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O BOM AMOR

Por Joan Garriga

Essam Marouf

No seio familiar há factos que magoam, debilitam, envergonham ou ferem e às vezes o sistema tenta proteger-se deles através do silêncio, relegando-os ao esquecimento, sem ter em conta que os silêncios têm consequências e obstam à força e à saúde do grupo, frequentemente comportando implicações e sacrifícios. 

É preciso integrar aquilo que magoou ou devastou, para que isso perca o seu poder e possa permanecer no passado. Todos vivemos não apenas na nossa individualidade, mas vinculados a redes – especialmente a familiar, ainda que existam outras – que nos influenciam e até nos governam, ainda que não as compreendamos. Nessas redes, o amor por si só não garante o bem-estar, o amor não é suficiente, ele necessita de ordem. O amor unido a essa ordem é aquilo que designamos por bom amor.

O bom amor reconhece-se porque nos conduz ao bem-estar, à vida, ao benefício e à realização. O bom amor pressupõe que já evoluímos emocionalmente no sentido de respeitar e assentir ao que já se passou, aos dons e às feridas dos que nos precederam, em vez de nos enredarmos nestas últimas, repetindo-as ou mostrando aos nossos antepassados uma fidelidade mal compreendida através da nossa infelicidade. Assim, pois, o bom amor permite-nos avançar um pouco, no sentido de mais vida, tanto em termos de bem-estar como de felicidade.

Um claro objectivo das constelações familiares é o de ordenar o amor, plasmá-lo numa boa geometria das relações humanas, que inclua todos sem excepção, igualmente dignos de respeito e de consideração, cada um no lugar vincular que lhe corresponde e nutrindo-se reciprocamente, de maneira que possam crescer em vez de sofrer. Esse é o bom amor que se estimula nas constelações familiares.

 

Joan Garriga (2020). Bailando Juntos. La cara oculta del amor en la pareja y en la familiaEdiciones Destino 

Tradução do castelhano de Eva Jacinto

Pintura de Essam Marouf (2015).

O que é a Auto-estima?

Por Joan Garriga

“A auto-estima é a capacidade de estar aí, momento a momento, aceitando tudo aquilo que nos visita, incluindo aquilo que gostaríamos que não nos visitasse. Gostaríamos que a raiva não nos visitasse, que a inveja não nos visitasse, ou os ciúmes e outras coisas e então também as excluiríamos.

Mas se as incluirmos, quando damos voz àquilo que às vezes dói – porque dar-lhe voz, presenciá-lo, colocá-lo no foco da atenção – significa amá-lo, significa incorporá-lo, significa que já não nos persegue. Perseguem-nos as coisas que tentamos afastar, mas aquelas às quais damos as boas-vindas são bem-vindas, ainda que sejam difíceis.

O bem-estar pleno é a capacidade de habitar em si mesmo, é a capacidade de habitar todos os espaços da nossa paisagem vincular e relacional

VÍDEO LEGENDADO EM PORTUGUÊS

Eu digo que na viagem da vida há erros que devem ser evitados e acertos que devem ser desenvolvidos.

Um dos erros é não dar à vida o que temos para dar. Outro erro é o de tentar dar à vida aquilo que não temos, parecer aquilo que não somos.

Eu estudei direito e no terceiro ano entrei em crise. Estava identificado com o personagem do advogado. Quantas pessoas estão montadas num personagem? Há que cultivar a autenticidade.

O outro pecado muito universal da inconsciência é o de não tomar momentos para estar em contacto consigo mesmo, reconhecer o corpo, as experiências, a meditação.

Quem vive numa máscara também tem medo, porque é como se fosse uma casa de cartão, ele evita perceber o que verdadeiramente o move.

 

Joan Garriga, 2019
Excerto da entrevista no Jornal Clarín

Texto integral AQUI

 

 

O TABU DA FELICIDADE

 

Por Joan Garriga

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade. Ainda que se deseje intensamente a felicidade, pode ser difícil permitir-se ser intencionalmente feliz, quando se sabe que outras pessoas na nossa família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e, por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”.

Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Edvard Munch, 1893

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí também vemos, com frequência, como os sucessores tratam de expiar culpas dos antecessores ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial, a vida, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente: “a este preço tão elevado não a quero e portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas assim, o que é que a mãe ganha? De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu, de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos.

Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

 

Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Edvard Munch, 1893