Uma relação básica

 

Goethe escreveu:

Há na respiração duas mercês, a de inspirar e a de soltar o ar, aquela aperta, esta refresca, eis a combinação maravilhosa da vida.respiração

Todas as línguas da Antiguidade utilizam a mesma palavra que alma ou espírito para designar o alento. Respirar deriva do latim spirare, e espírito de spiritus, raiz da qual deriva também a palavra inspiração tanto em sentido lato como em sentido figurado. (…)

Aproximamo-nos do mistério da respiração. A respiração actua em nós mas não nos pertence. Não é o alento que está em nós, mas sim nós que estamos dentro do alento. Através do alento achamo-nos constantemente unidos com algo que se encontra para além do que é criado – para além da forma. O alento faz com que não se quebre essa união com o âmbito metafísico (literalmente: com o que está por detrás da Natureza). Vivemos no alento como no interior de um grande útero materno que abarca muito mais do que o nosso ser insignificante e limitado – é a vida, segredo supremo que o Ser Humano é incapaz de definir e não sabe explicar. A vida apenas é susceptível de ser vivida abrindo-nos a ela, deixando-nos inundar por ela, e a respiração não é mais do que o cordão umbilical através do qual ela chega até nós. A respiração faz com que nos mantenhamos em união com a vida.

Aqui reside a sua importância: a respiração impede que o Ser Humano se isole do Todo, se feche sobre si próprio e torne impenetrável a fronteira do seu Eu. Por maior que seja o desejo do Ser Humano em se fechar no seu Eu, a respiração obriga-o a manter uma relação com tudo o que é alheio ao Eu. Não nos esqueçamos que respiramos o mesmo ar que os nossos inimigos. É o mesmíssimo ar que respiram os animais e as plantas. A respiração une-nos constantemente com o Todo. Por mais que o Homem deseje isolar-se, a respiração une-o com tudo e com todos. O ar que respiramos, quer queiramos quer não, põe-nos em união com os demais. A respiração tem algo que ver com o «contacto» e o «relacionamento».

 

In Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke (1993). A Doença como Caminho. Cascais, Editora Pergaminho. Pág. 138-139.

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