INFELICIDADES A DESPRENDER

 

Infelicidades de que Devemos Desprender-nos para que Haja Liberdade. O Equilíbrio entre o Dar e o Receber

Por Joan Garriga

 

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade e, ainda que num plano se a deseje intensamente, noutro plano é difícil permitir-se ser intencionalmente feliz quando se sabe que outras pessoas na família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Querubim Lapa. cabeça de Mulher Caracol

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e,

por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”. Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí também vemos, com frequência, como os sucessores tratam de expiar culpas dos antecessores ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial, a vida, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente:” “a este preço tão elevado não a quero e portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas assim, o que é que a mãe ganha? De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu, de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos. Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Querubim Lapa | Placa de cerâmica: Cabeça de mulher-caracol | 1970 | Museu Nacional do Azulejo

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SOBRE A SEPARAÇÃO E DIVÓRCIO

Sobre a separação e divórcio

Por Bert Hellinger (In “A Simetria Oculta do Amor”)

 

Não raro, as pessoas optam por sofrer durante muito tempo antes de se sentirem livres para liquidar uma má situação, porque não querem ferir o parceiro ou porque receiam o que os outros vão dizer ou pensar. Usualmente, a pessoa deseja um espaço novo e maior, mas não acha justo trabalhar para isso, porque assim vai magoar alguém. Age como se o seu próprio sofrimento pudesse neutralizar o sofrimento do parceiro ou justificar as suas acções aos olhos dos outros. Por isso o processo de divórcio é tão demorado.

Quando finalmente se dá a separação, ambos os parceiros se vêem diante das possibilidades e riscos de um novo começo. Se um deles rejeitar a oportunidade de um novo começo e ignorar a possibilidade de criar algo de bom, preferindo apegar-se à dor, torna-se difícil para o outro parceiro libertar-se. Por outro lado, se ambos aproveitarem as oportunidades surgidas e fizerem alguma coisa com elas, ambos se libertarão e ficarão aliviados do fardo. Entre todas as possibilidades de perdão nas situações de divórcio e separação, esta é a melhor, porque traz harmonia mesmo quando a separação ocorre.

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Se a separação é dolorosa, há sempre a tendência a procurar alguém para incriminar. Os envolvidos tentam aliviar o peso do destino arranjando um bode expiatório. Em regra, o casamento não se desfaz porque um parceiro é culpado e o outro inocente, mas porque um deles está assoberbado por problemas da sua família de origem, ou ambos caminham em direcções opostas. Se se incrimina um parceiro, cria-se a ilusão de que algo diferente poderia ter sido feito ou de que um comportamento novo salvaria o casamento. Nesse caso, a gravidade e a profundidade da situação são ignoradas, os parceiros começam a recriminar-se e a acusar-se mutuamente.

A solução para combater a ilusão e a crítica destrutiva é resignar-se à forte dor provocada pelo fim do relacionamento. Essa dor não dura muito, mas é lancinante. Se os parceiros se dispuserem a sofrer, poderão tratar do que merece ser tratado e dispor as coisas que precisam ser dispostas com lucidez, ponderação e respeito mútuo. Numa separação, a raiva e a censura estão a substituir o sofrimento e a tristeza. Continue reading

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Movimentos Fundamentais da Alma

 

Há dois movimentos fundamentais da alma. Um movimento é o que leva à vida. O outro é um movimento inverso, que leva à morte. E como se demonstra isto? O movimento para a vida é um movimento que leva a mais e mais e mais. O movimento para a morte é um movimento para menos, menos e menos até que tudo acaba.

 

In Meditaciones de Bert Hellinger, Grupo Cudec Editorial

 

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PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

Por Joan Garriga *

 

