LIBERTAÇÃO

O Óbvio Intangível

por Roger Linden

Georgia O'Keeffe -Jack-in-the-Pulpit No. VI -1930

Georgia O’Keeffe, Jack-in-the-Pulpit No. VI (1930)

Libertação é a compreensão da óbvia, e contudo inimaginável, realidade de que a experiência da vida não inclui um eu individual. Aquilo que consideramos ser o cerne de toda a experiência, a saber, o facto de termos de lá estar a vivê-la, não é o que está a acontecer. Não és tu que estás a ter a experiência de ler estas palavras, tu a leres é (que é) a experiência. O sentido do eu é parte da experiência, é parte daquilo que está a acontecer.

Pensamentos, emoções, um sentido de fisicalidade e especialmente as contracções musculares apoiam a ilusão de que existe um eu pessoal, localizado dentro de um corpo. Eu pareço estar na minha cabeça a olhar para fora e experienciando a vida a partir desta perspectiva. Esta é a experiência da dualidade aparente.

Não existe um “eu” ciente de si mesmo e consciente de estar vivo e encarnado, a fazer escolhas e a encetar acções. Só existe consciência, ser, despertar, um eu não-pessoal. É atemporal, silencioso, amplidão lúcida. Não sou eu que estou acordado e consciente da minha experiência. É a consciência, onde aparece o sentido de mim e da minha experiência. Eu e tudo aquilo que eu percepciono é a familiar experiência da vida. Ou parece ser. Mas não existe o eu, existe somente o eu não-pessoal, consciência, na qual aparece o sentido de mim e da minha experiência.

A procura é impulsionada por um sentimento de incompletude, de algo que falta, um desejo de nos sentirmos à vontade, como que em casa, dentro de nós próprios. Encontrar um sentido e um propósito de vida pode certamente parecer ajudar, assim como as práticas de meditação. No entanto, e apesar dos muitos benefícios, estas não satisfazem plenamente. E isto deve-se ao facto de elas não poderem alterar ou remover o convincente pressuposto de que existe um eu experienciando-as.

Libertação é a completa e permanente dissolução de qualquer senso de um eu separado. Não é uma apreciação intelectual ou uma visão intuitiva sobre a natureza da realidade. É como a quebra de um fecho de vácuo ou o rebentar de uma bolha. É o fim da procura e a compreensão de que só existe a plenitude. O que resta é silencioso, espaçoso despertar, a consciência, dentro do que o maravilhoso e claro imediatismo da vida aparece. E a experiência é delicada, pacífica e alegre, é amor.

 

Texto de Roger Linden, retirado daqui www.rogerlinden.com, traduzido do inglês por Eva Jacinto

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