O TABU DA FELICIDADE

 

Por Joan Garriga

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade. Ainda que se deseje intensamente a felicidade, pode ser difícil permitir-se ser intencionalmente feliz, quando se sabe que outras pessoas na nossa família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e, por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”.

Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Edvard Munch, 1893

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí também vemos, com frequência, como os sucessores tratam de expiar culpas dos antecessores ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial, a vida, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente: “a este preço tão elevado não a quero e portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas assim, o que é que a mãe ganha? De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu, de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos.

Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

 

Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Edvard Munch, 1893

Visão Sistémica no Campo Pedagógico

Que mudanças detecta nos professores que trabalham com constelações familiares?

Marianne Franke: Com as constelações familiares as pessoas adquirem uma experiência profunda do seu enraizamento na família de origem. Também compreendem que esse enraizamento na sua família determina a sua personalidade enquanto professores. É possível que os professores que experienciaram as constelações familiares não façam melhor, mas estarão mais conscientes. Na relação com os seus alunos, já não dependem das interpretações. Reconhecem as situações e exigem com mais clareza aquilo que a escola exige às crianças: a sua concentração no compromisso social e na predisposição para aprender.

Excerto de uma Entrevista a Marianne Franke: Una nueva comprensión de las relaciones entre alumnado, profesorado y famílias In Cuadernos de Pedagogía, nº 360, septiembre 2006. (Tradução do castelhano por Eva jacinto)

 

workshop com Marianne Franke Porto 2020

Marianne Franke-Gricksch é psicoterapeuta e professora de estudos avançados sobre visão sistémica e constelações familiares. É pioneira da pedagogia sistémica – aplicação do pensamento sistémico ao campo pedagógico . É autora do livro You’re One of Us. Systemic insights and solutions for teachers, students and parents“, Carl-Auer, publicado em 11 línguas.

 

As constelações familiares são uma técnica inovadora que permite identificar num curto período de tempo dinâmicas familiares inconscientes que geram sofrimento e dificultam as nossas possibilidades de crescimento e de aprendizagem.

Em Maio de 2020 Marianne Franke-Gricksch irá conduzir um workshop de constelações familiares no Porto. Neste workshop os participantes podem trazer os seus problemas, preocupações e perguntas. Esses temas serão trabalhados com a ferramenta das constelações.

CONEXÃO ENTRE REPRESENTANTES E REPRESENTADOS

O que é que isto [a constelação] demonstra?
Demonstra que estamos conectados de uma forma muito profunda com muitas outras pessoas.
E aqueles que entram numa constelação como representantes, de certo modo deixam o seu próprio sistema e entram noutro sistema, ou poderíamos também dizer que entram num outro campo. E nesse campo entram em ressonância com tudo o que pertence a esse campo particular.

BERT HELLINGER
Primeiro Seminário Internacional – “Los Órdenes de la Ayuda” -, realizado no ano de 2004 no México, organizado pelo Instituto Bert Hellinger de México.

Traduzido e legendado por Eva Jacinto

Constelações e Educação Transpessoal

Texto de Albrecht Mahr *

As constelações são úteis para nos relembrarem da experiência sempre nova (e sempre muito rapidamente esquecida) de que falhamos nas nossas tentativas de excluir tudo aquilo a que chamamos o mal. Quer seja como indivíduos, quer como famílias, comunidades ou grupos religiosos, étnicos ou políticos, seguimos o impulso para manter o estranho, o desconhecido, o assustador e o ameaçador longe da nossa consciência, quer ele venha de dentro de nós ou de uma fonte externa. E é só uma questão de tempo até termos de reconhecer a lei natural – que Freud designa por “retorno do recalcado” – de que nos tornamos naquilo que rejeitamos.Alexander Calder 1971

Nós e os sistemas de que fazemos parte somos extremamente inclusivos. Quando rejeitamos e excluímos o avô alcoólico e violento, a consciência sistémica de integridade e inclusão – uma das leis sistémicas naturais – toma conta da pertença do avô ao sistema, impelindo um filho, um neto ou um bisneto a, inconscientemente, falhar e tornar-se violento ou alcoólico como o avô. Quando uma tia esquizofrénica passa a sua vida num hospital psiquiátrico, parecendo aos seus familiares que ela é estranha e esquisita, e sendo evitada e esquecida por eles, ela será remembrada, i.e., tornará a ser membro do sistema, por intermédio de outro membro da família. Por exemplo, uma sobrinha, talvez sem qualquer conhecimento da existência desta tia, pode tornar-se uma pessoa esquisita, estranha e solitária, repetidamente tomada por sentimentos de des-realização e solidão, tal como a sua tia. Chamamos a este processo trans-pessoal “pertença sombra” ou “lealdade sombra”, “inclusão sombra” ou também “amor sombra”, porque ele é cego, inconsciente e, muitas vezes, extremamente doloroso nas consequências que desencadeia.

A única resposta para a inclusividade radical dos nossos sistemas e da vida em geral é a de conscientemente praticarmos essa mesma inclusão, que significa um esforço muito gratificante para honrar tudo e todos na sua legítima existência, no seu espaço e na sua pertença. Isso não é, certamente, fácil e significa uma luta continuamente em curso e uma contínua atenção afectuosa.

Belas surpresas nos esperam, tal como nos mitos e contos de fadas, quando o exasperante, o mau, o revoltante e repugnante, as criaturas das sombras e o horrível se transformam para nós nas mais importantes fontes de compreensão, apoio e compaixão – assim que eles sejam realmente vistos e incluídos na nossa vida.

Assim, as constelações familiares são uma estratégia de educação transpessoal extremamente útil, não só para cuidar das vítimas de eventos nocivos, mas também para, de forma explícita, nos voltarmos para aqueles que no nosso entendimento de senso comum falharam, são culpados, maus, imorais, violentos, abusadores, odiosos ou sórdidos.

 

* Retirado de Albrecht Mahr (2004). Family Constellations – Failure, Evil, and Guilt as Sources for Loving Dedication and Compassionate Strength. Conferência de Albrecht Mahr na International Transpersonal Association Conference, Palm Springs, Califórnia, EUA

Tradução do inglês de Eva Jacinto

Imagem: Alexander Calder, 1971