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BERT HELLINGER: O CENTRO VAZIO

Bert Hellinger

“Aquilo que é essencial não pode ser observado. As coisas essenciais encontram-se atrás das coisas que conseguimos observar.

E como alcançamos o conhecimento essencial?  Expomo-nos a uma situação sem o desejo de que ela seja diferente daquilo que é. Expomo-nos, por exemplo, a um cliente sem o desejo de que alguma coisa seja diferente daquilo que é.

E expomo-nos nós próprios a nós próprios sem o desejo de que devemos saber mais.

E desta forma tornamo-nos vazios. E então, de repente, aquilo que é essencial é visto.”

 

BERT HELLINGER In Primeiro seminário internacional “Las Ordenes de la Ayuda”, México 2004

Vídeo com tradução e legendas em português por Eva Jacinto (www.cf-evajacinto.pt)

 (toque na imagem para assistir)

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A BONDADE

A BONDADE

Texto de Bert Hellinger, traduzido do castelhano por Eva Jacinto*

 

Bondade significa: estou bem disposto para alguém. Estou bem disposto para o outro, tal como ele é. E como se demonstra esta bondade? Por minha parte, deixo que os outros sejam como são. Na minha presença podem mostrar-se tal como são, sem temer que lhe faça reparos. Esta é razão pela qual nos sentimos bem na presença de pessoas bondosas.

A pessoa bondosa é também boa para si própria. Ela é tal como é. E também é boa de coração.

A pessoa bondosa é como é ou será que ela se converte em algo mais para si e para os outros devido à sua bondade? Porque é boa, a bondade permite frutificar muitas coisas ao seu redor, de uma maneira boa. Muitas vezes basta que a pessoa esteja presente, sem fazer nada, como o sol, que ao brilhar faz com que a vida prospere.

A bondade acaba quando faz distinções. A partir do momento em que faz distinções, prefere uma coisa a outra. Distingue entre algo melhor para ela e o que considera ser menos bom ou mau. Então, também aqueles que consideram a bondade boa num determinado momento, temem ser considerados menos bons ao fim de algum tempo, temem que a bondade deixe de ser bondosa com eles.

A verdadeira bondade é bondosa com tudo. (…)

Será que o bondoso aprova também os maus e os violentos, aqueles que actuam contra a vida de outro e inclusivamente matam de uma maneira evidentemente injusta?

O bondoso é bondoso com eles, tal como é bondoso consigo próprio, porque percebe em si mesmo os mesmos impulsos: no seu coração, na sua profundidade oculta, o mesmo potencial cruel e maligno.

O que é que acontece àqueles que consideram os outros piores do que eles próprios? Que acontece com aqueles que, à vista do maligno e cruel sentem ascender nos outros e nos seus próprios corações o maligno e o cruel, o que os torna idênticos àqueles que eles rejeitam, torna-os semelhantes no mais profundo do seu interior?

A bondade, tal como uma gota de água suave e macia que ao cabo de algum tempo amolece até a rocha mais dura, torna-se irresistível no coração do próprio maligno. Até a rocha mais dura se dissolve ao fim de algum tempo na água macia.

Esta bondade é uma bondade divina. Amacia até a rocha mais dura e por fim leva-a com a água da nascente até ao oceano, ao oceano de uma bondade infinita.

 

*Bert Hellinger (2010). Historias de éxito en la empresa y el trabajo. Rigden Edit, S.L.

Pintura de Ernesto Shikhani – Maputo, 1998.

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A ALMA E OS MOVIMENTOS DA ALMA

Por Wilfried Nelles

Traduzido do Inglês por Eva Jacinto

 

Os “movimentos da alma” são algo que podemos perceber de imediato como um movimento subtil interno. Quando estamos ao lado de um ser humano, a nossa alma pode abrir-se e expandir-se ou retirar-se e fechar-se. Acontece frequentemente, geralmente não nos apercebemos, mas conseguimos senti-lo quando nisso focamos a atenção. Tal como notamos de imediato quando a alma de outra pessoa se abre ou fecha para nós. Não só com humanos temos esta experiência, mas também com os animais, plantas e toda a natureza, até mesmo com nós próprios podemos ter esta experiência.

