O PENSAMENTO SISTÉMICO FENOMENOLÓGICO

Sobre o Pensamento Sistémico Fenomenológico, por Marianne Franke-Gricksch

Durante o decurso da sua trajectória como psicoterapeuta, Bert Hellinger colocava ainda mais ênfase que os seus predecessores (V. Satir, M. Selvini, I. Böszörményi-Nagy) ao assinalar que, num nível subconsciente profundo, participamos da trama familiar e do seu destino colectivo. Assim, as relações com os nossos pais, irmãos, avós, tias e tios, podem desencadear forças-efeito. No âmbito das constelações familiares, Hellinger consegue desvelar que fazemos parte de uma grande alma que compreende todos os membros da família.

Alexandra Duprez

Sentimos quanto amamos os nossos pais, servimos as nossas famílias e, na nossa vida, tentamos com frequência e involuntariamente compensar a culpa ou a aflição de pais ou parentes de gerações anteriores. Estamos inclusivamente dispostos a ocupar o lugar de familiares falecidos trágica ou precocemente, a saldar perdas graves ou actos de pais ou parentes. Deste modo, as pessoas não vivem uma vida auto-determinada, antes sentindo-se estranhas a si próprias; mas mais ainda, algumas pessoas sentem-se impelidas para uma morte prematura.

Mediante a constelação familiar, Hellinger demonstra que existe uma ordem essencial, dentro da qual todos os membros da família se sentem cómodos e indica caminhos para que encontremos essa ordem, como para que encontremos um lugar adequado para nós no seio da nossa família. Antes de mais, aqui trata-se de respeitar o destino dos outros membros da família, especialmente o dos pais e irmãos. Por outro lado, mostram-se também as vias para recuperar o luto deslocado, que com frequência continua a afectar as pessoas, mesmo várias gerações depois. Os destinos implicados de vários membros da família, as vezes já falecidos, ficam expostos e podem ser resolvidos através do respeito em relação a essas pessoas. O respeito e o amor familiar não são um sentimento, mas uma postura baseada em princípios que, na maioria dos casos, não é consciente. É frequente, então, que as nossas opiniões e pareceres acerca de questões familiares difiram claramente das nossas acções, que estão sustentadas na força desta posição não consciente. Em todas as suas recomendações de possíveis e necessárias mudanças de posição relativamente a pais, irmãos e parentes, Hellinger reitera sempre que a nossa inclusão na grande alma é uma sina e que estamos sujeitos ao nosso destino (familiar).

Bert Hellinger qualifica este procedimento como “sistémico fenomenológico”, em contraposição com o enfoque “sistémico construtivista”, que tratarei exaustivamente mais adiante.

Para configurar uma constelação familiar, elegem-se representantes que compõem imagens familiares. Abre-se então um campo, no qual os participantes experimentam os sentimentos e a situação das pessoas a quem representam. Pode dizer-se, então, que o campo emergente de uma família é um fenómeno que condiciona os sentimentos e a situação dos membros Individuais de tal família. Se se modificam as posições de um cliente dentro da constelação familiar, o campo pode reordenar-se e esta intervenção poderia ser percebida como sanadora.

Diferentemente do enfoque de Bert Hellinger, os procedimentos das escolas sistémico-construtivistas perseguem o objectivo de reconfigurar a realidade. No quadro de um processo democrático, a pessoa emancipa-se da sua família e transforma-se em individuo. Consegui aplicar este conceito como ponto de partida para desenvolver um trabalho rico e criativo. Contudo, quando seguia o trabalho de Bert Hellinger, as crianças experimentavam conhecimentos e transformações fundamentais, num plano diferente e mais profundo. O reconhecimento das ordens do amor, o respeito pelo destino, a submissão perante o incompreensível e inevitável, o luto recuperado, tudo isso lhes deu uma nova segurança, conseguiram extrair ideias da hipnoterapia e da orientação sistémico-construtivista da terapia familiar para prosseguirem o desenvolvimento criativo.

