TOMAR OS PAIS SEM OS SEUS ENREDOS

Tomar os pais sem os seus enredos

Comentário de Hunter Beaumont *

 

(…)

Louise Bourgeois, “Self-portait”, 1990

Quando julgas os teus pais e dizes “tu não és digno de ser o meu pai ou a minha mãe”, encontras-te sob o risco de meramente trocares um emaranhamento por outro. De modo a realmente envolver-se no processo de crescimento espiritual, precisas de deixar os emaranhamentos da tua família, mas precisas de te conectar com a fonte da vida com a verdadeira natureza das coisas.

Se conseguirmos aprender a nos desenredarmos daquilo que nos magoa e a conectar com os nossos pais como fonte de vida, então teremos todos os recursos da vida disponíveis. Os nossos pais são a nossa conexão à fonte da vida. Então, o movimento de desenredo exige conectarmo-nos aos nossos pais como fonte de vida. É um movimento complexo, mas não conheço nenhum outro movimento que resolva o problema.

Estranhamente, e tal como aqui vemos com frequência, o movimento é bastante fácil de fazer nas constelações.

 

* In Bert Hellinger, Hunter Beaumont (1999). Touching Love, Volume 2. A Teaching Seminar with Bert Hellinger and Hunter Beaumont. Heidelberg: Carl Auer System Verlag.

Tradução do inglês por EJ

 

O FASCÍNIO PELO PAPEL DE VÍTIMA

 

O FASCÍNIO PELO PAPEL DE VÍTIMA

Por que razão é tao difícil abandonar o papel de vítima e, com isso, o sofrimento? Existem diversas abordagens para a sua explicação, todos os processos decorrem mais ou menos inconscientemente, uma vez que os limites são permeáveis.

  1. O sofrimento tornou-se um sentimento a que a pessoa está acostumada e através do qual a sua vida se organizou. Este hábito é tão rotineiro que ainda que a pessoa sofra, ela pode sentir-se bem com ele. Para pôr fim ao sofrimento, exige-se uma mudança de hábitos. Esta mudança pode conseguir-se através de decisões conscientes ou ocorrências do destino.
  2. Para muitas pessoas o sofrimento é a única possibilidade de se sentirem intensamente a si próprias: “sofro, por tanto sinto-me, logo existo”. O sofrimento converte-se na experiência mais intensa das suas vivências. Embora possa parecer contraditório, este paradoxo observa-se com frequência. Muitas vezes os pacientes queixam-se de uma sensação de vazio difícil de suportar depois de se ”terem despedido” do seu sofrimento.
  3. O sofrimento recompensa, como no clássico caso de quem se beneficia através da doença. Enquanto se sofre, recebe-se mais amor, cuidado e dedicação. Através da doença, por exemplo um enfarte do miocárdio, conseguir-se-á ser mais importante. Tudo gira em torno desse acontecimento.
  4. O sofrimento eleva o sofredor a uma melhor posição. Porque ele sofre, sente-se numa melhor posição relativamente aos seus semelhantes e daí surge a exigência, que é inconsciente na maioria dos casos. Uma vez que essa exigência é inadequada, não chega a conseguir cumprir-se, motivo pelo qual o papel de vítima e de sofredor se reforçam. Expressões tais como “ninguém me compreende” ou “estão todos contra mim” são convicções básicas dessas vítimas “crónicas”, que permanecem cativas no círculo vicioso do sofrimento. Especialmente no cristianismo, o sofrimento tem para os outros uma grande importância: o martírio é notoriamente uma boa premissa para a santificação.
  5. O sofrimento pode ser reconhecido socialmente e condicionar o sentimento de pertença a um grupo. A sociedade compadece-se superficialmente das “pobres mulheres abandonadas”, enquanto aos “homens abandonados” não se lhes reconhece socialmente o direito ao seu sofrimento. As “mulheres abandonadas” formam um grupo que se lamenta, afirma e motiva reciprocamente. Quando a mulher abandona o seu papel de vítima, deixa de pertencer a este grupo. Desta forma, e pese embora todos os aspectos de significação, também os grupos de auto-ajuda correm riscos. Frequentemente, a identidade do grupo ordena que somente se possa participar quando se sofre.
  6. O sofrimento caracteriza-se geralmente pela passividade, portanto, deixar a posição passiva significa agir e passar do papel da vítima ao de sacrificador. Neste contexto positivo, ser sacrificador significa assumir uma responsabilidade e “entrar em acção”. Pude observar que os sofredores sentem uma forte inibição para colocar-se em acção, devido às implicações familiares procedentes de gerações anteriores (homicídio, desapropriação, etc.). Nestes casos, os sintomas são o fracasso e a falta de trabalho. Aferrar-se ao papel da vítima serve para “não chegar a ser assim, como os pais e os avós”.
  7. O sofrimento pode ser mal interpretado e, dessa forma, restabelecer a própria inocência. Por medo a reconhecer a autoria, a pessoa refugia-se no papel de vítima e volta a ser aparentemente inocente. Como exemplo queria aqui mencionar o papel de muitas pessoas durante o III Reich, que depois da guerra tornaram ao papel de vítimas e “nunca tinham ali estado”. O papel de vítima aqui é quase um fenómeno de massas e foi, durante muito tempo, socialmente aprovado. Esta “falta de reconhecimento” da própria culpa provoca novamente o sofrimento das gerações seguintes.
  8. Frequentemente, como compensação pela culpa “não reconhecida” dos sacrificadores em gerações anteriores, os membros da família subsequentes sentem-se responsáveis infundadamente. Estas implicações provocam uma persistência no papel de vítima. Por lealdade com as vítimas dos sacrificadores, sentem-se traidores quando abandonam esse papel. Assim que o amor pelo sacrificador ganhe espaço, poderá deixar-se com ele os factos que lhe correspondem, resolvendo-se dessa forma a compulsão para o sacrifício. Para os descendentes das vítimas vale a pena frisar que também eles permanecem no papel de vítima “por lealdade com os seus antepassados”. Os sintomas destes sofredores são similares, são formas graves de doença e depressão.

 

Ilse Kutschera e Christine Schäffler In “Enfermedad que Sana. Sintomas Patológicos y Constelaciones Familiares”.  Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Desenho de Joanna Concejo

LIBERDADE PESSOAL

 

LIBERDADE PESSOAL E ESCOLHA

Por Stephan Hausner*

Tal como não tivemos escolha em relação aos nossos pais e em relação à história da família a que estamos ligados, também estamos sujeitos às forças da ordem da consciência colectiva desse sistema. No entanto, através da nossa atitude – aquela que adoptamos perante as pessoas que nos pertencem, perante as suas vidas e destinos -, temos alguma influência sobre a intensidade com que estamos presos e nos deixamos reter nos enredos familiares ou sobre o modo como podemos estar vinculados de uma maneira salutar e, dentro das nossas possibilidades, desvinculados e em maior medida independentes.

Não há dúvida de que cada pessoa recebeu algo dos seus pais e também sente que lhe falta alguma coisa por parte deles. Tudo depende daquilo a que pessoa se vincula. Se olha para o que recebeu, sente-se favorecida e por consequência tem algo para dar. Se fica na exigência e se liga àquilo que não pode receber, pode acontecer que se sinta enganada pela vida e pelos seus pais: as coisas correm-lhe mal, falta-lhe algo e por consequência, frequentemente, não está disposta ou não está em condições de dar. Com esta atitude, muitas pessoas tornam-se depressivas.

Ernesto Shikhani 1993 sem titulo

Ernesto Shikhani ,1993.

Estar em sintonia com os pais significa tomar o que se recebeu e renunciar àquilo que não se pode ter. Esta é uma renúncia verdadeira, uma vez que ninguém pode substituir os pais. O pai não pode substituir a mãe, a mãe não pode substituir o pai, os pais adoptivos ou substitutos (tutores) não podem substituir os pais biológicos e nem os cônjuges podem preencher essas necessidades. Muitas crianças sofrem sob a projecção inconsciente dos seus pais, forçadas a representá-los (parentificação).

(…) Segundo as minhas observações através do trabalho de constelações com doentes, muitos pacientes, inconscientemente, estão presos na sua doença ou sintomatologia por uma ânsia infantil e retêm-na por uma profunda necessidade de pertença. Vivem e sofrem com a esperança de alcançar maior proximidade e afecto dos seus pais, mais do que aquilo que os pais lhes podem dar.

Assim, parte do processo de cura seria renunciar a esse desejo de proximidade com os pais e, através da sintonia com eles e a auto-responsabilização, poder crescer em direcção à autonomia adulta.

A esperança do paciente de que se cumpram esses desejos infantis poderia ser considerada como um ganho inconsciente que a doença proporciona num sentido mais amplo.

 

* Stephan Hausner (2010). Aunque me Cueste la Vida. Constelaciones Sistémicas en Casos de Enfermedades y Síntomas Crónicos. Alma Lepik Editorial.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

SEPARAÇÃO

Separação e afastamento

Por Bertold Ulsamer

 

O amor muitas vezes corre mal, as relações terminam. Parceiros partem, novos parceiros se juntam. Como podemos lidar com isto de uma forma resoluta?

Normalmente o fim chega sem que ninguém tenha de se sentir culpado. A relação terminou porque cada pessoa está emaranhada no seu próprio enredo, ou porque alguém toma um rumo diferente ou está a ser conduzido para um caminho diferente. Contudo, assim que começo a sentir culpa, tenho a crença e a ilusão de que eu ou a outra pessoa poderíamos fazer alguma coisa; que o outro ou eu próprio só teríamos de nos comportar de uma forma diferente e com isso tudo poderia ser salvo. Nessa altura, a grandeza e a profundidade da situação é mal interpretada e a culpa e as acusações de um contra o outro vão ser investidas. A solução está em que ambos se submetam à sua tristeza, à sua dor profunda, à tristeza e pesar pelo facto de a relação ter chegado ao fim…

Quando uma separação ocorre, a raiva frequentemente serve de substituto para a dor e tristeza.

Aurelia FrontyOs parceiros anteriores continuam a fazer parte do sistema. Nas colocações dos sistemas actuais, estes parceiros continuam a ser colocados. Por vezes existem tensões que ainda não foram resolvidas. Nesse caso, é importante que as coisas que ficaram por dizer sejam expressadas, por exemplo: “tenho pena” (“sinto muito”).

Quando os ex-companheiros recebem “um bom lugar”, eles podem tornar-se apoiantes e serem uma fonte de poder. “Um bom lugar” significa que eles estão a ser honrados e respeitados como ex-companheiros e predecessores. A melhor prova
disso são as relações de amizade que continuam a existir após a separação ou que começam a desenvolver-se de novo.

A supressão terá um impacto negativo no presente e no futuro da própria família. Se o ex-parceiro não é considerado como sendo parte do sistema, se a sua existência estiver, por exemplo, a ser negada, isso tem um efeito particularmente mau quando nascem crianças. A criança poderá representar o ex-parceiro. A família estará em desordem.

 

Traduzido do inglês por Eva Jacinto

Fonte: http://www.ulsamer.com/order_in_love.html

Ilustração: Aurelia Fronty