W. Kandinsky. Black increasing (1927)

Este movimento parece-me ser um processo natural, uma espécie de ritmo, como as marés. Mas para muitas pessoas este movimento está limitado, com alguns está quase completamente congelado. Experienciamos este torpor como um sentimento de estar separado, como isolamento e solidão. A razão desta contracção e torpor da alma é sempre algum evento traumático, seja sistémico ou pessoal. Na terapia tentamos aliviar este torpor, a fim de permitir que a alma se expanda, pois o movimento natural da alma é o de se abrir a espaços cada vez mais amplos.

Esta abertura da alma é também uma condição prévia para a percepção fenomenológica e insight. Adoptando a atitude fenomenológica, observo aquilo para que olho não apenas como objecto, mas como sujeito com alma (mesmo que seja apenas um pedaço de pedra). Abro a minha alma o suficiente para poder ser tocado pela alma daquilo que contemplo. E então, chega até mim uma mensagem vinda daí. Em vez de falar de uma abertura da “minha” alma, pode ser mais apropriado falar de uma abertura para a alma, de uma abertura em direcção à dimensão da alma. Formulação que exprime melhor que este espaço não está definido por limites e pertença; não falamos acerca de algo que é meu, mas acerca de crescimento e de estar conectado a tudo que o está.

Bert Hellinger descreveu isto afirmando que nós não temos uma alma, mas estamos dentro de uma alma. A alma não está dentro de nós, mas à nossa volta. Este ponto é crucial. É uma extensão decisiva da compreensão corrente de alma. Quando sintonizamos com esta imagem, percebe-se imediatamente que algo dentro de nós se abre e amplia. Então a alma não me pertence, eu pertenço à alma, sou mais ou menos parte dela. Acrescentaria ainda que a alma deverá ser considerada mais como uma qualidade ou dimensão do que como uma entidade que pode ser encontrada em algum lugar (dentro ou fora). Considero que ambos são verdadeiros: a alma está tanto dentro de nós como ao nosso redor. Penso que não devemos imaginar a alma como uma coisa, como algo localizado nalgum lugar, dentro ou fora. Para mim, a alma é aquilo que liga e conecta. O que me liga a outras pessoas e a tudo o que existe à minha volta. Quanto mais ampla a minha alma, mais aberto estou a esse espaço, a esta dimensão que é a alma, mais conectado estou. Nesse sentido, o crescimento espiritual nada mais é que uma extensão do meu sentido de ser, da minha identidade, em direcção ao espaço cada vez mais amplo e constantemente em movimento da alma.

Não se trata aqui de elaborar uma definição precisa, mas apenas de representar aquilo de que falamos quando falamos da alma ou dos movimentos da alma. Considero ser importante compreender que a alma não é uma construção mental, mas algo real que podemos perceber e sentir exactamente naquele momento em que a alma se está abrindo ou fechando, quando está em movimento. E em segundo lugar, que isso é algo natural e que acontece constantemente – por isso não é um método de constelação.

Quando olhamos para o trabalho das constelações, parece bastante claro que as constelações familiares foram orientadas, desde o início, para esta abertura do espaço da nossa alma. Ou deveria dizer, orientado para a abertura de nós próprios para aquele espaço da alma, para a conexão com esta dimensão? Esta abertura foi apoiada pelo facto de o facilitador não olhar apenas para o cliente, mas tendo em conta toda a família ou clã na sua alma.

Assim, esta abertura começa com o terapeuta, que dá espaço a todos no movimento da sua própria alma, sem fazer qualquer diferença, mas especialmente àqueles que foram excluídos, esquecidos, desvalorizados e repudiados. Assim, as Constelações Familiares exigem um movimento da alma que está para além de todas as questões de método do terapeuta, um movimento para uma maior abertura e abrangência.

