O Verdadeiro Modo de Ajudar

O verdadeiro modo de ajudar alguém não é ajudando-o a fazer algo, mas ajudá-lo a dar-se mais conta da sua própria experiência – dos seus sentimentos, acções e fantasias – e insistindo para que explore a sua própria experiência mais profundamente e se torne responsável por ela, seja ela qual for.

Frequentemente isto significa assinalar o modo como a pessoa ilude a sua experiência e frustrar este iludir. Se uma pessoa está triste, deve explorar a tristeza e vivenciá-la mais profundamente antes de poder assimilá-la e desenvolvê-la. Se uma pessoa se sente zangada, deve sentir e expressar realmente a sua zanga antes de poder admiti-la na sua vida. A única saída é ir através de.

John O. Stevens (2003). El Darse Cuenta: sentir, imaginar y vivenciar. Editorial Cuatro Ventos
Tradução do castelhano por Eva Jacinto

A INTEGRIDADE DO SISTEMA SENTIDA NO CORPO

restauro de um excluído

A Integridade do Sistema
Por Bert Hellinger

Os membros de uma família ampliada vêem-se como um todo e sentem-se completos quando todos os que pertencem ao círculo familiar têm um lugar de honra nos seus corações. Pessoas que só se ocupam de si mesmas e da sua própria felicidade não sentem essa plenitude. Sempre que um membro da família consegue restaurar no seu coração um membro excluído, a diferença é prontamente sentida. As imagens internas da família e do eu ficam mais completas e a pessoa sente-se de facto mais integrada.


O namorado da mãe
Todos os representantes relataram inquietude e irritação quando uma mulher montou a constelação da sua família. Então, o primeiro namorado da mãe, falecido muito jovem, foi acrescentado, bem como a primeira mulher do seu pai, a quem ele abandonara quando iniciou a relação com a mãe desta mulher. Depois da inclusão dessas duas pessoas, os representantes imediatamente se acalmaram. Quando tomou o seu lugar na constelação, a mulher descreveu uma sensação de “abertura” no peito e um profundo sentimento de “correcção”. Nos dias seguintes, comunicou uma mudança na experiência de si mesma, como se tivesse crescido e alcançado a paz.

Essa sensação de “abertura” no corpo é típica das pessoas que estão a restaurar um membro excluído do círculo familiar. O nosso senso do eu muda quando o excluído é trazido de volta à consciência. Os sistemas são totalidades e as pessoas num sistema de relacionamentos sentem-se integradas quando o sistema inteiro está nelas representado.

O texto foi adaptado da tradução brasileira.
Bert Hellinger, Gunthard Weber e Hunther Beaumont (2012). “A Simetria Oculta do Amor”. Editora Cultrix, São Paulo.

Escuta em Quietude

Por Mike Boxhall

As pessoas precisam de ser escutadas. Não necessitam de ser julgadas nem que se lhes diga como devem ser. Simplesmente têm de ser escutadas na sua dor, confusão e medo. Ser escutado é ser curado e ser escutado profundamente é ser curado profundamente. Não sei onde ouvi isto pela primeira vez, mas tenho a experiência de que isto é verdade.

Ser escutado em quietude é como olhar para um espelho limpo; aquilo que se mostra é o que há. O próprio espelho não faz qualquer comentário sábio, não tem conselhos para dar, somente reflecte. Se eu conseguir ver o que realmente é, de forma simples e nua, sei então o que tenho que fazer. Nesse momento estou aquietado e, na minha quietude, estou presente. E quando estou presente já não me sinto debilitado por todo aquela pilha de reacções que sou eu na maior parte do tempo: estou, pelo menos temporariamente, desperto. Desperto, posso ser proactivo e útil; reencarno-me da minha debilidade.

Simon Prades

(…) Tudo isto carece de intencionalidade, é simples, normal, sem complicações. A minha maneira de viver na maior parte do tempo, em identificação com os meus hábitos e padrões, é o patológico. Digamos que é um estado de sofrimento ou de insatisfação.

O caminho, possivelmente o único caminho em direcção ao núcleo mais interno, é através da quietude, pois qualquer participação ou juízo deterá a revelação. O intelecto analisa, essa é a sua função, mas, e por definição, a análise é uma redução daquilo que pode ser compreendido, é parar o fluxo.

