LOGRAR A PAZ

 

Muitas pessoas que lutam pela paz querem mudar os outros. Querem que os outros sejam como eles próprios. E isto, claro, é contrário a toda a paz verdadeira.

A paz estabelece-se se reconhecemos as diferenças e se amamos as diferenças e se estamos abertos para integrar em nós próprios o que os outros têm para oferecer. Outras famílias, outras nações, outras religiões, outras culturas.

E se reconhecermos que ambos têm direitos iguais e de valor igual, então podemos chegar a um acordo que permita a ambos os lados manter os seus valores peculiares, salvaguardando os seus valores e o seu território também. Então pode haver acordo.

Qual é o maior obstáculo à paz? – É o recordar.

Evocação (1944), de  Nadir Afonso

Evocação (1944), de Nadir Afonso

Recordar o que sucedeu aos nossos antepassados. E nessa altura tomamos para nós a tarefa de fazer justiça por eles, embora eles estejam mortos há já muito tempo e por certo nem o querem. Mas os vivos encontram uma justificação a partir daquilo que sucedeu aos seus antepassados para se tornarem assassinos. E por meio do recordar começam novas guerras e fazem novas injustiças, os assassinatos continuam e a paz fica cada vez mais distante.

Outro obstáctulo à paz é que um grupo pense que é melhor que o outro grupo. Na realidade todos os grupos pensam assim, todas as famílias pensam assim. E como pode isso ser? Porque são governados pela sua consciência e a principal função da consciência é a de ligar-nos à nossa família e aos valores da nossa família e, no mesmo movimento, através da nossa consciência excluímos os outros e pensamos que eles não são tão bons como nós.

Assim, a paz só se consegue alcançar se estivermos dispostos a ir além dos limites das nossas consciências e, através disso, deixarmos para trás a diferenciação entre boas e más pessoas. E a essas distinções, que são a base dos conflitos. Por detrás da consciência está a alma; se permitirmos à alma mover-se e dirigir-nos, esse é um movimento para a reconciliação. (…)

Na vida do quotidiano, se pessoas de partidos opostos se encontram, ambos tendo o desejo de estabelecer a paz entre eles, têm de superar esta diferenciação e respeitar os outros como iguais. Adicionalmente devem olhar para as vítimas e para os agressores do seu próprio grupo e do outro grupo e, olhando para eles, fazer o luto por todos eles. Este luto em comum permite-nos deixar o passado para trás e trabalhar juntos, em comum, por um melhor futuro em paz.

 

Bert Hellinger

In As dimensões da Paz, Congresso Internacional em Oaxaca, México, Novembro de 2003

(Documento em vídeo. Tradução do inglês por Eva Jacinto)

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