Marianne Franke-Gricksch (2006). “Eres Uno de Nosotros. Miradas e Soluciones Sistémicas para Docentes, Alumnos y Padres“. Editorial Alma Lepik, Buenos Aires. 
Traduzido do castelhano por Eva Jacinto 
Desenho de Alexandra Duprez, 2010

Livro de Marianne Franke-Gricksch

Bert Hellinger fala sobre o livro de Marianne Franke-Gricksch

“Quando, há dois anos, Marianne Franke-Gricksch me fez chegar alguns relatórios sobre as suas experiências com crianças difíceis na escola, fiquei muito impressionado pela forma simples, carinhosa e curativa que a sua ajuda resultou para estas crianças e seus pais. Naquela ocasião disse-lhe: “Deves escrever um livro sobre isto!”. Agora apresentamos o seu livro e a impressão que tive naquela altura foi largamente superada.

Fuoco Dentro, de Elisa Talentino

Este é um livro especial, rico em experiências, próximo ao quotidiano, pleno de exemplos que deixam impressões que geram esperança e induzem à imitação. É ao mesmo tempo um guia destinado a pais e professores para resolver situações que parecem difíceis ou até sem saída.

O livro chega ao coração. A muitos dos que lhe derem uma vista de olhos talvez lhes suceda como a mim, que não conseguem desprender-se dele.
Agradeço a Marianne Franke-Gricksch ter escrito este livro.”

Bert Hellinger, Munich 2001.

Preâmbulo por Bert Hellinger ao livro de Marianne Franke-Gricksch “Eres Uno de Nosotros”. 2006, Editorial Alma Lepik, Buenos Aires.
Traduzido do castelhano por Eva Jacinto
Desenho: “Fuoco Dentro”, de Elisa Talentino

AUTONOMIA e LIBERDADE

Bert Hellinger entrevistado por Gabriele ten Hövel

Gabriele ten Hövel – O que o senhor diz é, e continuará a ser para muitos, um atrevimento. Afirma que a nossa percepção está condicionada pelos campos onde nos movemos, que estamos “ao serviço”, que os movimentos são controlados por poderes superiores e que nem sequer a nossa consciência moral é autónoma, mas que depende da família de origem e do grupo em que nos movemos. Onde ficam então a autonomia e a liberdade? Até que ponto estamos condicionados? Que margem de manobra temos? Estes são os pontos sempre em questão quando se discute a filosofia de Bert Hellinger. As pessoas contrapõem que a sua imagem do ser humano é fatalista e até totalitária. Elas consideram que hoje as pessoas têm todas as possibilidades para planear a própria vida de forma cooperativa e consciente e que os terapeutas existem para ajudar os clientes e eliminar o que entrava esse propósito. Que autonomia tem o sujeito no mundo moderno? Que contribuição presta a sua filosofia e o trabalho com as constelações familiares para essa autonomia?

Bert Hellinger – Do ponto de vista filosófico a ideia de autonomia é ridícula. Continuamente dependemos uns dos outros. Estamos marcados pelos nossos pais e pelo campo onde nos movemos. Os antepassados estão presentes, os mortos estão presentes, as nossas acções estão presentes, tudo está presente. E movemo-nos imersos em tudo isto. Se penso que decidi livremente as coisas da minha vida, torno-me pequeno. Pequeno e insignificante. Estou envolvido em todos esses grandes movimentos, na fila dos ancestrais, na família, e esse envolvimento é independente da minha livre vontade. Muito simplesmente encontro-me dentro disso e também eu movo algumas coisas. Em que medida posso atribuir isso a mim ou não, parece-me irrelevante.

Hellinger, B., Ten Hõvel, G. (2006). Un largo camino: diálogos sobre el destino, la reconciliación y la felicidad. Editora Alma Lepik.

Excerto traduzido do castelhano por Eva Jacinto.
Desenho de Alexandra Duprez

Para encontrar a solução, há que procurar o amor…

Para encontrar a solução, há que procurar o amor…

“O problema surge ali onde a pessoa ama. Por esse motivo, só posso compreendê-la, a ela e ao seu problema, depois de ter encontrado o ponto em que o seu amor se manifesta. Assim, a solução deve actuar com a mesma força que causa o problema. Significa que aproveita o mesmo amor que deu origem ao problema. Apenas se dá outra direcção a esse amor, uma direcção mais sã e mais feliz, para todos os que estão envolvidos na situação. Amostro à pessoa como ela pode amar melhor e que, na solução, o amor é mais radiante do que quando se retém o problema. Este é, assim, o único segredo da psicoterapia.


Bert Hellinger In “El Manantial no Necesita Preguntar por el Camino” (2007 ed. castelhano, p. 124.), Editorial Alma Lepik. Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Simon Vince