Fundo Sistémico dos Traumas de Repetição

Por Anngwyn St. Just *

Essam Marouf

Eu sabia que o método sistémico de constelações postula algo assim como um “campo de informação” atemporal que contém informação sobre desequilíbrios nas famílias e noutros sistemas. Esses desequilíbrios podem gerar implicações inconscientes e distúrbios da saúde física e mental do indivíduo e dos seus padrões de vinculação, desequilíbrios que podem persistir por várias gerações. Esses desequilíbrios surgem na sequência de exclusões, relações interrompidas, perda precoce de familiares, abandono do país, segredos relacionados com eventos tais como adopções, filhos ilegítimos, homicídios ocultos, extorsão económica e, claro, guerras. Naquela época eu tinha uma compreensão superficial do significado desses campos e desequilíbrios. No entanto, ficou claro que esse modelo sistémico era radicalmente diferente de tudo o que eu tinha aprendido durante a minha formação como terapeuta familiar e de casais. E eu queria saber mais.
(…)
Observando o trabalho sistémico com constelações, comecei a intuir que interessar-me pelas consequências de conexões interrompidas me levaria a compreender mais profundamente o trauma individual no contexto de um sistema muito mais amplo. Acidentes de trânsito múltiplos, agora eu sabia, tendiam a acontecer em aniversários de separações e de relações interrompidas, que podiam tanto ser a causa como o resultado de desequilíbrios.
Com o tempo, também descobri que os acidentes geralmente ocorrem em aniversários dessas separações e relações interrompidas. Estas últimas podem incluir gravidezes interrompidas e muitas outras separações, como a morte de um ente querido, um divórcio, o rompimento de um relacionamento e outras experiências de abandono.

Quando comecei a olhar para estes traumas individuais numa perspectiva sistémica, percebi que muitos tinham também a ver com desconexões transgeracionais. Com esse novo entendimento, ficou claro para mim que a dificuldade em resolver certos traumas individuais frequentemente indicava a presença de um tema sistémico não resolvido. Esta compreensão marcou o início do meu trabalho com o trauma de orientação sistémica e também uma profunda mudança na abordagem clínica que comecei a fazer dos acidentes e outros incidentes avassaladores e conexões interrompidas. Esta nova fase começou com a hipótese já mencionada, ou seja, que muitos traumas não resolvidos têm um fundo sistémico.

Anngwyn St. Just (2010). “Trauma: una cuestión de equilibrio. Un abordaje sistémico para la comprensión y resolución”. Buenos Aires, Alma Lepik Editorial

Tradução do castelhano de Eva Jacinto

Imagem de Essam Marouf

O que são Constelações Familiares?

Na preparação do 1º Congresso Internacional de Constelações em Portugal, Lisboa, dias 18 e 19 de Outubro 2019 – Vídeo bem desenvolvido, falado em português e com legendagem em espanhol e inglês, onde se explicam os alicerces das constelações familiares.

As constelações são uma linguagem

Por Tiuu Bolzmann*

As constelações familiares são uma ferramenta sistémica, fenomenológica, vincular, para descobrir o funcionamento invisível das relações humanas e possibilitar a integração de todos os membros e factos do sistema e, consequentemente, contribuir para que cada pessoa encontre o seu lugar no mundo.

Psicologia e psicoterapia são disciplinas diferentes. Cada uma tem a sua própria epistemologia, o seu objectivo e o seu propósito.

Paul Klee, Guardian Celeste, 1948

As constelações familiares não são nem psicoterapia nem psicologia e não têm lugar entre as disciplinas que estão actualmente reconhecidas num nível formal. É uma disciplina nova, com um quadro particular. O reconhecimento dessa diferenciação levará tempo até ser formalmente integrada.

Procurar encaixar as constelações familiares numa das disciplinas existentes seria como meter um automóvel num aquário. Para encaixá-las no que já existe, tanto o automóvel como o aquário, deixariam de ser o que são.

Como sempre, quando algo novo e desconhecido está prestes a ser integrado, é necessário encontrar denominações que não prejudiquem as estruturas das disciplinas já existentes, nem limitem aquilo que é novo e se esforça por se diferenciar.

As constelações familiares são uma nova “linguagem” sistémica, fenomenológica, relacional, que permite traduzir as dinâmicas invisíveis dos vínculos humanos. Esta linguagem pode ser usada em qualquer contexto e relativamente a qualquer questão.

A “linguagem” das constelações ajuda a revelar a parte invisível dos relacionamentos, em todos os contextos. Embora as Ordens de Amor enunciem leis gerais que regem os sistemas, não devemos pensá-las mecanicamente nem automatizá-las, pois elas não se mostram em todos os sistemas da mesma maneira no mesmo momento.

Existem diferentes níveis em que se trabalha com as constelações. O trabalho pode simplesmente revelar alguns princípios básicos, por exemplo, a posição de cada um na família, ou mostrar quem falta, ou a quem foi negado o direito de pertencer; pode modificar a compreensão da pessoa sobre si mesma e mudar a sua atitude em relação aos outros membros do grupo; e pode levar a revelações essenciais para a pessoa que consulta. Em qualquer caso, o olhar é sempre posto na totalidade do sistema em questão. É por esse motivo que o trabalho não satisfaz apenas uma pessoa e a “solução” dá-se sempre ao nível sistémico. Não existe algo que faça bem a um, sem que faça bem a todos. Se alcançamos o bem de um, mas este produz mal no outro, então não encontramos a solução sistémica.

Para facilitar constelações familiares não é necessário um estudo académico. É necessária uma formação em constelações familiares que inclua o estudo profundo das Ordens de Amor e, além disso, é necessária a experiência de vida, uma atitude livre de julgamento, desenvolvimento pessoal e prática espiritual. O facilitador tem de ter a capacidade de manter-se em contacto e colocar-se em ressonância com a pessoa e com o seu sistema, para que possa proporcionar que se integre tudo o que lhe pertence.

As constelações familiares são uma linguagem que o facilitador usa para que a pessoa possa desenredar a complexidade da sua problemática. Quando o consultante alcança esse entendimento, a energia entre todos volta a fluir e cada um pode colocar-se no seu lugar, assumir os seus próprios assuntos e comunicar adequadamente com seu ambiente.

Recapitulando: como responder então à pergunta “O que são as constelações familiares?”

São parte de um novo paradigma. Uma visão holística da vida e da saúde. É uma ferramenta que nos permite “exteriorizar” a realidade em que estamos imersos e que não a conseguimos ver enquanto estamos “dentro”.

Isto é algo novo, realmente novo!

Tiuu Bolzmann (2019). Le Evolución No Accepta Límites o ¿qué Son las Constelaciones Familiares? In Ecos Boletin. Julio/ Agosto de 2019 – No 84
Acedido aqui: http://www.peterbourquin.net/inicio/

Traduzido do espanhol por Eva Jacinto
Imagem: Paul Klee, Guardian Celeste, 1948