Michael Boxhall (2012). La Silla Vacía: la Enseñanza, no el Maestro. Ediciones El Grano de Mostaza S.L.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto
Ilustração de Simon Prades

O PENSAMENTO SISTÉMICO FENOMENOLÓGICO

Sobre o Pensamento Sistémico Fenomenológico, por Marianne Franke-Gricksch

Durante o decurso da sua trajectória como psicoterapeuta, Bert Hellinger colocava ainda mais ênfase que os seus predecessores (V. Satir, M. Selvini, I. Böszörményi-Nagy) ao assinalar que, num nível subconsciente profundo, participamos da trama familiar e do seu destino colectivo. Assim, as relações com os nossos pais, irmãos, avós, tias e tios, podem desencadear forças-efeito. No âmbito das constelações familiares, Hellinger consegue desvelar que fazemos parte de uma grande alma que compreende todos os membros da família.

Alexandra Duprez

Sentimos quanto amamos os nossos pais, servimos as nossas famílias e, na nossa vida, tentamos com frequência e involuntariamente compensar a culpa ou a aflição de pais ou parentes de gerações anteriores. Estamos inclusivamente dispostos a ocupar o lugar de familiares falecidos trágica ou precocemente, a saldar perdas graves ou actos de pais ou parentes. Deste modo, as pessoas não vivem uma vida auto-determinada, antes sentindo-se estranhas a si próprias; mas mais ainda, algumas pessoas sentem-se impelidas para uma morte prematura.

Mediante a constelação familiar, Hellinger demonstra que existe uma ordem essencial, dentro da qual todos os membros da família se sentem cómodos e indica caminhos para que encontremos essa ordem, como para que encontremos um lugar adequado para nós no seio da nossa família. Antes de mais, aqui trata-se de respeitar o destino dos outros membros da família, especialmente o dos pais e irmãos. Por outro lado, mostram-se também as vias para recuperar o luto deslocado, que com frequência continua a afectar as pessoas, mesmo várias gerações depois. Os destinos implicados de vários membros da família, as vezes já falecidos, ficam expostos e podem ser resolvidos através do respeito em relação a essas pessoas. O respeito e o amor familiar não são um sentimento, mas uma postura baseada em princípios que, na maioria dos casos, não é consciente. É frequente, então, que as nossas opiniões e pareceres acerca de questões familiares difiram claramente das nossas acções, que estão sustentadas na força desta posição não consciente. Em todas as suas recomendações de possíveis e necessárias mudanças de posição relativamente a pais, irmãos e parentes, Hellinger reitera sempre que a nossa inclusão na grande alma é uma sina e que estamos sujeitos ao nosso destino (familiar).

Bert Hellinger qualifica este procedimento como “sistémico fenomenológico”, em contraposição com o enfoque “sistémico construtivista”, que tratarei exaustivamente mais adiante.

Para configurar uma constelação familiar, elegem-se representantes que compõem imagens familiares. Abre-se então um campo, no qual os participantes experimentam os sentimentos e a situação das pessoas a quem representam. Pode dizer-se, então, que o campo emergente de uma família é um fenómeno que condiciona os sentimentos e a situação dos membros Individuais de tal família. Se se modificam as posições de um cliente dentro da constelação familiar, o campo pode reordenar-se e esta intervenção poderia ser percebida como sanadora.

Diferentemente do enfoque de Bert Hellinger, os procedimentos das escolas sistémico-construtivistas perseguem o objectivo de reconfigurar a realidade. No quadro de um processo democrático, a pessoa emancipa-se da sua família e transforma-se em individuo. Consegui aplicar este conceito como ponto de partida para desenvolver um trabalho rico e criativo. Contudo, quando seguia o trabalho de Bert Hellinger, as crianças experimentavam conhecimentos e transformações fundamentais, num plano diferente e mais profundo. O reconhecimento das ordens do amor, o respeito pelo destino, a submissão perante o incompreensível e inevitável, o luto recuperado, tudo isso lhes deu uma nova segurança, conseguiram extrair ideias da hipnoterapia e da orientação sistémico-construtivista da terapia familiar para prosseguirem o desenvolvimento criativo.

Marianne Franke-Gricksch (2006). “Eres Uno de Nosotros. Miradas e Soluciones Sistémicas para Docentes, Alumnos y Padres“. Editorial Alma Lepik, Buenos Aires. 
Traduzido do castelhano por Eva Jacinto 
Desenho de Alexandra Duprez, 2010