OS MORTOS

“Acontece-me que nem sempre os consigo distinguir [os vivos e os mortos]Não estarão ambos presentes, de formas distintas, um de uma forma palpável e o outro encoberto ao nosso olhar?”  Bert Hellinger

 

 Os mortos

Todos os santos e todos os mortos. Onde estão os mortos? Terão, eventualmente, desaparecido? Será que, com a morte, tudo se acaba? Quando plantas e animais morrem, não questionamos se ainda estão presentes, salvo no que diz respeito às suas sementes e rebentos ou aos seres vivos que deles se alimentam. Mas para nós humanos como é que as coisas acontecem? Estará a nossa alma e a nossa parte espiritual sujeitas a um desvanecimento da mesma natureza? Talvez não tenham nada de semelhante à corporalidade do ciclo da morte, possivelmente não estão ligadas aos outros, cumprindo com uma função de alimento e nutrição. Talvez subsistam de forma diferente, sem suporte material.

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Closed eyes. Odilon Redon,1890.

A nossa experiência com os mortos leva-nos nesse sentido. Às vezes aparecem-nos muito vivos nos nossos sonhos, como se ainda estivessem presentes e como se quisessem algo de nós, algo que ainda lhes faz falta. Talvez um reconhecimento ou uma despedida com amor, para poderem finalmente alcançar a separação. Às vezes temos que colocar em ordem certas coisas que não os deixam descansar em paz e que os mantém atados a esta vida. Ao fazer por eles o que eles ainda necessitam, depois de um pequeno período de tempo afastam-se, como se assim eles pudessem, finalmente, ficar com os mortos e encontrar aí a paz.

Da mesma forma, há vivos atraídos pelos mortos. Sentem por eles nostalgia e desejam juntar-se-lhes. Por exemplo, uma mãe às vezes está atraída pelo seu filho morto ou uma criança pela sua mãe falecida. Aspiram à morte como um meio para se unirem aos seus entes amados, de quem sentem a falta. Para eles estes mortos estão ainda presentes e a sua própria morte é uma continuação da vida deles neste mundo.

Outros sentem uma irresistível atracção pela morte, como se um morto ou uma morta os estivesse a arrastar fortemente em direcção a si. Como se estes mortos só encontrassem a tranquilidade se tivessem um vivo ao seu lado. Mas talvez não seja o vivo, como pessoa, que queiram ter ao seu lado, mas sim aos seus pensamentos de amor, a sua atenção e apreço. Por exemplo, quando uma criança que perdeu muito precocemente a sua mãe – inclusive durante o parto -, olha para ela com amor e lhe diz “obrigado”, o desejo da mãe de se ver unida ao seu filho na morte, cessa. E a criança deixa de captar a atracção por esta morta.

Existe um processo similar entre o agressor e a sua vítima, como se o agressor estivesse atraído pela sua vítima. Algumas vítimas não encontram sossego enquanto não tiverem o seu agressor caído ao seu lado. Também aqui a vítima se acalma quando sente o olhar amoroso do agressor, um amor que não vacila perante a própria morte e que reconhece que o verdadeiro progresso no sentido da reconciliação passa por uma morte que os torna semelhantes e os reúne.

Terei falado até agora dos mortos ou somente dos vivos? Não sei. Acontece-me que nem sempre os consigo distinguir. Não estarão ambos presentes, de formas distintas, um de uma forma palpável e o outro encoberto ao nosso olhar?

Os mortos permanecem no mistério. Surgem-nos ao mesmo tempo como afastados e próximos. Talvez passeemos entre eles sem suspeitarmos. Mas muitas vezes dão a conhecer a sua presença de uma forma potente ou angustiante – ajudando ou destruindo. Vemos que às vezes tomam possessão dos vivos, por exemplo, dos curandeiros, através dos quais levam a cabo acções curativas assombrosas. Então quando o curandeiro acorda, não sabe o que fez, mas sabe que um outro, um morto, às vezes já conhecido, falou e actuou em seu lugar.

Talvez algumas das grandes figuras da história, daquelas que trouxeram extrema desgraça a inúmeras pessoas, sofressem a influência de tais mortos, os quais por um lado lhes concediam grande poder e por outro os protegiam secretamente. Também não o sabemos ao certo. Apenas nos leva a ser mais cautelosos nos nossos julgamentos. Ao mesmo tempo, aviva a nossa inquietação ao nos confrontarmos intimamente com a nossa impotência.

Frequentemente experimentamos a presença dos mortos no quotidiano, de forma amigável e dedicada, especialmente os mortos da nossa família. Eles acompanham-nos por um trecho do caminho, como se ainda estivessem entre nós, até nos soltarem.

E nós, seguindo o seu exemplo, soltamo-los. A questão que se coloca é: o que é que resta para nós, que ainda estamos em vida, tendo permanentemente a morte em perspectiva e tendo-nos ela sob a sua mira? E precisamente quanto mais a tememos ou a pomos de lado, mais queremos abafar a sua chamada. Bem, só nos resta colocar-nos em sintonia com o que virá, tal como virá. Então estaremos no aqui e agora, com toda a confiança.

 

Um texto de Bert Hellinger, publicado na revista Hellinger Sciencia de Setembro de 2007 (texto em castelhano).

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

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