TER RAZÃO

Um texto místico de Bert Hellinger, do livro Plenitud. La Mirada del Nahual, uma perspectiva mais sobre a questão, originalmente abordada pelo autor, das consciências.

 

 TER RAZÃO

Aquele que quer ter razão e procura ter a razão, quer modificar o mundo à sua imagem. O que é que acontece, então, ao seu redor? As pessoas protegem-se dele. Talvez persigam o mesmo objectivo: também querem ter e encontrar a sua razão. Quando aparecem dois a querer mudar o mundo de acordo com os seus próprios conceitos, quer dizer, quando dois querem ter a razão, é inevitável o conflito entre eles.

Se no final um deles obtém e fica com a razão, onde termina? Ele ganhou ou perdeu alguma coisa? Certamente que, ao outro, àquele que perdeu o litígio, o perdeu como amigo. Se este último tivesse realmente perdido, então ter-se-ia desembaraçado dele. Contudo, o que acontece é justamente o contrário: ganhou um inimigo que pensa na vingança, que pensa em como há-de, mais adiante, ganhar a razão e fazer o outro perdê-la. E deste modo também este não se desembaraçou, transformou-o num inimigo e todo o jogo irá recomeçar.

Este é um modelo de relações com consequências devastadoras, no qual ambos perdem continuamente. A maioria dos conflitos, e quase todas as guerras, se resumem a estas regras de jogo e a estas jogadas. Pode haver injustiça maior, em que são vítimas milhões de inocentes, que através deste “querer ter a razão”?

Pode colocar-se a pergunta: podem aqueles que querem ter a razão abandonar a sua razão? Terão eles a força para deixar para trás a sua ideia de razão? Quem são na realidade aqueles que insistem tanto em ter razão? Querem a razão para si próprios ou para outros? Em caso afirmativo, para quem queres eles a razão? Quando insistem em ter razão, que idade têm nesse sentimento? Para quem buscam a razão?

Nos grandes conflitos procuram-na sempre para alguém maior, alguém que veio antes, e em cujo lugar se colocam e até se elevam. É esta a madeira de que são talhados os heróis que, pela razão, levam a jogo o último, incluindo a sua própria vida.

Serão estes heróis adultos? Ou continuam a ser crianças? Actuam de forma responsável ou cegamente, com um fervor cego? De que lhes serve esse fervor? Demonstram com isso a alguém que amam: “Por ti faço tudo. Expio a injustiça que outros cometeram contra ti. Para ti consigo, posteriormente, a razão”.

Aqueles para quem eles procuram conseguir a razão geralmente já estão mortos há muito tempo. Também estão mortos aqueles que, na sua opinião, causaram uma injustiça grave, que inclusivamente foram culpados pela morte. Mortos, jazem pacificamente um ao lado do outro, iguais entre si em todos os sentidos, ambos sem razão posterior.9723080269_c17e90d861_o

Que significado tem então para eles estas razões? Podem elas fazê-los ressuscitar dos mortos, ou significarão, antes, a morte de muitos inocentes? Nalgumas estátuas representa-se a justiça como uma mulher de olhos vendados, querendo significar com isso que ela não quer tomar partido. Aqueles que querem ter razão e fazer justiça são cegos de outra maneira. Estão cegos perante o amor. É verdade que actuam a partir do seu sentimento de amor. Porém, por amor a um dos lados. Não se apercebem que com esse amor roubam a paz eterna àqueles para quem querem obter a razão, a paz a todos os que estão mortos junto a eles. Pode alguém ser mais cego?

Essa cegueira vai ainda mais longe. As pessoas que querem ter a razão imaginam que são como o seu Deus, um Deus escrupuloso, que procura de todas as formas ter razão. Por esse motivo impõem, em nome Dele, a sua razão. Por exemplo, na fivela do cinto dos soldados alemães das duas guerras mundiais aparecia a frase “Deus está connosco”.

Se completarmos esta frase, o que é que ela significa exactamente? – “Deus está connosco e contra os outros”. Na cabeça de todos os beligerantes, de ambos os lados, essa frase, ainda hoje, continua a vaguear. Quanta injustiça por eles cometidas, é atribuída ao seu, assim considerado, Deus justo e é justificada através Dele.

Poderia parecer que aqui eu me inflamei. Terei caído no mesmo trilho dos outros, daqueles que querem ter a razão? Poderemos em algum momento pôr termo a isto de querer ter a razão? Como poderemos deixá-lo para trás e evitar essa justiça da razão que continuamente dá à luz injustiças? Tendo em conta que sob a influência da nossa consciência continuamente operamos a diferença entre bem e mal e entre justo e injusto, será possível consegui-lo? Acaso não será a nossa consciência tranquila aquela que mais enfraquece a justiça, aquela que continuamente viola a justiça dos outros?

Evitamos querer ter razão na medida em que nos afastemos do raio de atracção da nossa consciência e nos coloquemos ao serviço de outro Deus. De qual Deus? Do Deus criador, que a tudo, exactamente e tal como é, deu existência e que a todo o momento o mantém existente e a si dirigido.

Este Deus, unicamente ele, leva-nos à reconciliação. Essa reconciliação reconhece: perante ele todos são igualmente amados; perante ele todos têm o mesmo direito; ele quer que sejam exactamente como são, perante ele estão todos ao mesmo serviço. Também os violadores da justiça, aqueles que procuram ter a razão? Será possível imaginarmos diferentemente, sem que a esse Deus tornemos a fazer dele o Deus da nossa justiça e razão, à nossa imagem, à imagem da nossa consciência?

Como escapamos dessa imagem? Mediante um actuar diferente. Estamos ao serviço da vida, da nossa vida e da vida dos outros. Estamos ao serviço de todas as vidas, sem razões, humildes no amor, também relativamente àqueles que procuram ter razão frente a nós e frente aos quais nós insistimos em ter razão. Estamos, de modo criativo, ao nosso serviço e ao serviço deles, em sintonia com essa força criadora. Confiamos em que, no final, ela tudo reconcilie de maneira criativa, porque ama a todos por igual. Que reconcilie com clemência, sem razões, com amor.

Bert Hellinger In “Plenitud. La Mirada del Nahual” Editorial Grupo Cudec, México. Tradução do espanhol – Eva Jacinto

 

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