Sob esta perspectiva, as mudanças inspiradas ao longo dos anos por Bert Hellinger não são, nem mais nem menos, do que um movimento cada vez mais amplo e profundo da alma que integra cada vez mais sem operar diferenças. No início havia o movimento de olhar apenas para o cliente para ver toda a família, rapidamente então, para além da família, o olhar passou a dirigir-se àqueles com quem não se está relacionado por laços de sangue e posteriormente mesmo até para os inimigos, tiranos e assassinos em massa, com a mesma abertura em relação ao bem e ao mal, para finalmente alcançar o que Hellinger chama “espírito-mente”.

 

Wilfried Nelles (2007) In Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

 

Tradução do inglês por Eva Jacinto

 

Texto integral aqui: Wilfried Nelles (2007). Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

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Fenomenologia e Experiência

hajime-namiki-wisteria

“A fenomenologia é ao mesmo tempo um método espiritual. Não num sentido religioso, mas no sentido filosófico. Exige limpeza e clarificação. Especialmente a clarificação do espírito. Na mística ocidental, João da Cruz chama a isto “noite obscura do espírito”. É a renúncia ao conhecimento e a qualquer tipo de segurança. Este processo de clarificação dura muito tempo. O terapeuta que se acerca ao trabalho com constelações também enfrenta este processo de clarificação. E quando o experiencia, já não pode planear e actuar. Entrega-se ao curso dos acontecimentos. Desta forma, e com o passar do tempo, alcança-se essa orientação. Quanto maior for o “retirar-se”, mais coisas irão acontecer. Ao retirar-me estou a dar o lugar àquilo que acontece no momento.

Este procedimento é muito desanimador e é o contrário da ciência. É empirismo extremo, a experiência pura com o que aparece. Ganha significado com o seu efeito. Por esta razão, é pura ciência da experiência. É pura observação. (…) Os terapeutas que queiram trilhar este caminho começam por baixo. Naturalmente, como qualquer vaca começa por ser uma vitela. Não há necessidade de ser perfeito, é preciso apenas começar e o próprio caminho guiar-nos-á. Então pode-se, pouco a pouco, permitir o perigoso e a confrontação.”

 

Bert Hellinger, citado por Ulsamer, B. (2013). El oficio de las constelaciones familiares. Introducción a la práctica de la terapia sistémica de Hellinger. Ediciones Obelisco.

 

Desenho: Hajime Namiki, Wisteria

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AS ORDENS DO AMOR

Excerto de uma entrevista feita pelo jornalista e autor Martin Buchholz a Bert Hellinger, que apareceu originalmente na revista “Help for Daily Living” em Outubro 2013.

 

Martin Buchholz: Em primeiro lugar quero colocar uma questão sobre a expressão por si cunhada “ordens do amor”. O que significa?

Bert Hellinger: Ordem é aquilo de acordo com a qual algo se desenvolve. Uma árvore, por exemplo, desenvolve-se de acordo com uma ordem. Caso contrário não irá ser uma árvore. E ainda assim cada árvore é diferente. Ordem não é algo de estático. É um princípio vivo.

O amor significa aqui, é claro, a relação entre os seres humanos. Ele também ocorre de acordo com certas ordens. Quando temos conhecimento sobre estas ordens, os nossos relacionamentos tornam-se mais bem-sucedidos.

Martin Buchholz: Como sabe quais as ordens que nos são dadas?

Bert Hellinger: Eu não obtive esse conhecimento no sentido de reflectir sobre o assunto e com isso alcançá-lo. Isto não é possível dessa forma. Estas ordens revelam-se a si mesmas. Vou voltar ao exemplo das árvores. A aparência da árvore mostra a ordem de acordo com a qual ela cresce. Assim, um abeto cresce de forma diferente de um carvalho. Elas seguem ordens diferentes. Posso ver essas ordens e distinguir entre elas. Algo de semelhante ocorre com as relações humanas. Quando as pessoas acatam certas ordens, o amor decorre de uma melhor forma.

