PERCEPÇÃO REPRESENTATIVA

 

Albrecht Mahr : A PERCEPÇÃO DENTRO DA CONSTELAÇÃO

 

“Deixem-me explicar com maior detalhe: o que é uma constelação familiar? Sem que tenha fornecido qualquer informação prévia, um cliente configura uma pessoa que se encontra no grupo para representar a sua mãe ou pai, um colega, o seu próprio coração, o soldado japonês que salvou a vida do seu pai, o seu país, a sua fé ou a velhota vestida de um modo estranho que lhe apareceu em sonhos na noite passada. Na prática qualquer elemento, qualquer ser ou qualquer processo com um impacto importante sobre a pessoa, sobre a sua família ou sobre o seu grupo, pode ser representado. O representante “sabe” na sua experiência corporal, pelas emoções, imagens e pensamentos que vão emergindo na sua mente, a condição interna da pessoa ou elemento representado – muitas vezes de uma forma surpreendentemente precisa e significativa.

Este processo é simples e embora possa ser, ocasionalmente, dramático, é tão natural como respirar. Chamámos a este processo “percepção representativa”. A percepção representativa não requer nenhum conhecimento profissional, nenhum treino especial, nem um estado intelectual, psicológico ou espiritual especialmente evoluído.  Não há especialistas em percepção representativa, no entanto, temos a possibilidade de nos familiarizar com esse modo de percepção, de forma que ele pode aparecer com uma certa facilidade e flexibilidade oferecendo-se, por assim dizer, com um sorriso delicado. As constelações relembram-nos o facto de que, sem qualquer esforço, podemos tornar-nos, uns para os outros, num instrumento de experiências de que, através dos meios convencionais de informação, nada sabemos. Tornamo-nos receptivos a um órgão sensorial especial que medeia a percepção representativa, do mesmo modo que o olho medeia a visão. Este órgão sensorial concentra uma rica variedade de funções, a fim de proporcionar o conhecimento participativo da condição e da experiência de outros seres humanos e praticamente de todas as coisas.

Em primeiro lugar, ele utiliza o “conhecimento do corpo” através das suas valiosas capacidades perceptivas; utiliza, além disso, os sentimentos e emoções e a nossa capacidade para a imaginação e fantasia; utiliza ainda os nossos processos mentais, em particular o pensamento. A percepção representativa é não-localizada, isto é, a sua acção não se limita à proximidade espacial das pessoas envolvidas: é independente da distância a que se está daqueles que são apercebidos. A percepção representativa é trans-temporal, ou seja, inclui eventos que ocorreram há muito tempo atrás e também potencialidades futuras.

Isto inclui as pessoas já falecidas, ou seja, parentes que conhecemos ou pessoas que nunca conhecemos ou de quem nunca ouvimos falar e que tiveram uma influência profunda para a sobrevivência e o bem-estar da nossa família e cuja vida e destino, ainda que tenha ocorrido há varias gerações atrás, foi crucial para que hoje estejamos aqui. A percepção representativa recorda-nos que, para além de nossa experiência linear do tempo, vivemos também num espaço atemporal ou num espaço de concomitância temporal total, com frequência desdobrando-se numa constelação familiar como uma qualidade de imediatismo indubitável, simples agora e puro estar.” 

 

Este excerto foi retirado de uma conferência dada pelo Dr. Albrecht Mahr no evento International Transpersonal Association Conference, que ocorreu em 13-18 de Junho de 2004, em Palm Springs, EUA.

Traduzido do inglês por Eva Jacinto

Ilustração de Adolfo Serra

 

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Bert Hellinger: sobre a exclusão

Bert Hellinger: “A alma mostra-se somente quando não é interferida por intenções, julgamentos e medos… e se nos abrimos para algo maior.”

Bert Hellinger sobre a EXCLUSÃO: Vídeo legendado em Português.

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MOVIMENTO INTERROMPIDO

Movimento interrompido

O movimento interrompido é o retraimento emocional da criança, causado pela sua repetida e profunda decepção perante a inacessibilidade emocional da sua mãe ou do seu pai. Pode derivar da perda real do progenitor, da sua separação ou da sua ausência emocional. Se nos pais se observa uma implicação sistémica e eles empregam a sua energia vital na procura de um equilíbrio no seu sistema de origem, eles não estarão disponíveis para a criança na qualidade pais. A interrupção pode ocorrer de forma completamente involuntária e contra o desejo dos pais. Por exemplo, se a criança tiver de ficar internada durante algum tempo num hospital e isso resultar numa suspensão de contacto entre ela e os seus pais, porque eles não a podem visitar ou, como acontecia no passado, as visitas lhes eram proibidas, esta situação pode originar uma interrupção do movimento de aproximação por parte da criança. O mesmo se aplica quando se for a mãe a adoecer.

