Uma separação não destrói a família

Excerto de entrevista a Marianne Franke-Gricksch. Traduzido do espanhol por Eva Jacinto.

Pergunta: Os filhos de pais separados encontram-se frequentemente num terreno carregado de tensão. A Marianne sugere uma “cultura de separação” na qual, por exemplo, os pais separados de crianças em idade escolar se reúnam três ou quatro vezes por ano para conjuntamente tomarem decisões sobre os seus filhos. O efeito que isso tem nas crianças é o de elas se sentirem melhor cuidadas. Como se explica sistemicamente esta subtil diferença na tomada de decisões?

Marianne Franke-Gricksch: Se os pais conseguirem superar a sua decepção devida a um relacionamento que não funcionou, ficarão livres para agir como pais dos seus filhos e não tentarão pôr os filhos do seu lado. As crianças percebem as duas raízes e desejam amar os dois pais sem “ofender” nenhuma das duas partes. Uma separação não destrói a família. Aquilo que é prejudicial para as crianças é o crescendo das ofensas. Em algumas constelações, tenho aconselhado as crianças a imaginar na sua fantasia imagens curativas, como por exemplo o pai e a mãe a passarem tempo juntos novamente durante uma tarde, sem discutir. E isto ajudou muitas vezes.

Pergunta: A educação, sob uma perspectiva sistémica, admite que os pais tenham valores diferentes, o que os liberta e muitas vezes faz com que consigam, em relação à educação, encontrarem em conjunto um maior número de valores. Além disso, recomenda-se que a criança também se aproxime dos valores dos seus pais que já morreram, dizendo-lhe, por exemplo: “o teu pai teria permitido que tivesse um computador“. Por é que isto tem um efeito de alívio também para o progenitor vivo?

Marianne Franke-Gricksch: Quando as mães estão zangadas com o marido de quem se separaram ou divorciaram, a maioria das vezes inconscientemente separam os filhos do pai e com isso sofrem a dupla carga do trabalho educativo. E vice-versa, os pais muitas vezes percebem até que ponto eles também são menosprezados como pais e então esquivam-se das suas obrigações para com a criança. Muitas vezes observei na prática que as mães queriam afastar os filhos dos pais porque estes bebiam. Nestes casos, tratava-se de filhos adolescentes que teriam ficado mais bem amparados se contassem com a presença do pai. Consegui que a mãe voltasse a permitir contactos mais longos, incluindo estadias durante as férias, e o pai voltava a desempenhar um papel importante e diminuía significativamente o consumo de álcool. Foi este o efeito do avanço da confiança.

Excerto de entrevista a Marianne Franke-Gricksch:  Una nueva comprensión de las relaciones entre alumnado, profesorado y familias (2006). In Cuadernos de Pedagogía nº 360 Septiembre 2006. Traduzido do espanhol por Eva Jacinto.
Desenho de Minoura Kentaro