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A BONDADE

A BONDADE

Texto de Bert Hellinger, traduzido do castelhano por Eva Jacinto*

 

Bondade significa: estou bem disposto para alguém. Estou bem disposto para o outro, tal como ele é. E como se demonstra esta bondade? Por minha parte, deixo que os outros sejam como são. Na minha presença podem mostrar-se tal como são, sem temer que lhe faça reparos. Esta é razão pela qual nos sentimos bem na presença de pessoas bondosas.

A pessoa bondosa é também boa para si própria. Ela é tal como é. E também é boa de coração.

A pessoa bondosa é como é ou será que ela se converte em algo mais para si e para os outros devido à sua bondade? Porque é boa, a bondade permite frutificar muitas coisas ao seu redor, de uma maneira boa. Muitas vezes basta que a pessoa esteja presente, sem fazer nada, como o sol, que ao brilhar faz com que a vida prospere.

A bondade acaba quando faz distinções. A partir do momento em que faz distinções, prefere uma coisa a outra. Distingue entre algo melhor para ela e o que considera ser menos bom ou mau. Então, também aqueles que consideram a bondade boa num determinado momento, temem ser considerados menos bons ao fim de algum tempo, temem que a bondade deixe de ser bondosa com eles.

A verdadeira bondade é bondosa com tudo. (…)

Será que o bondoso aprova também os maus e os violentos, aqueles que actuam contra a vida de outro e inclusivamente matam de uma maneira evidentemente injusta?

O bondoso é bondoso com eles, tal como é bondoso consigo próprio, porque percebe em si mesmo os mesmos impulsos: no seu coração, na sua profundidade oculta, o mesmo potencial cruel e maligno.

O que é que acontece àqueles que consideram os outros piores do que eles próprios? Que acontece com aqueles que, à vista do maligno e cruel sentem ascender nos outros e nos seus próprios corações o maligno e o cruel, o que os torna idênticos àqueles que eles rejeitam, torna-os semelhantes no mais profundo do seu interior?

A bondade, tal como uma gota de água suave e macia que ao cabo de algum tempo amolece até a rocha mais dura, torna-se irresistível no coração do próprio maligno. Até a rocha mais dura se dissolve ao fim de algum tempo na água macia.

Esta bondade é uma bondade divina. Amacia até a rocha mais dura e por fim leva-a com a água da nascente até ao oceano, ao oceano de uma bondade infinita.

 

*Bert Hellinger (2010). Historias de éxito en la empresa y el trabajo. Rigden Edit, S.L.

Pintura de Ernesto Shikhani – Maputo, 1998.

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LOGRAR A PAZ

 

Muitas pessoas que lutam pela paz querem mudar os outros. Querem que os outros sejam como eles próprios. E isto, claro, é contrário a toda a paz verdadeira.

A paz estabelece-se se reconhecemos as diferenças e se amamos as diferenças e se estamos abertos para integrar em nós próprios o que os outros têm para oferecer. Outras famílias, outras nações, outras religiões, outras culturas.

E se reconhecermos que ambos têm direitos iguais e de valor igual, então podemos chegar a um acordo que permita a ambos os lados manter os seus valores peculiares, salvaguardando os seus valores e o seu território também. Então pode haver acordo.

Qual é o maior obstáculo à paz? – É o recordar.

Evocação (1944), de  Nadir Afonso

Evocação (1944), de Nadir Afonso

Recordar o que sucedeu aos nossos antepassados. E nessa altura tomamos para nós a tarefa de fazer justiça por eles, embora eles estejam mortos há já muito tempo e por certo nem o querem. Mas os vivos encontram uma justificação a partir daquilo que sucedeu aos seus antepassados para se tornarem assassinos. E por meio do recordar começam novas guerras e fazem novas injustiças, os assassinatos continuam e a paz fica cada vez mais distante.

Outro obstáctulo à paz é que um grupo pense que é melhor que o outro grupo. Na realidade todos os grupos pensam assim, todas as famílias pensam assim. E como pode isso ser? Porque são governados pela sua consciência e a principal função da consciência é a de ligar-nos à nossa família e aos valores da nossa família e, no mesmo movimento, através da nossa consciência excluímos os outros e pensamos que eles não são tão bons como nós.

Assim, a paz só se consegue alcançar se estivermos dispostos a ir além dos limites das nossas consciências e, através disso, deixarmos para trás a diferenciação entre boas e más pessoas. E a essas distinções, que são a base dos conflitos. Por detrás da consciência está a alma; se permitirmos à alma mover-se e dirigir-nos, esse é um movimento para a reconciliação. (…)

Na vida do quotidiano, se pessoas de partidos opostos se encontram, ambos tendo o desejo de estabelecer a paz entre eles, têm de superar esta diferenciação e respeitar os outros como iguais. Adicionalmente devem olhar para as vítimas e para os agressores do seu próprio grupo e do outro grupo e, olhando para eles, fazer o luto por todos eles. Este luto em comum permite-nos deixar o passado para trás e trabalhar juntos, em comum, por um melhor futuro em paz.

 

Bert Hellinger

In As dimensões da Paz, Congresso Internacional em Oaxaca, México, Novembro de 2003

(Documento em vídeo. Tradução do inglês por Eva Jacinto)

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