Martin Buchholz: Quando descreve essas ordens, por vezes inesperadamente uma verdade revela-se. Gostaria de saber se se experiencia a si mesmo como uma espécie de médium. Quem é que traz estes factos à luz?

Bert Hellinger: Aqui temos de ter em mente que tudo acontece por meio dos representantes. Podemos observar que os representantes, de repente, se sentem como as pessoas que eles estão a representar. Então, eles estão em conexão com algo maior e é nesse campo que sentem alguma coisa. Quando eu dirijo algo assim, também estou em conexão com este campo. Recebo informações a partir daí, desde que e enquanto eu me expuser. Eu acompanho essa informação. Mas se eu pensar “o que eu tenho que fazer agora?”, então eu já não estou em contacto com esse campo. Esse contacto só é possível através da máxima contenção. Exactamente porque eu não tenho nenhuma intenção ou desejo especial, estou em contacto com algo maior e estou, portanto, a ser conduzido.

A este algo maior, podemos dizer, a este campo – alguns chamam-lhe campo. Eu chamo-lhe uma alma compartilhada. Platão já sabia que para tornar a comunicação realmente possível, por exemplo, entre nós os dois, alguma coisa tem de estar entre nós de modo a que eu o entenda plenamente. Ele designava-o por alma.

Zhang DaQian

Martin Buchholz: Às vezes fala de algo que designa através de numerosos termos. Tomei algumas notas: o envolvente último, o grande modelo, o grande todo. Obviamente que se trata de algo que é difícil de descrever, mas o que é que dizer?

Bert Hellinger: Não quero dizer nada. É bastante claro que chegamos ao limite da nossa compreensão, mas aqui temos um sentido, há algo mais que opera. Mas não o conseguimos perceber.

Martin Buchholz: O conceito de alma que utiliza é um termo que geralmente reconhecemos na filosofia ou na teologia. Na psicoterapia tradicional provavelmente usar-se-ia o conceito com cautela.

Bert Hellinger: É o que geralmente acontece com tais conceitos, é exactamente assim.

Martin Buchholz: Isso é uma queixa que as pessoas fazem. Por favor, tenha a bondade de explicar o que quer dizer com isso.

Bert Hellinger: Eu posso defini-lo, não no sentido de o identificar com precisão, mas pode-se descrever a alma através do efeito que ela tem.

Onde quer que vejamos a alma a operar, ela tem duas funções básicas. Primeira, ela une alguma coisa. O nosso corpo, por exemplo, é mantido unido por um poder que coordena todas as funções corporais. Perguntamo-nos que tipo de poder é esse. É a alma.

Em segundo lugar, a alma conduz-nos numa direcção definida. Mas a alma não se limita ao nosso corpo ou a nós como um indivíduo. A família também tem uma alma. Portanto, todos os membros da família respondem de acordo com leis definidas pela alma. Enredos e comunidades de destino só existem por esse motivo. Estes membros da família têm uma alma comum. E, além disso, existem conexões maiores ainda.

Então, há algo que tem um efeito. Eu chamo-lhe a alma. Mas eu não estou a dizer que sei o que isso é. Até agora não encontrei um termo melhor. Bem, na China, encontrei um melhor: o Tao.

O Tao é um poder que dirige e controla tudo. E aqui também no Tao de King, o livro fundamental atribuído a Lao Tse, ele diz: o Tao que pode ser nomeado não é o Tao. Mas toda a gente percebe que existe um tal poder. A palavra Tao é mais geral e evita a apreensão da definição ainda mais facilmente do que a palavra alma. Na China eu uso a palavra Tao. Está mais próxima de mim, de qualquer forma.

Martin Buchholz: Os aspectos importantes sobre constelações familiares segundo Bert Hellinger estão relacionados com a psicoterapia ou com questões de fé, ou ainda com uma atitude básica que é quase religiosa?

Bert Hellinger: Nenhuma delas. Muitos vêm para as constelações familiares mesmo não estando doentes. Para eles as constelações familiares não têm nada a ver com doença ou com psicoterapia. E não são pessoas psicologicamente perturbadas. São pessoas cujo caminho na vida em alguns aspectos chegou a um impasse. Esta é uma matéria humana geral.

