Mensagem para o Ano Novo

Satisfeito

Por Bert Hellinger In Pensamientos de Realización *

 

Satisfeito significa: estou em paz com o que tenho; estou em paz com o que me acontece; estou em paz com o que sou e como sou.

Satisfeito significa também: estou em paz com os outros, tal como eles são; estou em paz com o meio que me rodeia e em paz com o mundo tal como ele é. Mas principalmente estou em paz com a vida tal como ela me foi dada e em paz com o que ela me exige. E estou em paz com o que virá a trazer-me.

Assim satisfeito, encontro-me recolhido, recolhido em mim e recolhido em tudo tal qual como é. Assim satisfeito, estou na minha força e tenho força para estar em paz com tudo.

Satisfeito tenho poucas exigências. Porque haveria de as ter se tenho tudo? Só preciso de o ver e desfrutar. Que mais quero? Satisfeito tenho poucas expectativas em relação aos outros, apenas as tenho em relação àquilo que serve ao diálogo quotidiano e à felicidade do quotidiano.

Por isso os outros sentem-se seguros comigo, seguros com a sua própria felicidade e com aquilo que têm. Porque estou satisfeito, não necessito de lutar com ninguém. Por mim, pode ficar com o que tem e continuar a ser como é.

Em última análise, o que significa estar satisfeito? Amo a todos tal como são. Amo a criação tal como é. E amo-me tal como sou. Este amor está em consonância com a origem de tudo tal como é. Este amor é paz com Deus.

 

* Bert Hellinger In Pensamientos de Realización. Editorial Rigden Institut Gestalt.

Tradução do castelhano de Eva Jacinto

Imagem: Litografia “A Casa dos Espelhos”, Rogério Silva (2010)

 

PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

PSICOTERAPIA E ESPIRITUALIDADE

Por Joan Garriga *

 

As grandes questões existenciais concernem a alma. Ultimamente tenho vindo a dizer que, de forma resumida, qualquer problema que enfrentamos na terapia está relacionado com o facto de existir algo que não somos capazes de amar ou de integrar, não somos capazes de lhe dar um bom lugar no coração. E isso tem consequências: adoecemos, aparecem os sintomas, as más relações, os problemas, etc.. Dizemos não a algo ou a alguém e retraímos a nossa alma, em vez de expandi-la. Este algo pode ser algo da realidade e dos factos, como o amigo que ficou doente, o pai que morreu, etc.. A Buda, por exemplo, morreu-lhe a mãe no seu terceiro dia de vida. Pode-se dizer “isto não deveria ter sido assim” e deste modo não podemos amar nem apreciar esta parte da realidade. Às vezes não podemos amar ou apreciar algo de nós próprios e dizemos: “não, eu não deveria ter esta timidez” ou “não, eu não deveria ter medo” ou “devia ser mais simpático” ou “devia ser mais bem-sucedido” e então, no fundo, consideramos que há partes de nós que não merecem ser blossoming-odilon-redon-1910-14respeitadas e estamos em luta com elas, ou seja, dizemos “não” e estamos numa guerra interior com nós próprios. Às vezes dizemos “não” às pessoas, dizemos “o meu pai portou-se mal comigo” e fechamos-lhe o coração ou “a minha avó pôs chifres ao meu avô” e fecho-lhe o meu coração ou “aquele meu amigo devia tratar-me da maneira X”. E então estamos numa guerra interpessoal. Quando olhamos para o fim dos problemas que surgem na terapia podemos sempre rastrear e encontrar algo a que a pessoa não pode dizer “sim”, diz-lhe “não”. Então aquilo de que se trata é conseguir uma maneira de fazer poder integrar aquilo que se rejeita e de se estender naquilo que fecha. E nesse sentido creio que a espiritualidade e a psicoterapia apontam na mesma direcção, mas isto muitos psicoterapeutas negam e diriam que a psicoterapia não tem nada a ver com a espiritualidade; sem dúvida que existem muitas técnicas que fazem com que algumas pessoas resolvam problemas e mudem e que pouco têm a ver com a espiritualidade. Embora, e na verdade se as analisarmos com precisão, vemos que no fundo quase sempre conduzem a uma maior assunção de responsabilidade das pessoas sobre a sua própria realidade. A terapia pode manipular o ego para afastá-lo daquilo que ele tem que enfrentar, mas trata-se de soluções passageiras e calmantes que duram apenas um tempo. A grande mudança, a que dura, muda algo de essencial na nossa atitude. Integra em vez de destruir, une em vez de separar, acolhe em vez de amputar. Diz “sim”.

 

Joan Garriga In Sobre la Terapia y la Espiritualidad. Revista Conciencia Sin Fronteras, nº 34. Diálogo entre Joan Garriga y Julián Peragón.

Tradução do castelhano por Eva Jacinto

Pintura: Desabrochar, de Odilon Redon, 1910-14

Renovação

Tu tens um medo:

Naniôra – Uma e Duas, Mário Cesariny, 1960

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia.

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles