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A ALMA E OS MOVIMENTOS DA ALMA

Por Wilfried Nelles

Traduzido do Inglês por Eva Jacinto

 

Os “movimentos da alma” são algo que podemos perceber de imediato como um movimento subtil interno. Quando estamos ao lado de um ser humano, a nossa alma pode abrir-se e expandir-se ou retirar-se e fechar-se. Acontece frequentemente, geralmente não nos apercebemos, mas conseguimos senti-lo quando nisso focamos a atenção. Tal como notamos de imediato quando a alma de outra pessoa se abre ou fecha para nós. Não só com humanos temos esta experiência, mas também com os animais, plantas e toda a natureza, até mesmo com nós próprios podemos ter esta experiência.

W. Kandinsky. Black increasing (1927)

Este movimento parece-me ser um processo natural, uma espécie de ritmo, como as marés. Mas para muitas pessoas este movimento está limitado, com alguns está quase completamente congelado. Experienciamos este torpor como um sentimento de estar separado, como isolamento e solidão. A razão desta contracção e torpor da alma é sempre algum evento traumático, seja sistémico ou pessoal. Na terapia tentamos aliviar este torpor, a fim de permitir que a alma se expanda, pois o movimento natural da alma é o de se abrir a espaços cada vez mais amplos.

Esta abertura da alma é também uma condição prévia para a percepção fenomenológica e insight. Adoptando a atitude fenomenológica, observo aquilo para que olho não apenas como objecto, mas como sujeito com alma (mesmo que seja apenas um pedaço de pedra). Abro a minha alma o suficiente para poder ser tocado pela alma daquilo que contemplo. E então, chega até mim uma mensagem vinda daí. Em vez de falar de uma abertura da “minha” alma, pode ser mais apropriado falar de uma abertura para a alma, de uma abertura em direcção à dimensão da alma. Formulação que exprime melhor que este espaço não está definido por limites e pertença; não falamos acerca de algo que é meu, mas acerca de crescimento e de estar conectado a tudo que o está.

Bert Hellinger descreveu isto afirmando que nós não temos uma alma, mas estamos dentro de uma alma. A alma não está dentro de nós, mas à nossa volta. Este ponto é crucial. É uma extensão decisiva da compreensão corrente de alma. Quando sintonizamos com esta imagem, percebe-se imediatamente que algo dentro de nós se abre e amplia. Então a alma não me pertence, eu pertenço à alma, sou mais ou menos parte dela. Acrescentaria ainda que a alma deverá ser considerada mais como uma qualidade ou dimensão do que como uma entidade que pode ser encontrada em algum lugar (dentro ou fora). Considero que ambos são verdadeiros: a alma está tanto dentro de nós como ao nosso redor. Penso que não devemos imaginar a alma como uma coisa, como algo localizado nalgum lugar, dentro ou fora. Para mim, a alma é aquilo que liga e conecta. O que me liga a outras pessoas e a tudo o que existe à minha volta. Quanto mais ampla a minha alma, mais aberto estou a esse espaço, a esta dimensão que é a alma, mais conectado estou. Nesse sentido, o crescimento espiritual nada mais é que uma extensão do meu sentido de ser, da minha identidade, em direcção ao espaço cada vez mais amplo e constantemente em movimento da alma.

Não se trata aqui de elaborar uma definição precisa, mas apenas de representar aquilo de que falamos quando falamos da alma ou dos movimentos da alma. Considero ser importante compreender que a alma não é uma construção mental, mas algo real que podemos perceber e sentir exactamente naquele momento em que a alma se está abrindo ou fechando, quando está em movimento. E em segundo lugar, que isso é algo natural e que acontece constantemente – por isso não é um método de constelação.

Quando olhamos para o trabalho das constelações, parece bastante claro que as constelações familiares foram orientadas, desde o início, para esta abertura do espaço da nossa alma. Ou deveria dizer, orientado para a abertura de nós próprios para aquele espaço da alma, para a conexão com esta dimensão? Esta abertura foi apoiada pelo facto de o facilitador não olhar apenas para o cliente, mas tendo em conta toda a família ou clã na sua alma.

Assim, esta abertura começa com o terapeuta, que dá espaço a todos no movimento da sua própria alma, sem fazer qualquer diferença, mas especialmente àqueles que foram excluídos, esquecidos, desvalorizados e repudiados. Assim, as Constelações Familiares exigem um movimento da alma que está para além de todas as questões de método do terapeuta, um movimento para uma maior abertura e abrangência.

Sob esta perspectiva, as mudanças inspiradas ao longo dos anos por Bert Hellinger não são, nem mais nem menos, do que um movimento cada vez mais amplo e profundo da alma que integra cada vez mais sem operar diferenças. No início havia o movimento de olhar apenas para o cliente para ver toda a família, rapidamente então, para além da família, o olhar passou a dirigir-se àqueles com quem não se está relacionado por laços de sangue e posteriormente mesmo até para os inimigos, tiranos e assassinos em massa, com a mesma abertura em relação ao bem e ao mal, para finalmente alcançar o que Hellinger chama “espírito-mente”.

 

Wilfried Nelles (2007) In Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

 

Tradução do inglês por Eva Jacinto

 

Texto integral aqui: Wilfried Nelles (2007). Classical Family Constellations, Movements of the Soul, Movements of the “Spirit-Mind”: Where is Constellation Work Heading to?

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