A pessoa está talvez à procura de uma saída, ou de uma solução. Neste sentido as constelações familiares estão mais perto da filosofia. É um saber sobre a vida.

 

Excerto de uma entrevista feita pelo jornalista e autor Martin Buchholz a Bert Hellinger, que apareceu originalmente na revista “Help for Daily Living” em Outubro 2013.

Fonte: A Closer Look at Constellations. An Interview With Bert Hellinger 07/30/2014

Tradução do Inglês por Eva Jacinto

Pintura de Zhang DaQian

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OS INIMIGOS DO SABER

Transcrição do discurso de Bert Hellinger.

Extracto do curso de formação em Barcelona (29 de Fevereiro a 2 de Março de 2008).

 

Gabriel Pacheco

 

“Carlos Castaneda conta nos seus livros a história do xamã Don Juan. Num desses livros, Don Juan descreve os inimigos do saber, são quatro inimigos. Querem que os nomeie?

O primeiro inimigo do saber é o medo. Aquele que haja superado o medo já não poderá perder o saber. Depois vem o segundo inimigo – a clareza. Quem supera a clareza enfrenta-se com o terceiro inimigo – o poder. Aquele que vença este inimigo defronta-se com o último inimigo. Esta pessoa não se deixará vencer de todo. O último inimigo é a necessidade de paz.

Para ser mais explícito, vou explicar o que quero dizer. Muito bem… qual é o medo dos que fazem este trabalho, qual é o seu maior medo? É o medo daquilo que os outros possam dizer sobre eles. Conseguem senti-lo? Se eu tivesse esse medo, não me teria tocado a mim nem descrever nem propagar este trabalho. Este é, de longe, o medo mais comum. Com esse medo, permanecemos como crianças. Outro é o medo de perder clientes. Quando alguém tem este medo, pensam que o espírito o levará a outras e novas descobertas, a novos desafios? Este é um passo decisivo – superar também este medo. Outros temem o que irá acontecer às constelações familiares quando Hellinger morrer. O que poderá acontecer? O que se passaria comigo se eu tivesse essa angústia? Há, e são muitos, os que querem ser lembrados após a sua morte. Consagram algo das suas vidas para proteger o seu património, incluindo a sua herança espiritual. Será que assim ainda se encontram num movimento do espírito? Estarão abertos a outras descobertas? Este medo tem muitas facetas. Eu tenho uma necessidade interior muito profunda e sinto-me bem com ela. Necessito profundamente que me esqueçam. Assim posso estar livre, totalmente livre. Pois bem, este é o primeiro inimigo do saber – o medo. Eu superei, amplamente, este inimigo. Querem que continue a contar-vos sobre os inimigos do saber?

Aquele que tenha superado o medo já não poderá perder o saber. Aquele que conseguiu ir além do medo deu um passo decisivo. Ganhou a clareza. E a clareza não a pode perder, pois venceu o medo. No entanto, a clareza é o seu próximo inimigo. Por exemplo, ela firmemente estabelece aquilo que na aprendizagem é o certo e o errado. E decide o currículo ao qual todos se devem conformar, e ao qual também eu deveria conformar-me. Assim, a clareza delimita-se e rapidamente se vê ser considerada como clássica. Daqui para a frente o saber já alcançado progride pouco. Aquele que enfrente este inimigo, ultrapassando qualquer clareza e que procure ir mais longe, aproximar-se do que é novo e do que é superior, podemos dizer que superou o inimigo “clareza”. Ao vencê-lo, ganha poder de muitas maneiras.

Chega então o momento de superar este inimigo também e renunciar ao poder. Por exemplo, ceder o controle e o desenvolvimento de mais força. Este é um estado auspicioso. Aquele que tenha superado o poder vive despreocupado, sem ansiedades porque se encontra guiado e levado por forças potentes.

E então aparece o último inimigo, a necessidade de paz. Tive-a aos 65 anos. Superei este inimigo, até agora está superado.”

 

Extracto do curso de formação em Barcelona (29 de Fevereiro a 2 de Março de 2008).

Tradução do castelhano por Eva Jacinto.

Desenho de Gabriel Pacheco

 

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A AUTONOMIA DO ADULTO

Bert Hellinger entrevistado por Gabriele ten Hövel

“A autonomia e liberdade só são possíveis quando, sob outro aspecto, não somos autónomos, mas participantes – quando estamos ao serviço de algo e nisso consentimos.”

Bert_Hellinger

Gabriele ten Hövel – O que o senhor diz é, e continuará a ser para muitos, um atrevimento. Afirma que a nossa percepção está condicionada pelos campos onde nos movemos, que estamos “ao serviço”, que os movimentos são controlados por poderes superiores e que nem sequer a nossa consciência moral é autónoma, mas que depende da família de origem e do grupo em que nos movemos. Onde ficam então a autonomia e a liberdade? Até que ponto estamos condicionados? Que margem de manobra temos? Estes são os pontos sempre em questão quando se discute a filosofia de Bert Hellinger. As pessoas contrapõem que a sua imagem do ser humano é fatalista e até totalitária. Elas consideram que hoje as pessoas têm todas as possibilidades para planear a própria vida de forma cooperativa e consciente e que os terapeutas existem para ajudar os clientes e eliminar o que entrava esse propósito. Que autonomia tem o sujeito no mundo moderno? Que contribuição presta a sua filosofia e o trabalho com as constelações familiares para essa autonomia?

Bert Hellinger – Do ponto de vista filosófico a ideia de autonomia é ridícula. Continuamente dependemos uns dos outros. Estamos marcados pelos nossos pais e pelo campo onde nos movemos. Os antepassados estão presentes, os mortos estão presentes, as nossas acções estão presentes, tudo está presente. E movemo-nos imersos em tudo isto. Se penso que decidi livremente as coisas da minha vida, torno-me pequeno. Pequeno e insignificante. Estou envolvido em todos esses grandes movimentos, na fila dos ancestrais, na família, e esse envolvimento é independente da minha livre vontade. Muito simplesmente encontro-me dentro disso e também eu movo algumas coisas. Em que medida posso atribuir isso a mim ou não, parece-me irrelevante.

Gabriele ten HövelO conceito de sujeito tem duas faces: sujeição e autodeterminação. O senhor enfatiza o ponto de vista de estar dentro, imerso, ou seja, a ideia de sujeição e ridiculariza a autonomia. No entanto, todo o movimento terapêutico dos anos 70 apontava para essa liberdade individual. Certa vez Eric Berne formulou isso de forma exagerada: “se eu te amo, o que isso tem a ver contigo?”. Talvez que, como reacção a uma sociedade totalitária, aqui na Alemanha e nos últimos 40 anos, tenha havido uma acentuação excessiva da liberdade individual? Continue reading

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Bert Hellinger: SENTIMENTOS

Sentimentos primários e secundários: uma explanação de Bert Hellinger sobre a sua concepção, apresentando exemplos da sua aplicação a vivências específicas.

 

“A diferença principal entre sentimentos primários e secundários é que o primeiros estimulam a ação construtiva, enquanto que os secundários consomem a energia que, de outro modo, iria estimular mudanças. Sentimentos que geram ação efetiva fortalecem as pessoas. Os que embaraçam ou substituem a ação efetiva, ou ainda que justificam a omissão, enfraquecem-nas. Chamo, pois, os sentimentos que geram ação construtiva de sentimentos primários e os outros de sentimentos secundários.

Kandinsky Yellow Circle 1926

Kandinsky. Yellow Circle, 1926

Os sentimentos primários são simples e não exigem descrição minuciosa. São fortes sem ser dramáticos ou exagerados. Por isso, embora excitantes e vívidos, trazem uma sensação de segurança e calma. (…)

Muitos sentimentos com que lidamos em terapia são secundários. Sua função principal consiste em convencer os outros de que não podemos encetar ação efetiva, razão pela qual têm de ser sentimentos dramáticos e exagerados. Quando sob o império de sentimentos secundários, somos fracos e os demais presentes sentem a necessidade de ajudar. Se as emoções forem suficientemente dramáticas, os que pretendem ajudar não percebem que, na verdade, pouco há a fazer em tal situação.