Por outro lado, se um dos pais estiver ausente, é possível evitar um movimento interrompido se um dos progenitores representar o outro com respeito e honra e falar sobre ele, frente à criança, de maneira carinhosa. A partir de um amor profundo, a que Hellinger chama amor original ou amor primário, o filho quer fazer qualquer coisa pelos seus pais. Se estes rejeitam os seus esforços ou o seu carinho, não os respeitam ou a ausência emocional do pai ou da mãe os impede de demonstrar reciprocidade, “(…) o amor pelo progenitor converte-se em dor. Trata-se de uma observação fundamental e importante: que a dor emocional é amor interrompido e que esta dor é, na realidade, outra faceta do amor. Embora a dor seja realmente uma forma de amor, a sua intensidade é tal que a criança se recusa a experimentá-la” (Hellinger, 2001*). O filho, então, deixa de tentar aproximar-se aos seus pais e não está disposto a voltar a fazê-lo. No final, rejeita por completo qualquer tentativa, porque tudo o que ele quer é proteger-se da dor. Os clientes, a partir desse ponto, não querem ter nada a ver com os seus pais, que são as pessoas que lhes causaram dano. Não têm nada de bom a dizer sobre eles, interrompem o contacto ou não sentem nenhum sentimento, nem positivo nem negativo, sobre eles, o que pode ser interpretado como uma “repressão”. Contudo, esta não é uma resolução estável, mas uma estagnação, pois, e de acordo com Hellinger, o amor entre o pai ou a mãe e a criança deixaram de fluir. Através da terapia é possível restaurar este movimento e, assim, criar um vínculo com a geração anterior, o que significa que o cliente estará livre de sentimentos negativos em relação aos pais, com quem os vínculos são tanto mais fortes quanto maior a acusação, raiva ou decepção.

 

In Ursula Franke (2011). El Río Nunca Mira Atrás. Gulaab, Madrid

Traduzido do espanhol por Eva Jacinto

 

*Hellinger, B. (2001): Love’s Own Truths. Bonding and Balancing in Close Relationships. Phoenix, AZ (Zeig, Tucker & Theisen).

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RELAÇÃO SISTÉMICA

 

As constelações ajudam a identificar rapidamente as estruturas da relação sistémica e a encontrar uma resolução. No processo, o comportamento e as palavras que o cliente emite representam uma série de “lealdades invisíveis” profundamente arreigadas. As mudanças nesta estrutura provocam alterações no comportamento, no pensamento e, por sua vez, nos sentimentos. Segundo os princípios sistémicos, uma mudança no cliente traz, de forma associada, uma mudança também na sua envolvente. Nos conceitos básicos deste trabalho terapêutico, Hellinger estabelece uma distinção entre a implicação sistémica, cuja origem costuma situar-se na geração anterior (se não for uma questão de implicação entre irmãos, que é algo que ocorre com muito menos frequência), e o movimento interrompido, que se baseia na biografia do individuo. No caso de uma implicação sistémica, Hellinger serve-se da constelação familiar com o objectivo de chegar a uma resolução. No caso do movimento interrompido, recomenda a utilização da terapia de contenção de Jirina Prekop.

 

 

In Ursula Franke (2011). El Río Nunca Mira Atrás. Gulaab, Madrid

Traduzido do espanhol por Eva Jacinto

Imagem de Adolfo Serra

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A RELAÇÃO COM A MÃE

A RELAÇÃO COM A MÃE

Entrevista a Bert Hellinger realizada por Esther Lak em Novembro de 2005

Tradução do espanhol por Eva Jacinto

 

Como podemos ser felizes ou encaminharmo-nos para a felicidade?

A felicidade começa muito precocemente, começa com a mãe e é mantida na relação com ela. O caminho da felicidade interrompe-se quando perdemos o contacto com a mãe, também com o pai, é claro, mas este está em segundo lugar. Pode observar-se, às vezes faço-o quando estou a ver televisão: olhamos para os actores ou para os que estão a falar na televisão e então a minha mulher pergunta “que relação tem este com a mãe dele?”. Pode ver-se de imediato: os que estão em conexão com a mãe brilham, têm uma expressão de alegria e são amados pelos outros, isto nota-se facilmente. Quando alguém vem dizer que não se sente feliz, eu pergunto-lhe sobre a sua mãe, pelo relacionamento que tem com ela. Tenho no meu coração a mãe desta pessoa, imediatamente presente com respeito, e como eu a respeito, posso levá-lo até ela e em breve começa também a irradiar, a brilhar. Este é um caminho para a felicidade.

A relação com a mãe é reparável? Para muitos ela é uma relação de conflito.

Os conflitos são necessários. Muitas relações com a mãe estão bloqueadas porque temos ~expetativas em relação a essa pessoa que vão para além do que se pode esperar de um ser humano. Se os pais fossem perfeitos, se a mãe fosse a ideal, não seríamos capazes de viver, não teríamos a força para viver. Somos capazes de viver porque os nossos pais têm falhas. Isso é o que nos introduz na verdadeira vida, ou seja, amamos os nossos pais assim como eles são, exactamente como eles são, e assim tornamo-nos felizes.

Estava a pensar se tudo o que recebemos dos nossos pais, as coisas que nos ferem, por exemplo, se tudo é perdoável?

Um filho que perdoa está ao mesmo tempo a acusar os pais. Está a colocar-se acima deles e assim perde-os, bem como ao seu destino e à sua felicidade. Se posso admitir tudo o que acontece, dizer-lhe sim, o sucedido converte-se numa força; quando o rejeito ou o perdoo, fico frágil, coloco-me acima e ao mesmo tempo permaneço pequeno.

Então a aceitação não significa colocar-se por debaixo numa situação?

Não é o mesmo que aceitar, estou a dizer-lhe sim, quando aceito sou passivo, quando digo sim sou activo e ao dizer que sim algo se transforma, enquanto que ao aceitar nada se transforma. Esta é uma diferença muito importante.

Se existisse em mim um brilho, pelo tipo de relacionamento que tenho com a minha mãe, o que aconteceria com a minha mãe em relação a mim?

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