AS ORDENS DO AMOR

Excerto de uma entrevista feita pelo jornalista e autor Martin Buchholz a Bert Hellinger, que apareceu originalmente na revista “Help for Daily Living” em Outubro 2013.

 

Martin Buchholz: Em primeiro lugar quero colocar uma questão sobre a expressão por si cunhada “ordens do amor”. O que significa?

Bert Hellinger: Ordem é aquilo de acordo com a qual algo se desenvolve. Uma árvore, por exemplo, desenvolve-se de acordo com uma ordem. Caso contrário não irá ser uma árvore. E ainda assim cada árvore é diferente. Ordem não é algo de estático. É um princípio vivo.

O amor significa aqui, é claro, a relação entre os seres humanos. Ele também ocorre de acordo com certas ordens. Quando temos conhecimento sobre estas ordens, os nossos relacionamentos tornam-se mais bem-sucedidos.

Martin Buchholz: Como sabe quais as ordens que nos são dadas?

Bert Hellinger: Eu não obtive esse conhecimento no sentido de reflectir sobre o assunto e com isso alcançá-lo. Isto não é possível dessa forma. Estas ordens revelam-se a si mesmas. Vou voltar ao exemplo das árvores. A aparência da árvore mostra a ordem de acordo com a qual ela cresce. Assim, um abeto cresce de forma diferente de um carvalho. Elas seguem ordens diferentes. Posso ver essas ordens e distinguir entre elas. Algo de semelhante ocorre com as relações humanas. Quando as pessoas acatam certas ordens, o amor decorre de uma melhor forma.

Martin Buchholz: Quando descreve essas ordens, por vezes inesperadamente uma verdade revela-se. Gostaria de saber se se experiencia a si mesmo como uma espécie de médium. Quem é que traz estes factos à luz?

Bert Hellinger: Aqui temos de ter em mente que tudo acontece por meio dos representantes. Podemos observar que os representantes, de repente, se sentem como as pessoas que eles estão a representar. Então, eles estão em conexão com algo maior e é nesse campo que sentem alguma coisa. Quando eu dirijo algo assim, também estou em conexão com este campo. Recebo informações a partir daí, desde que e enquanto eu me expuser. Eu acompanho essa informação. Mas se eu pensar “o que eu tenho que fazer agora?”, então eu já não estou em contacto com esse campo. Esse contacto só é possível através da máxima contenção. Exactamente porque eu não tenho nenhuma intenção ou desejo especial, estou em contacto com algo maior e estou, portanto, a ser conduzido.

A este algo maior, podemos dizer, a este campo – alguns chamam-lhe campo. Eu chamo-lhe uma alma compartilhada. Platão já sabia que para tornar a comunicação realmente possível, por exemplo, entre nós os dois, alguma coisa tem de estar entre nós de modo a que eu o entenda plenamente. Ele designava-o por alma.

Zhang DaQian

Martin Buchholz: Às vezes fala de algo que designa através de numerosos termos. Tomei algumas notas: o envolvente último, o grande modelo, o grande todo. Obviamente que se trata de algo que é difícil de descrever, mas o que é que dizer?

Bert Hellinger: Não quero dizer nada. É bastante claro que chegamos ao limite da nossa compreensão, mas aqui temos um sentido, há algo mais que opera. Mas não o conseguimos perceber.

Martin Buchholz: O conceito de alma que utiliza é um termo que geralmente reconhecemos na filosofia ou na teologia. Na psicoterapia tradicional provavelmente usar-se-ia o conceito com cautela.

Bert Hellinger: É o que geralmente acontece com tais conceitos, é exactamente assim.

Martin Buchholz: Isso é uma queixa que as pessoas fazem. Por favor, tenha a bondade de explicar o que quer dizer com isso.

Bert Hellinger: Eu posso defini-lo, não no sentido de o identificar com precisão, mas pode-se descrever a alma através do efeito que ela tem.

Onde quer que vejamos a alma a operar, ela tem duas funções básicas. Primeira, ela une alguma coisa. O nosso corpo, por exemplo, é mantido unido por um poder que coordena todas as funções corporais. Perguntamo-nos que tipo de poder é esse. É a alma.

Em segundo lugar, a alma conduz-nos numa direcção definida. Mas a alma não se limita ao nosso corpo ou a nós como um indivíduo. A família também tem uma alma. Portanto, todos os membros da família respondem de acordo com leis definidas pela alma. Enredos e comunidades de destino só existem por esse motivo. Estes membros da família têm uma alma comum. E, além disso, existem conexões maiores ainda.

Então, há algo que tem um efeito. Eu chamo-lhe a alma. Mas eu não estou a dizer que sei o que isso é. Até agora não encontrei um termo melhor. Bem, na China, encontrei um melhor: o Tao.

O Tao é um poder que dirige e controla tudo. E aqui também no Tao de King, o livro fundamental atribuído a Lao Tse, ele diz: o Tao que pode ser nomeado não é o Tao. Mas toda a gente percebe que existe um tal poder. A palavra Tao é mais geral e evita a apreensão da definição ainda mais facilmente do que a palavra alma. Na China eu uso a palavra Tao. Está mais próxima de mim, de qualquer forma.

Martin Buchholz: Os aspectos importantes sobre constelações familiares segundo Bert Hellinger estão relacionados com a psicoterapia ou com questões de fé, ou ainda com uma atitude básica que é quase religiosa?

Bert Hellinger: Nenhuma delas. Muitos vêm para as constelações familiares mesmo não estando doentes. Para eles as constelações familiares não têm nada a ver com doença ou com psicoterapia. E não são pessoas psicologicamente perturbadas. São pessoas cujo caminho na vida em alguns aspectos chegou a um impasse. Esta é uma matéria humana geral.

A pessoa está talvez à procura de uma saída, ou de uma solução. Neste sentido as constelações familiares estão mais perto da filosofia. É um saber sobre a vida.

 

Excerto de uma entrevista feita pelo jornalista e autor Martin Buchholz a Bert Hellinger, que apareceu originalmente na revista “Help for Daily Living” em Outubro 2013.

Fonte: A Closer Look at Constellations. An Interview With Bert Hellinger 07/30/2014

Tradução do Inglês por Eva Jacinto

Pintura de Zhang DaQian

Tagged , , ,
%d bloggers like this: