B. HELLINGER: A EMPATIA

BERT HELLINGER:

Na formação de psicoterapeutas e também na formação de assistentes socais, dá-se muito valor ao exercício da empatia, ao sentir com o cliente.

Mas o que é que acontece ao terapeuta que sente empatia por um cliente? O que se passa com os terapeutas, o que fazem na realidade com o cliente?

– Convertem-no numa criança e comportam-se como se fossem a sua mãe ou pai. E uma vez estabelecida esta empatia, impedem que o cliente actue.

 

(clique na imagem para assistir ao vídeo desta palestra)

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SOBRE O ABUSO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES

SOBRE O ABUSO DAS CONSTELAÇÕES FAMILIARES…

 

O perigo das constelações familiares radica no uso superficial desta forma de psicoterapia. “Vou constelar o meu sistema de origem e noutra vez vou constelar o meu sistema actual”. As constelações familiares como tendência, como fenómeno de moda, degradam este método reduzindo-o a um artigo de consumo. Esta utilização pouco formal das constelações familiares não serve o paciente, mas cria-lhe a ilusão de resolver todos os problemas de forma rápida através de uma constelação. Ao iniciar cada grupo, digo aos meus pacientes: “No melhor dos casos, a
constelação é, nem mais nem menos, um passo no teu desenvolvimento”. Alem disso, gosto de empregar a imagem de um veleiro que modifica o seu curso original em aproximadamente um grau e, portanto, chegará a outro lugar completamente diferente daquele projectado inicialmente. Assim também a constelação pode produzir uma grande mudança com uma pequena “correcção de curso”. Esta modificação situa-se na atitude interna do paciente, no critério pessoal. A constelação não é um elixir, não é um truque de magia nem significa que o problema tenha sido solucionado para sempre.

 

In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”, de Ilse Kutschera e Christine Schäffler. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Toni Demuro

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DAR E RECEBER

DAR E RECEBER

O assunto central na dinâmica de dar e receber é a aceitação da vida, tal como a recebemos dos nossos pais. Não temos outra possibilidade, uma vez que as condições nos são dadas com antecedência. Assentir é a premissa para a felicidade: “Tomo a vida tal como ela me foi dada”. Pela minha experiência verifico que este método, lógico e aparentemente simples, é com frequência difícil de levar a cabo. Honrar o pai e a mãe não significa estar de acordo com todos os seus actos, mas antes recebermos agradecidos e apreciarmos tudo quanto nos puderam dar.

Se a pessoa se nega a receber, pode ter a sensação de se “sentir melhor”. “Quando recebes, sentes-te culpado” – o significado que Bert Hellinger dá à palavra culpa nesta frase não é a do seu sentido limitado, mas antes no sentido da obrigação de recompensar. Quando não se recebe, não existe culpa nem obrigação, portanto, fica-se basicamente livre. Contudo, quem não recebe mantém exigências: “mais dinheiro, mais compreensão, mais apoio, outra infância, outras formas de amor, etc.”. Ninguém consegue satisfazer estas exigências e portanto geram discordância e a sensação de ter sido colocado à margem, o que por sua vez alimenta novas exigências.

Elisa Talentino

Todas as relações funcionam mediante o dar e receber. Se uma pessoa se nega a tomar o amor que recebe e compensa essa necessidade com o consumo de bens materiais, então as relações ficam em perigo. Todos conhecemos “pessoas que nunca estão satisfeitas”. O consumo torna-se cada vez mais o centro da vida, enquanto a vida, o amor, a fidelidade continuam a ser bens inestimáveis. O consumo, que se nutre da exigência, é um substituto do receber no campo das relações e impede a satisfação. Bert Hellinger diz: “Voracidade significa querer ter sem tomar”. Uma relação promove-se na medida em que se receba agradecido e se devolva algo com mais amor. Assim a relação pode crescer e alimentar-se o “círculo vicioso”. (…). O agradecimento reconhecido é um das formas mais essenciais de equilíbrio.

 

In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”, de Ilse Kutschera e Christine Schäffler. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Elisa Talentino

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INFELICIDADES A DESPRENDER

 

Infelicidades de que Devemos Desprender-nos para que Haja Liberdade. O Equilíbrio entre o Dar e o Receber

Por Joan Garriga

 

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade e, ainda que num plano se a deseje intensamente, noutro plano é difícil permitir-se ser intencionalmente feliz quando se sabe que outras pessoas na família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Querubim Lapa. cabeça de Mulher Caracol

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e,

por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”. Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí também vemos, com frequência, como os sucessores tratam de expiar culpas dos antecessores ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial, a vida, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente:” “a este preço tão elevado não a quero e portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas assim, o que é que a mãe ganha? De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu, de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos. Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Querubim Lapa | Placa de cerâmica: Cabeça de mulher-caracol | 1970 | Museu Nacional do Azulejo

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SOBRE A SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO

Sobre a separação e divórcio

Por Bert Hellinger (In “A Simetria Oculta do Amor”)

 

Não raro, as pessoas optam por sofrer durante muito tempo antes de se sentirem livres para liquidar uma má situação, porque não querem ferir o parceiro ou porque receiam o que os outros vão dizer ou pensar. Usualmente, a pessoa deseja um espaço novo e maior, mas não acha justo trabalhar para isso, porque assim vai magoar alguém. Age como se o seu próprio sofrimento pudesse neutralizar o sofrimento do parceiro ou justificar as suas acções aos olhos dos outros. Por isso o processo de divórcio é tão demorado.

Quando finalmente se dá a separação, ambos os parceiros se vêem diante das possibilidades e riscos de um novo começo. Se um deles rejeitar a oportunidade de um novo começo e ignorar a possibilidade de criar algo de bom, preferindo apegar-se à dor, torna-se difícil para o outro parceiro libertar-se. Por outro lado, se ambos aproveitarem as oportunidades surgidas e fizerem alguma coisa com elas, ambos se libertarão e ficarão aliviados do fardo. Entre todas as possibilidades de perdão nas situações de divórcio e separação, esta é a melhor, porque traz harmonia mesmo quando a separação ocorre.

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Se a separação é dolorosa, há sempre a tendência a procurar alguém para incriminar. Os envolvidos tentam aliviar o peso do destino arranjando um bode expiatório. Em regra, o casamento não se desfaz porque um parceiro é culpado e o outro inocente, mas porque um deles está assoberbado por problemas da sua família de origem, ou ambos caminham em direcções opostas. Se se incrimina um parceiro, cria-se a ilusão de que algo diferente poderia ter sido feito ou de que um comportamento novo salvaria o casamento. Nesse caso, a gravidade e a profundidade da situação são ignoradas, os parceiros começam a recriminar-se e a acusar-se mutuamente.

A solução para combater a ilusão e a crítica destrutiva é resignar-se à forte dor provocada pelo fim do relacionamento. Essa dor não dura muito, mas é lancinante. Se os parceiros se dispuserem a sofrer, poderão tratar do que merece ser tratado e dispor as coisas que precisam ser dispostas com lucidez, ponderação e respeito mútuo. Numa separação, a raiva e a censura estão a substituir o sofrimento e a tristeza. Continue reading

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Movimentos Fundamentais da Alma

 

Há dois movimentos fundamentais da alma. Um movimento é o que leva à vida. O outro é um movimento inverso, que leva à morte. E como se demonstra isto? O movimento para a vida é um movimento que leva a mais e mais e mais. O movimento para a morte é um movimento para menos, menos e menos até que tudo acaba.

 

In Meditaciones de Bert Hellinger, Grupo Cudec Editorial

 

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PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

Por Joan Garriga *

 

As grandes questões existenciais concernem a alma. Ultimamente tenho vindo a dizer que, de forma resumida, qualquer problema que enfrentamos na terapia está relacionado com o facto de existir algo que não somos capazes de amar ou de integrar, não somos capazes de lhe dar um bom lugar no coração. E isso tem consequências: adoecemos, aparecem os sintomas, as más relações, os problemas, etc.. Dizemos não a algo ou a alguém e retraímos a nossa alma, em vez de expandi-la. Este algo pode ser algo da realidade e dos factos, como o amigo que ficou doente, o pai que morreu, etc.. A Buda, por exemplo, morreu-lhe a mãe no seu terceiro dia de vida. Pode-se dizer “isto não deveria ter sido assim” e deste modo não podemos amar nem apreciar esta parte da realidade. Às vezes não podemos amar ou apreciar algo de nós próprios e dizemos: “não, eu não deveria ter esta timidez” ou “não, eu não deveria ter medo” ou “devia ser mais simpático” ou “devia ser mais bem-sucedido” e então, no fundo, consideramos que há partes de nós que não merecem ser blossoming-odilon-redon-1910-14respeitadas e estamos em luta com elas, ou seja, dizemos “não” e estamos numa guerra interior com nós próprios. Às vezes dizemos “não” às pessoas, dizemos “o meu pai portou-se mal comigo” e fechamos-lhe o coração ou “a minha avó pôs chifres ao meu avô” e fecho-lhe o meu coração ou “aquele meu amigo devia tratar-me da maneira X”. E então estamos numa guerra interpessoal. Quando olhamos para o fim dos problemas que surgem na terapia podemos sempre rastrear e encontrar algo a que a pessoa não pode dizer “sim”, diz-lhe “não”. Então aquilo de que se trata é conseguir uma maneira de fazer poder integrar aquilo que se rejeita e de se estender naquilo que fecha. E nesse sentido creio que a espiritualidade e a psicoterapia apontam na mesma direcção, mas isto muitos psicoterapeutas negam e diriam que a psicoterapia não tem nada a ver com a espiritualidade; sem dúvida que existem muitas técnicas que fazem com que algumas pessoas resolvam problemas e mudem e que pouco têm a ver com a espiritualidade. Embora, e na verdade se as analisarmos com precisão, vemos que no fundo quase sempre conduzem a uma maior assunção de responsabilidade das pessoas sobre a sua própria realidade. A terapia pode manipular o ego para afastá-lo daquilo que ele tem que enfrentar, mas trata-se de soluções passageiras e calmantes que duram apenas um tempo. A grande mudança, a que dura, muda algo de essencial na nossa atitude. Integra em vez de destruir, une em vez de separar, acolhe em vez de amputar. Diz “sim”.

 

Joan Garriga In Sobre la Terapia y la Espiritualidad. Revista Conciencia Sin Fronteras, nº 34. Diálogo entre Joan Garriga y Julián Peragón.

Tradução do castelhano por Eva Jacinto

Pintura: Desabrochar, de Odilon Redon, 1910-14

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WORKSHOP CONSTELAÇÕES FAMILIARES

 

O método das constelações familiares permite trazer à luz dinâmicas inconscientes que compreendem identificações e emaranhamentos de uma geração familiar a outra. Ao permitir a revelação dessas dinâmicas, faz aparecer soluções que reestabelecem o equilíbrio e conferem alívio a todos os membros do sistema.

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Workshop Constelações Familiares em V.N. de Gaia


19 de Novembro 2016 – fundamentos da teoria de Bert Hellinger

26 de Novembro 2016  – sessão de constelações familiares

Formadora: Eva Jacinto

Organizado por Centro de Psicologia do Trauma e do Luto

Todas as informações no folheto informativo e ficha de inscrição

 

 

Fenomenologia e Experiência

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“A fenomenologia é ao mesmo tempo um método espiritual. Não num sentido religioso, mas no sentido filosófico. Exige limpeza e clarificação. Especialmente a clarificação do espírito. Na mística ocidental, João da Cruz chama a isto “noite obscura do espírito”. É a renúncia ao conhecimento e a qualquer tipo de segurança. Este processo de clarificação dura muito tempo. O terapeuta que se acerca ao trabalho com constelações também enfrenta este processo de clarificação. E quando o experiencia, já não pode planear e actuar. Entrega-se ao curso dos acontecimentos. Desta forma, e com o passar do tempo, alcança-se essa orientação. Quanto maior for o “retirar-se”, mais coisas irão acontecer. Ao retirar-me estou a dar o lugar àquilo que acontece no momento.

Este procedimento é muito desanimador e é o contrário da ciência. É empirismo extremo, a experiência pura com o que aparece. Ganha significado com o seu efeito. Por esta razão, é pura ciência da experiência. É pura observação. (…) Os terapeutas que queiram trilhar este caminho começam por baixo. Naturalmente, como qualquer vaca começa por ser uma vitela. Não há necessidade de ser perfeito, é preciso apenas começar e o próprio caminho guiar-nos-á. Então pode-se, pouco a pouco, permitir o perigoso e a confrontação.”

 

Bert Hellinger, citado por Ulsamer, B. (2013). El oficio de las constelaciones familiares. Introducción a la práctica de la terapia sistémica de Hellinger. Ediciones Obelisco.

 

Desenho: Hajime Namiki, Wisteria

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DIREITO SISTÉMICO

Texto originalmente publicado na revista Conexão Sistêmica Sul, nº 4: Filosofia, Pensamento e Prática das Constelações Sistêmicas (3 Out 2015).
Publicado também no blog do autor, Direito Sistêmico, em 23-08-2016.

Direito Sistêmico: primeiras experiências com constelações no judiciário

Autor: Sami Storch

 

Introdução

Quando ingressei na magistratura, no início de 2006, já estava cursando minha primeira formação em constelações e, desde o princípio, a visão sistêmica vem me auxiliando na compreensão das dinâmicas existentes nos conflitos com os quais lidamos na Justiça, assim como na busca da melhor solução em cada caso.

Wassily Kandisky

Os conflitos surgem no meio de relacionamentos e, nas palavras de Bert Hellinger, “os relacionamentos tendem a ser orientados em direção a ordens ocultas.[…] O uso desse método faz emergir novas possibilidades de entender o contexto dos conflitos e trazer soluções que causam alívio a todos os envolvidos”1.

O mero conhecimento dessas ordens ocultas, descritas por Hellinger como as “ordens do amor”, permite a compreensão das dinâmicas dos conflitos e da violência de forma mais ampla, além das aparências, facilitando ao julgador adotar, em cada caso, o posicionamento mais adequado à pacificação das relações envolvidas.

A quem se permite conhecer essas ordens através das constelações familiares, elas se integram e se refletem naturalmente nos diversos meios de nossa vida, inclusive o profissional.

Em minha prática judicante, portanto, a aplicação da visão sistêmica e do conhecimento das ordens do amor começou a se dar de forma discreta, durante as audiências nas ações judiciais da área de família. Posteriormente introduzi meditações e exercícios de constelações propriamente ditas, com representantes, e venho realizando experiências também na área criminal e na de infância e juventude.

Neste artigo abordo as primeiras experiências, já com resultados consolidados.

Uma História de Amor

Desde o início, o uso de frases “sistêmicas” revelou-se de grande força, no sentido de sensibilizar as partes envolvidas no conflito, levando-as a olhar para um contexto maior e a reconhecer o amor existente na origem do relacionamento e a dor sofrida por ambos, pelo fato de ele não ter dado certo.

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