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BERT HELLINGER: O CENTRO VAZIO

Bert Hellinger

“Aquilo que é essencial não pode ser observado. As coisas essenciais encontram-se atrás das coisas que conseguimos observar.

E como alcançamos o conhecimento essencial?  Expomo-nos a uma situação sem o desejo de que ela seja diferente daquilo que é. Expomo-nos, por exemplo, a um cliente sem o desejo de que alguma coisa seja diferente daquilo que é.

E expomo-nos nós próprios a nós próprios sem o desejo de que devemos saber mais.

E desta forma tornamo-nos vazios. E então, de repente, aquilo que é essencial é visto.”

 

BERT HELLINGER In Primeiro seminário internacional “Las Ordenes de la Ayuda”, México 2004

Vídeo com tradução e legendas em português por Eva Jacinto (www.cf-evajacinto.pt)

 (toque na imagem para assistir)

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EPISTEMOLOGIA FENOMENOLÓGICA

Epistemologia científica e epistemologia fenomenológica

São dois os movimentos que levam à compreensão. Um estende-se para abarcar o desconhecido até possui-lo e poder dele dispor. Desta natureza é o esforço científico, e sabemos bem o muito que tem contribuído para mudar, tornar seguro e enriquecer o nosso mundo e a nossa vida.

O segundo movimento acontece quando, ainda durante o esforço de estender o nosso pensamento, nos detemos e, de algo concreto que poderíamos captar, dirigimos o olhar a um todo. Quer dizer, o olhar está disposto a assimilar a imensidão que se expõe diante ele. Entregamo-nos a este movimento, por exemplo, frente a uma paisagem, a uma tarefa ou a um problema e apercebemo-nos de como o nosso olhar se enche e se esvazia ao mesmo tempo. Apenas podemos expor-nos à plenitude e resistir ao seu impacto prescindindo dos detalhes. Para isso, detemo-nos no movimento que se lança, recuando um pouco até chegarmos aquele ponto vazio capaz de suportar a plenitude e a variedade imensa.

                                                                                                     Green emptyness – Wassily Kandinsky (1930).

Este movimento que se detém e depois se retira defino-o como fenomenológico. Ele conduz-nos a outras compreensões, diferentes daquelas a que nos conduz o movimento que se lança para o entendimento. Os dois, no entanto, são complementares, já que também no movimento que se estende para a compreensão científica, às vezes temos que parar e dirigir o olhar do estreito para o abrangente e do próximo para o distante. Por outro lado, também a compreensão alcançada através do procedimento fenomenológico exige a verificação no individual e no mais próximo.

O processo

No caminho da epistemologia fenomenológica, a pessoa expõe-se a uma grande variedade de fenómenos perante um determinado horizonte, sem os seleccionar ou valorizar. Então, este caminho de entendimento exige que a pessoa se esvazie, tanto em relação às ideias que até ao momento albergava, como em relação aos movimentos internos, seja ao nível emocional, intencional ou dos julgamentos. Aqui, a atenção está simultaneamente orientada e não orientada, centrada e vazia.

A atitude fenomenológica exige a disposição atenta para a acção, mas sem passar ao acto. Graças a esta tensão, a nossa capacidade e a nossa disposição para a percepção potenciam-se de forma extraordinária. Quem consegue sustentar esta tensão, depois de um tempo percebe como o muito que o seu horizonte abrange se vai formando em torno de um centro e, de repente, descobre um contexto, talvez uma ordem, uma verdade, ou o próximo passo que leva adiante. Esta compreensão vem de fora, por assim dizer, é vivida como um presente e, regra geral, é limitada.

Livre de intenções

A primeira premissa para a compreensão alcançada desta forma é uma atitude desinteressada. Quem retém intenções, aborda a realidade com conteúdos próprios, pretendendo talvez mudá-la de acordo com uma imagem preconcebida, ou influenciar e convencer os outros de acordo com esta imagem. Mas dessa forma age como se se encontrasse numa posição superior relativamente à realidade, como se ela fosse o objecto para o sujeito, e não ao contrário, ele o objecto da realidade. Aqui se põe em evidência a atitude de renúncia que nos obriga a desistir das nossas intenções, incluindo as nossas intenções boas. Para além de que a sensatez também nos exige essa renúncia, pois, e como nos mostra a experiência, aquilo que fazemos com boas intenções, até mesmo com a melhor das intenções, muitas vezes sai errado. A intenção não é um substituto para a compreensão.

Livre do medo

A segunda premissa para essa compreensão é uma atitude livre de medo. Coloca palas a si próprio aquele que tem medo do que a realidade lhe mostra. E aquele que sente medo do que as outras pessoas pensarão e farão se ele comunicar o que percebe, está a fechar-se perante qualquer compreensão ulterior. E quem, como terapeuta, tem medo de enfrentar a realidade de um cliente, por exemplo, o facto de que apenas um curto tempo de vida lhe resta, acaba incutindo medo ao outro, porque ele vê que o terapeuta não está à altura dessa realidade.

A concordância

Uma atitude livre de intenções e do medo permite a concordância com a realidade tal como ela é, também com o seu lado temível, violento e terrível. Portanto, o terapeuta está em concordância com a felicidade e a desdita, com a inocência e a culpa, com a saúde e a doença, com a vida e a morte. Justamente, a partir desta concordância ganha a compreensão e a força para enfrentar também a fatalidade e em concordância com esta realidade, por vezes, pode dar-lhe a volta.

A este respeito, contarei uma história:

Um discípulo dirigiu-se a um mestre: Diga-me o que é a liberdade!