Quando as pessoas cultivam sentimentos secundários, evitam contemplar a realidade. Esta compromete as imagens interiores necessárias para manter esses sentimentos e prevenir mudanças. Quando essas pessoas “trabalham” com terapia, frequentemente fecham os olhos e se recolhem ao seu mundo particular. Respondem por outro lado ao que lhes é perguntado, mas quase nunca percebem o que fazem. Convém lembrá-los de que devem abrir os olhos e observar o mundo. Eu costumo dizer-lhes “Olhem para cá. Olhem para mim.” Se conseguirem abrir os olhos e ver realmente, mas ainda assim continuam com o mesmo sentimento, é porque se trata de um sentimento primário. Mas se o sentimento lhes fugir tão logo abrirem os olhos e começarem a ver, podem estar certos de que foram envolvidos por sentimentos secundários.

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Vídeos – CONSTELAÇÕES

Vídeos constelações familiares 

Canal de vídeos sobre constelações familiares e temas conexos.

 

Vídeos de constelações familiares, orientadas por Bert Hellinger.

Fonte: Vídeos – CONSTELAÇÕES FAMILIARES

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OS MAUS E OS BONS NA FAMÍLIA

Os maus e os bons na família

por Bert Hellinger

Há algo mais a ter em conta. Algumas pessoas são excluídas de um sistema porque se diz que elas não são dignas, por exemplo, alguém que é jogador ou alcoólico, homossexual ou criminoso. Sempre que uma pessoa é excluída desta forma, por alguns dizerem “eu tenho mais direito a pertencer do que ele ou ela”, o sistema fica perturbado e faz pressão para que haja uma reconstrução ou reparação do mesmo. Porque aquele que foi separado ou excluído desta maneira, será imitado numa geração mais à frente por um descendente, sem que este se dê conta. Este descendente vai sentir-se como o excluído se sentiu, comportar-se como ele se comportou e frequentemente acaba como ele.

Joanna concejo Para isto há uma única solução. É necessário voltar a incluir no sistema aquele que foi considerado mau e reconhecer que ele tem o mesmo direito de pertença que os outros. E há que dizer-lhe: “cometemos uma injustiça contigo e temos pena de o termos feito”. Imediatamente será possível ver que é justamente da pessoa que tinha sido excluída que emana uma força grande e positiva para os descendentes. Essa pessoa torna-se uma espécie de patrono para eles.

Nas constelações familiares dá-se a curiosa observação de que em relação ao bem e ao mal, aquilo que se manifesta é geralmente o inverso daquilo que se apresenta. Aquele que é indicado como sendo o bom frequentemente se verifica ser o mau e aquele que é considerado o mau verifica-se que é o bom, de quem emana uma força positiva. Por esse motivo, só é possível fazer terapia sistémica quando os excluídos e os maus são tomados no coração e tratados com respeito. Estranhamente, no instante em que o faço ganho a confiança de todos os outros membros do sistema. Instintivamente sentem confiança em mim. Contudo, se eu me cinjo àquilo que ouço e digo ao cliente: agora diz ao teu pai ou ao teu tio de uma vez por todas que ele é um canalha, ou ao pai que abusou de ti que ele é um sujeito mau, já ninguém do sistema sente confiança no terapeuta. As soluções conseguem-se somente mediante o amor. Uma vez compreendidas estas dinâmicas, a única coisa que se pode fazer é trabalhar colocando o amor na dianteira.

 

Bert Hellinger InEl Manancial no Tiene que Preguntar por el Camino“.

Editora: Alma Lepik, Buenos Aires
Tradução do castelhano – Eva Jacinto

Ilustração de Joanna Concejo

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