Pedagogia Sistémica: sobre a relação docentes – pais

Por Marianne Franke-Gricksch in Eres Uno de Nosotros. Miradas e Soluciones Sistémicas para Docentes, Alumnos y Padres” (2006) *

Como docentes, por vezes tendemos a lamentar o contexto de origem de um aluno, como se o mais importante fosse que essa criança tenha bons resultados escolares e não que ela seja leal à sua família de origem e se sinta nela integrada. Contudo, não nos corresponde realizar essa avaliação, que só conduz a uma relação tensa entre professor e aluno. Os pais ocuparão uma posição mais conciliadora quando um professor dá sinais, directa ou indirectamente, de “eu respeito o destino que se desenvolve na sua família. Não quero assinalar falhas nem oferecer ao seu filho melhores alternativas em relação à casa dos seus pais, mas somente indicar-lhe um caminho para que ele possa explorar o mundo fora da casa dos pais, sem ser-lhes infiel”. Deste modo, a criança está contida e livre de tensões entre as duas autoridades.

Criança, de Violeta Lopiz

Ao mesmo tempo enviamos aos pais o sinal de que “podem confiar-me com toda a tranquilidade o vosso filho na escola”. Como docentes, limitamo-nos, assim, à nossa missão de ensinar e de criar um campo social no espaço da turma.

O respeito frente às famílias de origem não somente apoia a autoridade dos pais, como também fortalece a autoridade do professor, o qual, com o seu trabalho na sala de aula, persegue sem dúvida metas e valores diferentes dos dos pais em suas casas. Os docentes demonstram aqui a sua força na condução; no estudo e na convivência, reclamam o cumprimento das regras que regem a aula e o respeito pela convivência social, assim como a consideração pelo destino de todos os companheiros.

A partir da minha experiência posso dizer que, mercê desta postura clara relativamente às questões de autoridade, consegue-se desactivar em muitas turmas, e especialmente em muitas casas dos pais, uma atmosfera violenta. Mais de um progenitor me confiou reservadamente que se sentia envergonhado por ter batido no seu filho e que tinha começado a modificar-se algo desde que sentia que eu (a professora) respeitava os lares das crianças.

Há muitas casas que são cépticas, hostis ou temerosas em relação a escola ou aos professores, de acordo com experiências que os progenitores carregam. Ocasionalmente chegam até a ajudar os seus filhos a defenderem-se, a não cooperarem de uma forma incondicional e apoiam-nos contra o docente.

A atitude do docente anteriormente descrita anula estas tendências, tal como mostrei nalguns exemplos. Tal atitude convida os pais a não projectarem as suas más experiências sobre os seus filhos, permitindo que eles ocupem posições novas.

* Marianne Franke-Gricksch (2006). “Eres Uno de Nosotros. Miradas e Soluciones Sistémicas para Docentes, Alumnos y Padres“. Editorial Alma Lepik, Buenos Aires.
Traduzido do castelhano por Eva Jacinto
Desenho: Criança, de Violeta Lopiz

INFELICIDADES A DESPRENDER

 

Infelicidades de que Devemos Desprender-nos para que Haja Liberdade. O Equilíbrio entre o Dar e o Receber

Por Joan Garriga

 

Poderíamos dizer que o principal tabu das pessoas é o tabu da felicidade e, ainda que num plano se a deseje intensamente, noutro plano é difícil permitir-se ser intencionalmente feliz quando se sabe que outras pessoas na família sofreram, foram infelizes ou que lhes tocou um destino particularmente difícil. Como disse Bert Hellinger “sofrer é fácil, actuar e desenvolver-se é difícil”.

Querubim Lapa. cabeça de Mulher Caracol

Nas famílias actuam vínculos profundos de solidariedade que nos remetem para as limitações dos nossos antepassados, dificultam a sua superação e não nos permitem ir mais além. E ainda que vejamos nas constelações, uma e outra vez, que aqueles que foram infelizes desejam que a sua infelicidade seja respeitada e tomada como um destino próprio, sem que outros nele se envolvam, vemos também, uma e outra vez, como os sucessores ultrapassam esse limite e,

por uma espécie de amor mágico, pretendem libertá-los da sua desgraça ao tornarem-se eles próprios desgraçados, numa espécie de compensação negativa que afirma “se eu me sacrificar, talvez para ti seja melhor”. Desta forma repetem-se destinos e acumulam-se sacrifícios, sendo o resultado final ainda mais infelicidade. Por exemplo, um filho que se apercebe que um dos seus pais adoece ou deseja morrer (talvez por seguir um antecessor ao qual se sente unido), ultrapassa o limite e diz internamente “eu adoeço no teu lugar” ou “eu morro no teu lugar” ou “sigo-te na desgraça ou na morte, etc.”.

Existe também na alma familiar uma instância profunda que procura restaurar o equilíbrio entre dar e receber e aí também vemos, com frequência, como os sucessores tratam de expiar culpas dos antecessores ao dar lugar àqueles que foram prejudicados e imitar o seu prejuízo. Como exemplo extremo, cito o de um filho cuja mãe morreu no parto. É um exemplo extremo porque a mãe dá o mais essencial, a vida, e ela mesma perde o mais essencial. E para o filho é difícil tomar a vida a este preço tão alto e, frequentemente, procura enfrentar este tão grande desnível através da compensação negativa, dizendo a si próprio internamente:” “a este preço tão elevado não a quero e portanto não a tomo plenamente e limito-me”. Mas assim, o que é que a mãe ganha? De novo actua este amor cego que não consegue ver claramente o desejo da mãe que morreu, de que o filho tome a sua vida plenamente e a desenvolva com felicidade e sucessos. Buda seria um exemplo de compensação positiva, pois faz grandes desenvolvimentos em memória da sua mãe que morreu três dias depois do seu nascimento, como consequência do parto.

Joan Garriga (2002). A Propósito de las Constelaciones Familiares en la Gestalt. Capítulo inserido no livro Gestalt de Vanguardia, de Claudio Naranjo. Editorial La LLave.

Traduzido do castelhano por Eva Jacinto

Imagem: Querubim Lapa | Placa de cerâmica: Cabeça de mulher-caracol | 1970 | Museu Nacional do Azulejo