Os inimigos do saber, por Bert Hellinger

Transcrição do discurso de Bert Hellinger. Extracto do seminário intensivo em Barcelona (2009).

Carlos Castaneda conta nos seus livros a história do xamã Don Juan. Num desses livros, Don Juan descreve os inimigos do saber, são quatro inimigos. Querem que os nomeie?

Árvore nº 24, de Toni Demuro

Árvore nº 24, de Toni Demuro

O primeiro inimigo do saber é o medo. Aquele que haja superado o medo já não poderá perder o saber. Depois vem o segundo inimigo – a clareza. Quem supera a clareza enfrenta-se com o terceiro inimigo – o poder. Aquele que vença este inimigo defronta-se com o último inimigo. Esta pessoa não se deixará vencer de todo. O último inimigo é a necessidade de paz.

Para ser mais explícito, vou explicar o que quero dizer.
Muito bem… qual é o medo dos que fazem este trabalho, qual é o seu maior medo? É o medo daquilo que os outros possam dizer sobre eles. Conseguem senti-lo? Se eu tivesse esse medo, não me teria tocado a mim nem descrever nem propagar este trabalho. Este é, de longe, o medo mais comum. Com esse medo, permanecemos como crianças.
Outro é o medo de perder clientes. Quando alguém tem este medo, pensam que o espírito o levará a outras e novas descobertas, a novos desafios? Este é um passo decisivo – superar também este medo.
Outros temem o que irá acontecer às constelações familiares quando Hellinger morrer. O que poderá acontecer? O que se passaria comigo se eu tivesse essa angústia?
Há, e são muitos, os que querem ser lembrados após a sua morte. Consagram algo das suas vidas para proteger o seu património, incluindo a sua herança espiritual. Será que assim ainda se encontram num movimento do espírito? Estarão abertos a outras descobertas? Este medo tem muitas facetas.
Eu tenho uma necessidade interior muito profunda e sinto-me bem com ela. Necessito profundamente que me esqueçam. Assim posso estar livre, totalmente livre.
Pois bem, este é o primeiro inimigo do saber – o medo. Eu superei, amplamente, este inimigo. Querem que continue a contar-vos sobre os inimigos do saber?

Aquele que tenha superado o medo já não poderá perder o saber. Aquele que conseguiu ir além do medo deu um passo decisivo. Ganhou a clareza. E a clareza não a pode perder, pois venceu o medo. No entanto, a clareza é o seu próximo inimigo. Por exemplo, ela firmemente estabelece aquilo que na aprendizagem é o certo e o errado. E decide o currículo ao qual todos se devem conformar, e ao qual também eu deveria conformar-me. Assim, a clareza delimita-se e rapidamente se vê ser considerada como clássica. Daqui para a frente o saber já alcançado progride pouco.
Aquele que enfrente este inimigo, ultrapassando qualquer clareza e que procure ir mais longe, aproximar-se do que é novo e do que é superior, podemos dizer que superou o inimigo “clareza”. Ao vencê-lo, ganha poder de muitas maneiras.

Chega então o momento de superar este inimigo também e renunciar ao poder. Por exemplo, ceder o controle e o desenvolvimento de mais força. Este é um estado auspicioso. Aquele que tenha superado o poder vive despreocupado, sem ansiedades porque se encontra guiado e levado por forças potentes.

E então aparece o último inimigo, a necessidade de paz. Tive-a aos 65 anos. Superei este inimigo, até agora está superado.

Extracto do curso de Formação em Barcelona (Setembro de 2009). Tradução do castelhano por Eva Jacinto.

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