A consciência

Aquilo que normalmente se define como consciência é um sentido interno, semelhante ao nosso sentido de equilíbrio. Esse sentido ajuda-nos a perceber como nos devemos comportar dentro de um determinado grupo, de modo a conseguirmos fazer parte desse grupo, e também o que devemos evitar fazer para não perdermos a ligação ao grupo.

As condições para termos o direito de pertença diferem de grupo para grupo. Numa família de ladrões teremos de fazer algo de diferente daquilo que se faz para fazer parte da família de um pastor. Quer numa quer noutra destas famílias, as crianças têm a consciência tranquila ou se sentem a consciência pesada por comportamentos completamente distintos.

Wassily Kandinsky: Accent on rose, 1926

Wassily Kandinsky: Accent on rose, 1926

Assim, para muitos a moral significa: aquilo que na nossa família é válido; e imoral significa: aquilo que não é válido para a nossa família. Ou seja, os conteúdos são sempre determinados pelo sistema.

O curioso é que, a partir do sentimento de boa consciência, sentimo-nos autorizados a prejudicar os que são diferentes de nós. Quando alguém se justifica invocando a sua consciência, na maioria dos casos pretende ferir outra pessoa. Se sou bom e quero algo de bom, não preciso de me justificar através da minha consciência. Isso é estranho.

Por isso, aquilo que realmente é bom, é algo que se encontra para além da consciência, e para se fazer aquilo que é realmente bom, é necessária a coragem de ir mais além da consciência. Aquilo que é realmente bom significa que é bom para muitas pessoas e ainda que reconhece como sendo válidas as diferenças de outros grupos, de outros sistemas, ou de outras religiões.

Mas existe também uma instância superior, que actua para além da consciência que acabo de descrever. Ela funciona quando estamos em sintonia com algo maior. Às vezes sentimos a actuação dessa instância numa constelação, quando de repente todos os participantes ficam em paz, como que em concordância com algo maior. Ou quando uma pessoa percebe que está a ser atraído para algo ao qual não se pode subtrair; se lhe resistisse, na sua alma algo se quebraria. O que aqui actua é também uma consciência; uma consciência superior. Ele está muito perto do ser, muito próxima do essencial.

 

Bert Hellinger

In Religión, Psicoterapia, Cura de almas. Herder Editorial S. L., Barcelona

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

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