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CORPO, VÍNCULO E PERCEPÇÃO REPRESENTATIVA

Por Ursula Franke*

No contexto da nossa socialização aprendemos que tudo aquilo que acontece dentro do nosso corpo e da nossa psique deve ser atribuído ao nosso “Eu” e, consequentemente, somos disso responsáveis. Aprendemos que os nossos sentimentos, actos e pensamentos surgem de nós e é em nós também que eles ganham sentido. Contudo, o pensamento em acção nos contextos sistémicos e as experiências que fazemos no decurso das constelações sugerem que só parcialmente isso é verdade.

Nesse sentido, o trabalho de Bert Hellinger revolucionou o conceito de indivíduo. Os “vínculos invisíveis” de uma família ou de um sistema tornam-se visíveis através de uma constelação. Os representantes e os pacientes experimentam fisicamente o modo como o indivíduo está inserido no seu contexto e como a presença e a proximidade de um elemento actua sobre cada um dos outros elementos que estão dentro do sistema. Se, por exemplo, numa constelação a filha está parada em frente ao pai, experimenta um estado físico e psíquico que é possível de ser descrito com precisão, o qual se altera por apenas se incorporar outra pessoa, por exemplo a mãe ou o pai do pai.

Podemos imaginar que o nosso corpo absorve as informações da área circundante como uma caixa de ressonância, tal como um instrumento musical ou um recipiente que vibra com os sons que o envolvem. Vistas as coisas desta maneira, podemos entender que estamos em condições de participar dos sentimentos e também dos estados físicos dos outros e experimentar e perceber dentro de nós, especialmente no nosso corpo, estas qualidades do outro. Isto, por sua vez, significa que possivelmente os sentimentos e os estados físicos que experimentamos nem sempre surgem de nós próprios, nem são, por conseguinte, nossos, mas antes sentimentos e percepções “alheias”, que ressoam em nós e cremos serem nossas porque as experimentamos no nosso corpo e mente.

Rupert Sheldrake retomou a antiga ideia de um todo envolvente, avançou no seu desenvolvimento e fez dela o centro das suas investigações. O autor descreve os princípios básicos do campo mórfico que reflectem os princípios de Tales de Mileto sobre a alma e os mundos e as reflexões de Carl Gustav Jung sobre o inconsciente colectivo. Toda a estrutura, seja uma organização, um organismo ou um sistema, vive num campo mórfico que actua como uma memória na qual estão armazenadas todas as informações importantes do sistema. Por conseguinte, cada elemento como parte do conjunto está em ressonância com o todo. Cada parte desta estrutura, quer dizer cada membro deste sistema ou cada individuo numa organização, participam do conhecimento do todo e de todos os acontecimentos relevantes. Aqui a memória não é considerada uma função ou um mérito pessoal do nosso cérebro, mas um “campo mnésico” do qual estamos permanentemente rodeados, semelhante a um receptor de rádio que está rodeado de ondas rádio.

A ideia de um campo mórfico ou campo morfogenético serve como modelo para entender melhor o que acontece nas constelações. Um modelo é útil e conveniente desde que os seus efeitos se cumpram quando o submetemos a verificação. Precisamente naquelas áreas em que não conseguimos obter segurança acerca da “verdade” são úteis os modelos ou hipóteses para a explicação, compreensão e superação dos acontecimentos.

Podemos observar o fenómeno de uma percepção sem que a informação haja sido comunicada em diferentes contextos terapêuticos:

– no paciente, o qual tem acesso às informações sobre acontecimentos e pessoas de várias gerações do seu sistrema, ainda que na sua geração seja demasiado jovem para saber dessas pessoas ou que família tenha mantido segredos.

– no terapeuta, que durante as descrições do paciente recebe corporalmente, e pelas suas próprias imagens internas, informações sobre o paciente e sobre o seu sistema, o que a posteriori se evidencia como correcto, ainda que o paciente verbalmente não tenha comunicado nada a esse respeito.

– durante a constelação, quando os representantes fazem as suas experiências corporais, definem os seus pensamentos com respeito às relações e factos e desenvolvem ideias acertadas relativamente ao paciente e à sua família, tal como se os representantes tivessem acesso ao campo cognitivo e mórfico do paciente.

No quadro deste modelo, podemos imaginar que o campo do paciente gera em nós, terapeutas, a contra-transferência. Junto ao paciente vivemos novamente o seu drama interno, quando percorremos com ele a sua história como se fosse uma paisagem. Tudo o que ele sente, podemos senti-lo com ele, as forças que percebe ao seu redor percebemo-las nós também e, além disso, podemos ver e sentir as qualidades das pessoas que lhe estão próximas.

Em princípio, estas percepções também são possíveis fora do encontro terapêutico, contudo, em determinadas circunstâncias, a capacidade do observador parece aumentar, assim como também a intensidade das percepções parece incrementar. Quando todo o grupo observa e foca concentradamente um tema, como numa constelação, parece activar-se o campo, adquirindo cada vez mais estruturação. Dado que o campo nos serve de caixa de ressonância e se constitui como um portador preciso de informação acerca do mundo, podemos melhorar a nossa capacidade de percepção gerando e conservando o rendimento deste meio.

 

* Ursula Franke (2005). Cuando Cierro los Ojos te Puedo Ver. Constelaciones familiares en la consulta individual. Editorial Alma Lepik, Buenos Aires

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho: Alexandra Duprez, “Hommes branches”, 2011