivenciamos algo que é semelhante a um “antes” e a um “depois” e também a um “mais” e a um “menos”.

Mas o que é este “menos” e o que é este “mais”? Trata-se de menos consciência e de mais consciência. Encontramo-nos num movimento em que, em sintonia com o espírito e o seu movimento abrangente, vamos de menos conscientes para mais conscientes. Então, e para nós, existe um movimento que vai de menos para mais, o qual não é concebível pelo espírito, pois para ele não existe tal coisa como um mais ou um menos. Não obstante, este movimento de menos para mais, com tudo aquilo que ele nos concede, é pensado por este espírito neste mesmo movimento. É pensado desta maneira pelo espírito para nós, qualquer que seja a experiência que ele nos imponha ao longo deste caminho que nos leva a uma “mais” consciência.

Quem alcança esta expansão da consciência? Quem consegue mover-se em direcção a este “mais” em sintonia com a consciência do espírito? Poderá ser alcançada individualmente? Pode a resposta estar em nós, na duração apenas desta vida? Ou será uma resposta de todos os seres humanos – passados, presentes e futuros –, que em conjunto, como se de um só se tratasse, vão por este caminho alcançar o “mais” de consciência? Alcançamo-lo juntos, com todas as experiências que alguma vez todos os seres humanos tiveram e que ainda terão que ter, tanto nas nossas vidas como na de muitos outros, e tanto nesta vida como em muitas outras vidas? Também aqui será o alcance colectivo?

Liberdade

Temos naturalmente e sob muitas formas um sentido de liberdade. E também nos sentimos responsáveis pelas nossas acções e pelas suas consequências. No entanto, e ao mesmo tempo, sabemos que a nossa liberdade, a nossa responsabilidade e a nossa culpa, com todas as suas consequências, foram pensadas e movidas e desejadas através do poder de outra força, uma força espiritual que tudo move, mas de uma forma tal que as experienciamos como sendo nossas.

Acaso nos comportamos e actuamos, por isso, de forma diferente? Poderíamos fazê-lo? De onde poderíamos retirar a força para nos movermos e actuarmos de forma diferente?

O que é que nos resta, então, fazer? Continuar como antes e estarmos de acordo com a nossa liberdade e a nossa responsabilidade, com o nosso passado e com a nossa culpa e todas as suas consequências, tal qual como a vivenciamos.

Ao mesmo tempo experimentaremos uma maior sintonia consciente com este espírito que tudo move. Também o experienciamos como uma maior consciência, tanto para nós como para todos aqueles que suportam as consequências da nossa liberdade e responsabilidade e que têm sido envolvidos nas consequências das nossas acções e da nossa culpa.

Diferentes pessoas adquirem diferentes experiências a partir de um mesmo acontecimento. Quando simultaneamente percebem que se é livre e que não se é livre, ganham um suplemento de consciência e talvez também uma maior sintonia com este espírito que tudo move. Ganham um suplemento de consciência que os leva, e aos outros, um pouco mais longe nesse caminho para uma consciência mais abrangente.

Preocupações e ansiedades

Nesta dimensão espiritual as preocupações chegam a um fim, incluindo as preocupações acerca da Hellinger Sciencia. Esta proveio de um movimento do espírito, tal como por ele foi pensado, e permanece neste movimento, quer as pessoas o rejeitem quer o aprovem. Como ciência universal ela demonstra a sua verdade através dos seus efeitos.

Que dizer acerca das nossas preocupações em relação ao futuro – do nosso futuro, do futuro dos outros ou do futuro do mundo? Não serão estas preocupações de alguma forma absurdas, como se através delas pudéssemos constituir uma força contra os movimentos do espírito, como se não dependessem deste?

As preocupações que estão em sintonia com os movimentos do espírito são diferentes. São preocupações que derivam de um sentido de cuidado pelo mundo e ao serviço do mundo, tal como o espírito o está movendo. Estão em harmonia com as suas preocupações e com o seu serviço. Estas preocupações estão em harmonia com as ordens da vida, incluindo as que concernem ao seu início e ao seu fim.

O futuro e o agora

Em sintonia com os pensamentos do espírito, todo o futuro está aqui connosco neste momento. O espírito pensa a totalidade neste momento. Na dimensão do espírito, todas as preocupações acerca do futuro imediato cessam. O que quer que nos preocupe é-nos de imediato mostrado em sintonia com o espírito. Por que existe algo que virá, existe futuro, mas trata-se de um futuro-agora.

A Hellinger Sciencia é uma ciência para o agora. Todas as suas compreensões têm um efeito agora e funcionam de imediato. Cada objecção a estas compreensões também tem o seu efeito no agora e de imediato. Isto deve-se ao facto de a Hellinger Sciencia ser uma ciência empírica, uma ciência das nossas relações no agora.

O amor

Em última instância a Hellinger Sciencia é uma ciência do amor. É uma ciência universal do amor. É a ciência daquele amor que tudo abarca da mesma maneira.

De que forma alcança o êxito este amor? Tem êxito em sintonia com o pensamento do espírito que move tudo tal como foi pensado. É amor em sintonia com o pensamento do espírito.

Este amor está consciente, com toda a clareza, dos movimentos do espírito. Sabe como ama e como lhe é permitido amar, porque está consciente de que é amor em sintonia com a consciência do espírito. Sente esta consciência como uma compreensão. Este amor é, portanto, puro, como a consciência do espírito. É puro porque é movido por outro pensamento. Este amor é um amor consciente é puro amor com-ciente.

Portanto, é também um amor criativo, criativo em sintonia com o pensamento do espírito. E daí que este amor também se converta em ciência, numa ciência universal. Como ciência universal, funciona universalmente.

 

© Traduzido do inglês por Eva Jacinto, a partir de

http://www2.hellinger.com/en/home/family-constellation/hellinger-scienciar/

 

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