As grandes questões existenciais concernem a alma. Ultimamente tenho vindo a dizer que, de forma resumida, qualquer problema que enfrentamos na terapia está relacionado com o facto de existir algo que não somos capazes de amar ou de integrar, não somos capazes de lhe dar um bom lugar no coração. E isso tem consequências: adoecemos, aparecem os sintomas, as más relações, os problemas, etc.. Dizemos não a algo ou a alguém e retraímos a nossa alma, em vez de expandi-la. Este algo pode ser algo da realidade e dos factos, como o amigo que ficou doente, o pai que morreu, etc.. A Buda, por exemplo, morreu-lhe a mãe no seu terceiro dia de vida. Pode-se dizer “isto não deveria ter sido assim” e deste modo não podemos amar nem apreciar esta parte da realidade. Às vezes não podemos amar ou apreciar algo de nós próprios e dizemos: “não, eu não deveria ter esta timidez” ou “não, eu não deveria ter medo” ou “devia ser mais simpático” ou “devia ser mais bem-sucedido” e então, no fundo, consideramos que há partes de nós que não merecem ser blossoming-odilon-redon-1910-14respeitadas e estamos em luta com elas, ou seja, dizemos “não” e estamos numa guerra interior com nós próprios. Às vezes dizemos “não” às pessoas, dizemos “o meu pai portou-se mal comigo” e fechamos-lhe o coração ou “a minha avó pôs chifres ao meu avô” e fecho-lhe o meu coração ou “aquele meu amigo devia tratar-me da maneira X”. E então estamos numa guerra interpessoal. Quando olhamos para o fim dos problemas que surgem na terapia podemos sempre rastrear e encontrar algo a que a pessoa não pode dizer “sim”, diz-lhe “não”. Então aquilo de que se trata é conseguir uma maneira de fazer poder integrar aquilo que se rejeita e de se estender naquilo que fecha. E nesse sentido creio que a espiritualidade e a psicoterapia apontam na mesma direcção, mas isto muitos psicoterapeutas negam e diriam que a psicoterapia não tem nada a ver com a espiritualidade; sem dúvida que existem muitas técnicas que fazem com que algumas pessoas resolvam problemas e mudem e que pouco têm a ver com a espiritualidade. Embora, e na verdade se as analisarmos com precisão, vemos que no fundo quase sempre conduzem a uma maior assunção de responsabilidade das pessoas sobre a sua própria realidade. A terapia pode manipular o ego para afastá-lo daquilo que ele tem que enfrentar, mas trata-se de soluções passageiras e calmantes que duram apenas um tempo. A grande mudança, a que dura, muda algo de essencial na nossa atitude. Integra em vez de destruir, une em vez de separar, acolhe em vez de amputar. Diz “sim”.

 

Joan Garriga In Sobre la Terapia y la Espiritualidad. Revista Conciencia Sin Fronteras, nº 34. Diálogo entre Joan Garriga y Julián Peragón.

Tradução do castelhano por Eva Jacinto

Pintura: Desabrochar, de Odilon Redon, 1910-14

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WORKSHOP CONSTELAÇÕES FAMILIARES

 

O método das constelações familiares permite trazer à luz dinâmicas inconscientes que compreendem identificações e emaranhamentos de uma geração familiar a outra. Ao permitir a revelação dessas dinâmicas, faz aparecer soluções que reestabelecem o equilíbrio e conferem alívio a todos os membros do sistema.

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Workshop Constelações Familiares em V.N. de Gaia


19 de Novembro 2016 – fundamentos da teoria de Bert Hellinger

26 de Novembro 2016  – sessão de constelações familiares

Formadora: Eva Jacinto

Organizado por Centro de Psicologia do Trauma e do Luto

Todas as informações no folheto informativo e ficha de inscrição

 

 

Fenomenologia e Experiência

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“A fenomenologia é ao mesmo tempo um método espiritual. Não num sentido religioso, mas no sentido filosófico. Exige limpeza e clarificação. Especialmente a clarificação do espírito. Na mística ocidental, João da Cruz chama a isto “noite obscura do espírito”. É a renúncia ao conhecimento e a qualquer tipo de segurança. Este processo de clarificação dura muito tempo. O terapeuta que se acerca ao trabalho com constelações também enfrenta este processo de clarificação. E quando o experiencia, já não pode planear e actuar. Entrega-se ao curso dos acontecimentos. Desta forma, e com o passar do tempo, alcança-se essa orientação. Quanto maior for o “retirar-se”, mais coisas irão acontecer. Ao retirar-me estou a dar o lugar àquilo que acontece no momento.

Este procedimento é muito desanimador e é o contrário da ciência. É empirismo extremo, a experiência pura com o que aparece. Ganha significado com o seu efeito. Por esta razão, é pura ciência da experiência. É pura observação. (…) Os terapeutas que queiram trilhar este caminho começam por baixo. Naturalmente, como qualquer vaca começa por ser uma vitela. Não há necessidade de ser perfeito, é preciso apenas começar e o próprio caminho guiar-nos-á. Então pode-se, pouco a pouco, permitir o perigoso e a confrontação.”

 

Bert Hellinger, citado por Ulsamer, B. (2013). El oficio de las constelaciones familiares. Introducción a la práctica de la terapia sistémica de Hellinger. Ediciones Obelisco.

 

Desenho: Hajime Namiki, Wisteria

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DIREITO SISTÉMICO

Texto originalmente publicado na revista Conexão Sistêmica Sul, nº 4: Filosofia, Pensamento e Prática das Constelações Sistêmicas (3 Out 2015).
Publicado também no blog do autor, Direito Sistêmico, em 23-08-2016.

