MOVIMENTO INTERROMPIDO

Movimento interrompido

O movimento interrompido é o retraimento emocional da criança, causado pela sua repetida e profunda decepção perante a inacessibilidade emocional da sua mãe ou do seu pai. Pode derivar da perda real do progenitor, da sua separação ou da sua ausência emocional. Se nos pais se observa uma implicação sistémica e eles empregam a sua energia vital na procura de um equilíbrio no seu sistema de origem, eles não estarão disponíveis para a criança na qualidade pais. A interrupção pode ocorrer de forma completamente involuntária e contra o desejo dos pais. Por exemplo, se a criança tiver de ficar internada durante algum tempo num hospital e isso resultar numa suspensão de contacto entre ela e os seus pais, porque eles não a podem visitar ou, como acontecia no passado, as visitas lhes eram proibidas, esta situação pode originar uma interrupção do movimento de aproximação por parte da criança. O mesmo se aplica quando se for a mãe a adoecer.

Por outro lado, se um dos pais estiver ausente, é possível evitar um movimento interrompido se um dos progenitores representar o outro com respeito e honra e falar sobre ele, frente à criança, de maneira carinhosa. A partir de um amor profundo, a que Hellinger chama amor original ou amor primário, o filho quer fazer qualquer coisa pelos seus pais. Se estes rejeitam os seus esforços ou o seu carinho, não os respeitam ou a ausência emocional do pai ou da mãe os impede de demonstrar reciprocidade, “(…) o amor pelo progenitor converte-se em dor. Trata-se de uma observação fundamental e importante: que a dor emocional é amor interrompido e que esta dor é, na realidade, outra faceta do amor. Embora a dor seja realmente uma forma de amor, a sua intensidade é tal que a criança se recusa a experimentá-la” (Hellinger, 2001*). O filho, então, deixa de tentar aproximar-se aos seus pais e não está disposto a voltar a fazê-lo. No final, rejeita por completo qualquer tentativa, porque tudo o que ele quer é proteger-se da dor. Os clientes, a partir desse ponto, não querem ter nada a ver com os seus pais, que são as pessoas que lhes causaram dano. Não têm nada de bom a dizer sobre eles, interrompem o contacto ou não sentem nenhum sentimento, nem positivo nem negativo, sobre eles, o que pode ser interpretado como uma “repressão”. Contudo, esta não é uma resolução estável, mas uma estagnação, pois, e de acordo com Hellinger, o amor entre o pai ou a mãe e a criança deixaram de fluir. Através da terapia é possível restaurar este movimento e, assim, criar um vínculo com a geração anterior, o que significa que o cliente estará livre de sentimentos negativos em relação aos pais, com quem os vínculos são tanto mais fortes quanto maior a acusação, raiva ou decepção.

 

In Ursula Franke (2011). El Río Nunca Mira Atrás. Gulaab, Madrid

Traduzido do espanhol por Eva Jacinto

 

*Hellinger, B. (2001): Love’s Own Truths. Bonding and Balancing in Close Relationships. Phoenix, AZ (Zeig, Tucker & Theisen).

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