Lei sistémica de inclusão

Lei sistémica de inclusão e integridade do sistema

As constelações são úteis para nos relembrarem da experiência sempre nova, e sempre rapidamente esquecida, de que falhamos nas nossas tentativas de excluir tudo aquilo a que chamamos o mal. Quer seja como indivíduos, quer como famílias, comunidades ou grupos religiosos, étnicos ou políticos, seguimos o impulso para manter o estranho, o desconhecido, o assustador e o ameaçador longe da nossa consciência, seja que ele venha de dentro de nós ou de uma fonte externa. E é só uma questão de tempo até termos de reconhecer a lei natural – que Freud designa por “retorno do recalcado” – de que nos tornamos naquilo que rejeitamos.

"O amor é cego e fala com o coração nas mãos" - figura do imaginário alentejano. Boneco de Estremoz dos Irmãos Ginja

“O amor é cego e fala com o coração nas mãos”

Nós próprios e os sistemas de que fazemos parte somos extremamente inclusivos. Quando rejeitamos e excluímos o avô alcoólico e violento, a consciência sistémica de integridade e inclusão – uma das leis sistémicas naturais – toma conta da pertença do avô ao sistema, impelindo um filho, um neto ou um bisneto a, inconscientemente, falhar e tornar-se violento ou alcoólico como o avô. Quando uma tia esquizofrénica passa a sua vida num hospital psiquiátrico, parecendo aos seus parentes que ela é estranha e esquisita, e sendo evitada e esquecida por eles, ela será remembrada, i.e., torna a ser de novo um membro do sistema, por intermédio de outro membro da família. Por exemplo, uma sobrinha, talvez sem qualquer conhecimento da existência desta tia, pode tornar-se uma pessoa esquisita, estranha e solitária, repetidamente tomada por sentimentos de des-realização e solidão, tal como a sua tia. Chamámos a este processo trans-pessoal “pertença sombra” ou “lealdade sombra”, “inclusão sombra” ou também “amor sombra”, porque ele é cego, inconsciente e, muitas vezes, extremamente doloroso nas consequências que desencadeia.

A única resposta para a inclusividade radical dos nossos sistemas e da vida em geral é a de conscientemente praticarmos essa mesma inclusão, o que significa um esforço muito gratificante para honrar tudo e todos na sua legítima existência, no seu espaço e na sua pertença. Isso não é certamente fácil e significa uma luta continuamente em curso e uma contínua atenção afectuosa.

Belas surpresas nos esperam, tal como nos mitos e contos de fadas, quando o exasperante, o mau, o revoltante e repugnante, as criaturas das sombras e o horrível se transformam para nós nas mais importantes fontes de compreensão, apoio e compaixão – assim que eles sejam realmente vistos e incluídos na nossa vida.

Assim, as constelações familiares são uma estratégia de educação transpessoal extremamente útil, não só para cuidar das vítimas de eventos nocivos, mas também para, de forma explícita, nos voltarmos para aqueles que no nosso entendimento de senso comum falharam, são culpados, maus, imorais, violentos, abusadores, odiosos ou sórdidos.

Retirado de

Family Constellations – Failure, Evil, and Guilt as Sources for Loving Dedication and Compassionate Strength. Conferência de Albrecht Mahr na International Transpersonal Association Conference. Junho 2004, Palm Springs, Califórnia, EUA.

Tradução do inglês de Eva Jacinto

Imagem: “O amor é cego e fala com o coração nas mãos” – figura do imaginário alentejano (Portugal). Boneco de Estremoz executado pelos artesãos Irmãos Ginja.

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