Direito Sistêmico: primeiras experiências com constelações no judiciário

Autor: Sami Storch

 

Introdução

Quando ingressei na magistratura, no início de 2006, já estava cursando minha primeira formação em constelações e, desde o princípio, a visão sistêmica vem me auxiliando na compreensão das dinâmicas existentes nos conflitos com os quais lidamos na Justiça, assim como na busca da melhor solução em cada caso.

Wassily Kandisky

Os conflitos surgem no meio de relacionamentos e, nas palavras de Bert Hellinger, “os relacionamentos tendem a ser orientados em direção a ordens ocultas.[…] O uso desse método faz emergir novas possibilidades de entender o contexto dos conflitos e trazer soluções que causam alívio a todos os envolvidos”1.

O mero conhecimento dessas ordens ocultas, descritas por Hellinger como as “ordens do amor”, permite a compreensão das dinâmicas dos conflitos e da violência de forma mais ampla, além das aparências, facilitando ao julgador adotar, em cada caso, o posicionamento mais adequado à pacificação das relações envolvidas.

A quem se permite conhecer essas ordens através das constelações familiares, elas se integram e se refletem naturalmente nos diversos meios de nossa vida, inclusive o profissional.

Em minha prática judicante, portanto, a aplicação da visão sistêmica e do conhecimento das ordens do amor começou a se dar de forma discreta, durante as audiências nas ações judiciais da área de família. Posteriormente introduzi meditações e exercícios de constelações propriamente ditas, com representantes, e venho realizando experiências também na área criminal e na de infância e juventude.

Neste artigo abordo as primeiras experiências, já com resultados consolidados.

Uma História de Amor

Desde o início, o uso de frases “sistêmicas” revelou-se de grande força, no sentido de sensibilizar as partes envolvidas no conflito, levando-as a olhar para um contexto maior e a reconhecer o amor existente na origem do relacionamento e a dor sofrida por ambos, pelo fato de ele não ter dado certo.

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“Trabalho da Alma”

Bert Hellinger: “Isto é trabalho da alma. E o que é que fazemos quando fazemos trabalho com a alma? Tocamos o coração e isso é suficiente. Não há mais nada para fazer”

 

Intervenção de Bert Hellinger: “Gratidão”. Em inglês, vídeo legendado em português.

(clique na imagem para assistir ao vídeo)

Gratidão - vídeo hellinger

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Mestre, venho pedir-lhe que me cure

Mestre, venho pedir-lhe que me cure.

– Não vens para que eu te cure, vens para me pedir. Vais curar-te quando parares de pedir que te cure, porque a doença que me trazes nada mais é do que o teu pedido para ser curado. Desta forma, eu nunca te darei nada.

– Mas por quê, mestre?

– Porque tu, para não parares de pedir, vais tentar levar-me a que eu te peça para te deixares curar por mim e não te irás curar para que eu continue a pedir-te e assim possuíres-me para sempre.

– E a minha doença?

– Na verdade a tua doença não te importa. O que te interessa é fazer fracassar o Pai, exercendo o poder de não poder.

 

Alejandro Jodorowsky. Conversa com o mestre. http://planosinfin.com/

Traduzido do castelhano por Eva JacintoAlejandro-Jodorowsky

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AS ORDENS DO AMOR

Excerto de uma entrevista feita pelo jornalista e autor Martin Buchholz a Bert Hellinger, que apareceu originalmente na revista “Help for Daily Living” em Outubro 2013.

 

Martin Buchholz: Em primeiro lugar quero colocar uma questão sobre a expressão por si cunhada “ordens do amor”. O que significa?

Bert Hellinger: Ordem é aquilo de acordo com a qual algo se desenvolve. Uma árvore, por exemplo, desenvolve-se de acordo com uma ordem. Caso contrário não irá ser uma árvore. E ainda assim cada árvore é diferente. Ordem não é algo de estático. É um princípio vivo.

O amor significa aqui, é claro, a relação entre os seres humanos. Ele também ocorre de acordo com certas ordens. Quando temos conhecimento sobre estas ordens, os nossos relacionamentos tornam-se mais bem-sucedidos.

Martin Buchholz: Como sabe quais as ordens que nos são dadas?

Bert Hellinger: Eu não obtive esse conhecimento no sentido de reflectir sobre o assunto e com isso alcançá-lo. Isto não é possível dessa forma. Estas ordens revelam-se a si mesmas. Vou voltar ao exemplo das árvores. A aparência da árvore mostra a ordem de acordo com a qual ela cresce. Assim, um abeto cresce de forma diferente de um carvalho. Elas seguem ordens diferentes. Posso ver essas ordens e distinguir entre elas. Algo de semelhante ocorre com as relações humanas. Quando as pessoas acatam certas ordens, o amor decorre de uma melhor forma.

