Reticência

Reticência

 

(Depois de uma constelação para uma criança autista)

Participante: Quando antes ouvimos aqueles gritos, foi dito que esta era a saída do autismo. Será que isso significa que a criança poderia ficar boa?

Hellinger: Você tem de ouvir-me atentamente. Eu disse: “Esta é a irrupção do autismo”. Pudemos ver isso aqui. O que realmente aconteceu, eu não sei. Então, se alguém pergunta, tal como você o está a fazer agora, “será que isto vai ajudar realmente?”, o que é que acontece na sua alma? Você está em sintonia com o que está a acontecer ou a sua conexão interior foi interrompida?

Georgia O'Keeffe - Light Coming On The Plains III 1917

Georgia O’Keeffe. Light Coming On The Plains III, 1917.

Participante: Então, se eu estiver sempre assim, não estou em sintonia?

Hellinger: Exactamente. Mas a questão não o afecta apenas a si, afecta também o sistema do cliente. Tais perguntas curiosas interferem com o movimento da alma. Portanto, é necessária reticência, reticência completa. Sem dúvida que eu teria também prazer em saber se a criança estaria a ficar melhor. Eu tinha isso no meu coração. Contudo, não me atrevo a fazer algo parecido.

Sempre que queremos alcançar um fim específico, quer seja em psicoterapia, quer seja no trabalho social ou em casa – assim que um objectivo específico seja determinado – as coisas correm mal. Correm mal porque nos colocamos no lugar de um movimento superior. Queremos correr na frente, forçar algo. Nesse momento, perdemos o contacto com os poderes maiores. O que nos controla, esta alma maior, tem em mente, inclui, mais coisas. Quando nos confiamos a ela, conseguimos muito mais do que aquilo que tínhamos imaginado.

Em psicoterapia e em casa fazemos a pergunta: o que é aconteceu ali? Porque é que foi deste ou daquele modo? Estas perguntas perturbam os movimentos da alma, enfraquecem. Mas se nos mantivermos somente ali, em consonância com o todo, imediatamente irradia. Nesta posição, um poder maior funciona em segundo plano. Os chineses chamam-lhe “actuar através do não-agir”.

Ao intervir, retiro-me sempre do meio. De repente, quando me retiro desta maneira, uma frase vem ter comigo, ou o próximo passo. Eu sigo-o, mas não sei onde isso vai levar. Então, mais uma vez eu espero um pouco e assim algo se vai desdobrando passo a passo.

A forma como deve encarar isto é: assim como aqui os representantes percebem directamente o que está a acontecer na família, a família imediatamente percebe o que se passa aqui. Assim, as soluções que encontramos aqui alcançam a família também.

Há uma história que se conta em Colónia. Eles lá tinham uns duendes muito úteis, que faziam o trabalho das pessoas durante a noite e faziam-no muito bem, mas só trabalhavam quando não estava ninguém. Um dia uma mulher quis saber exactamente o que eles faziam e esse foi o fim de tudo. Este é um belo exemplo para o que acontece aqui. É exactamente assim.

Esta extrema reticência é sempre cheia de respeito. E esse respeito dá asas a algo na alma. Abre um espaço na alma. Quando surge uma pergunta, a alma contrai-se: “o que é que ele quer agora de mim?” Ninguém se coloca a pergunta “o que é que o sol quer de mim?”, ele brilha somente. Portanto, eu deixo brilhar em mim – sem perguntas.

 

Bert Hellinger In Help for the Soul in Daily Living, Junho 2011

Tradução do inglês por Eva Jacinto

 

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Um comentário sobre “Reticência

  1. Elizabete Nunes Ramos diz:

    Como nós temos que aprender a viver,se comportar em favor desta Força de LUZ.
    Como o silencio é precioso. Quero aprender a senti-lo e respeitá-lo.
    Gratidão

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