Qual liberdade? Perguntou-lhe o mestre. A primeira liberdade é a necessidade. Assemelha-se ao cavalo que, relinchando, derruba o cavaleiro, mas depois sente-lhe a mão ainda mais forte. A segunda liberdade é o arrependimento. Assemelha-se ao timoneiro que fica no barco naufragado, em vez baixar o bote salva-vidas. A terceira liberdade é o entendimento. Ela vem depois da necessidade e depois do arrependimento. Assemelha-se à haste delgada que oscila com o vento e porque cede onde é débil, sustém-se.

O discípulo perguntou: E isso é tudo?

O mestre respondeu: Alguns pensam que são eles próprios que procuram a verdade da sua alma. Mas a Grande Alma pensa e busca através deles. Tal como a natureza, que pode permitir-se muitos erros, pois sem esforço substitui os jogadores errados por outros novos. Àquele que, contudo, deixa que seja ela a que pensa, as vezes concede-lhe alguma margem de manobra e tal como o rio leva o nadador que se entrega às suas águas, também ela o leva à margem, unindo as suas forças às dele.

Bert Hellinger. “La fuerza del centro vacío. La epistemología fenomenológica en Psicoterapia”.  16-02-2006, Boletín No. 4 de ECOS, Escuela de Constelaciones Sistémicas.

Tradução a partir do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Green emptyness, Wassily Kandinsky (1930).

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Fenomenologia e Experiência

hajime-namiki-wisteria

“A fenomenologia é ao mesmo tempo um método espiritual. Não num sentido religioso, mas no sentido filosófico. Exige limpeza e clarificação. Especialmente a clarificação do espírito. Na mística ocidental, João da Cruz chama a isto “noite obscura do espírito”. É a renúncia ao conhecimento e a qualquer tipo de segurança. Este processo de clarificação dura muito tempo. O terapeuta que se acerca ao trabalho com constelações também enfrenta este processo de clarificação. E quando o experiencia, já não pode planear e actuar. Entrega-se ao curso dos acontecimentos. Desta forma, e com o passar do tempo, alcança-se essa orientação. Quanto maior for o “retirar-se”, mais coisas irão acontecer. Ao retirar-me estou a dar o lugar àquilo que acontece no momento.

Este procedimento é muito desanimador e é o contrário da ciência. É empirismo extremo, a experiência pura com o que aparece. Ganha significado com o seu efeito. Por esta razão, é pura ciência da experiência. É pura observação. (…) Os terapeutas que queiram trilhar este caminho começam por baixo. Naturalmente, como qualquer vaca começa por ser uma vitela. Não há necessidade de ser perfeito, é preciso apenas começar e o próprio caminho guiar-nos-á. Então pode-se, pouco a pouco, permitir o perigoso e a confrontação.”

 

Bert Hellinger, citado por Ulsamer, B. (2013). El oficio de las constelaciones familiares. Introducción a la práctica de la terapia sistémica de Hellinger. Ediciones Obelisco.

 

Desenho: Hajime Namiki, Wisteria

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A AUTONOMIA DO ADULTO

Bert Hellinger entrevistado por Gabriele ten Hövel

“A autonomia e liberdade só são possíveis quando, sob outro aspecto, não somos autónomos, mas participantes – quando estamos ao serviço de algo e nisso consentimos.”

Bert_Hellinger

Gabriele ten Hövel – O que o senhor diz é, e continuará a ser para muitos, um atrevimento. Afirma que a nossa percepção está condicionada pelos campos onde nos movemos, que estamos “ao serviço”, que os movimentos são controlados por poderes superiores e que nem sequer a nossa consciência moral é autónoma, mas que depende da família de origem e do grupo em que nos movemos. Onde ficam então a autonomia e a liberdade? Até que ponto estamos condicionados? Que margem de manobra temos? Estes são os pontos sempre em questão quando se discute a filosofia de Bert Hellinger. As pessoas contrapõem que a sua imagem do ser humano é fatalista e até totalitária. Elas consideram que hoje as pessoas têm todas as possibilidades para planear a própria vida de forma cooperativa e consciente e que os terapeutas existem para ajudar os clientes e eliminar o que entrava esse propósito. Que autonomia tem o sujeito no mundo moderno? Que contribuição presta a sua filosofia e o trabalho com as constelações familiares para essa autonomia?

Bert Hellinger – Do ponto de vista filosófico a ideia de autonomia é ridícula. Continuamente dependemos uns dos outros. Estamos marcados pelos nossos pais e pelo campo onde nos movemos. Os antepassados estão presentes, os mortos estão presentes, as nossas acções estão presentes, tudo está presente. E movemo-nos imersos em tudo isto. Se penso que decidi livremente as coisas da minha vida, torno-me pequeno. Pequeno e insignificante. Estou envolvido em todos esses grandes movimentos, na fila dos ancestrais, na família, e esse envolvimento é independente da minha livre vontade. Muito simplesmente encontro-me dentro disso e também eu movo algumas coisas. Em que medida posso atribuir isso a mim ou não, parece-me irrelevante.

Gabriele ten HövelO conceito de sujeito tem duas faces: sujeição e autodeterminação. O senhor enfatiza o ponto de vista de estar dentro, imerso, ou seja, a ideia de sujeição e ridiculariza a autonomia. No entanto, todo o movimento terapêutico dos anos 70 apontava para essa liberdade individual. Certa vez Eric Berne formulou isso de forma exagerada: “se eu te amo, o que isso tem a ver contigo?”. Talvez que, como reacção a uma sociedade totalitária, aqui na Alemanha e nos últimos 40 anos, tenha havido uma acentuação excessiva da liberdade individual? Continuar a ler

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