Martin Buchholz: Quando descreve essas ordens, por vezes inesperadamente uma verdade revela-se. Gostaria de saber se se experiencia a si mesmo como uma espécie de médium. Quem é que traz estes factos à luz?

Bert Hellinger: Aqui temos de ter em mente que tudo acontece por meio dos representantes. Podemos observar que os representantes, de repente, se sentem como as pessoas que eles estão a representar. Então, eles estão em conexão com algo maior e é nesse campo que sentem alguma coisa. Quando eu dirijo algo assim, também estou em conexão com este campo. Recebo informações a partir daí, desde que e enquanto eu me expuser. Eu acompanho essa informação. Mas se eu pensar “o que eu tenho que fazer agora?”, então eu já não estou em contacto com esse campo. Esse contacto só é possível através da máxima contenção. Exactamente porque eu não tenho nenhuma intenção ou desejo especial, estou em contacto com algo maior e estou, portanto, a ser conduzido.

A este algo maior, podemos dizer, a este campo – alguns chamam-lhe campo. Eu chamo-lhe uma alma compartilhada. Platão já sabia que para tornar a comunicação realmente possível, por exemplo, entre nós os dois, alguma coisa tem de estar entre nós de modo a que eu o entenda plenamente. Ele designava-o por alma.

Zhang DaQian

Martin Buchholz: Às vezes fala de algo que designa através de numerosos termos. Tomei algumas notas: o envolvente último, o grande modelo, o grande todo. Obviamente que se trata de algo que é difícil de descrever, mas o que é que dizer?

Bert Hellinger: Não quero dizer nada. É bastante claro que chegamos ao limite da nossa compreensão, mas aqui temos um sentido, há algo mais que opera. Mas não o conseguimos perceber.

Martin Buchholz: O conceito de alma que utiliza é um termo que geralmente reconhecemos na filosofia ou na teologia. Na psicoterapia tradicional provavelmente usar-se-ia o conceito com cautela.

Bert Hellinger: É o que geralmente acontece com tais conceitos, é exactamente assim.

Martin Buchholz: Isso é uma queixa que as pessoas fazem. Por favor, tenha a bondade de explicar o que quer dizer com isso.

Bert Hellinger: Eu posso defini-lo, não no sentido de o identificar com precisão, mas pode-se descrever a alma através do efeito que ela tem.

Onde quer que vejamos a alma a operar, ela tem duas funções básicas. Primeira, ela une alguma coisa. O nosso corpo, por exemplo, é mantido unido por um poder que coordena todas as funções corporais. Perguntamo-nos que tipo de poder é esse. É a alma.

Em segundo lugar, a alma conduz-nos numa direcção definida. Mas a alma não se limita ao nosso corpo ou a nós como um indivíduo. A família também tem uma alma. Portanto, todos os membros da família respondem de acordo com leis definidas pela alma. Enredos e comunidades de destino só existem por esse motivo. Estes membros da família têm uma alma comum. E, além disso, existem conexões maiores ainda.

Então, há algo que tem um efeito. Eu chamo-lhe a alma. Mas eu não estou a dizer que sei o que isso é. Até agora não encontrei um termo melhor. Bem, na China, encontrei um melhor: o Tao.

O Tao é um poder que dirige e controla tudo. E aqui também no Tao de King, o livro fundamental atribuído a Lao Tse, ele diz: o Tao que pode ser nomeado não é o Tao. Mas toda a gente percebe que existe um tal poder. A palavra Tao é mais geral e evita a apreensão da definição ainda mais facilmente do que a palavra alma. Na China eu uso a palavra Tao. Está mais próxima de mim, de qualquer forma.

Martin Buchholz: Os aspectos importantes sobre constelações familiares segundo Bert Hellinger estão relacionados com a psicoterapia ou com questões de fé, ou ainda com uma atitude básica que é quase religiosa?

Bert Hellinger: Nenhuma delas. Muitos vêm para as constelações familiares mesmo não estando doentes. Para eles as constelações familiares não têm nada a ver com doença ou com psicoterapia. E não são pessoas psicologicamente perturbadas. São pessoas cujo caminho na vida em alguns aspectos chegou a um impasse. Esta é uma matéria humana geral.

A pessoa está talvez à procura de uma saída, ou de uma solução. Neste sentido as constelações familiares estão mais perto da filosofia. É um saber sobre a vida.

 

Excerto de uma entrevista feita pelo jornalista e autor Martin Buchholz a Bert Hellinger, que apareceu originalmente na revista “Help for Daily Living” em Outubro 2013.

Fonte: A Closer Look at Constellations. An Interview With Bert Hellinger 07/30/2014

Tradução do Inglês por Eva Jacinto

Pintura de Zhang DaQian

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