OS REPRESENTANTES NA CONSTELAÇÃO

 

Estamos conectados de uma forma muito profunda com muitas pessoas. E aqueles que entram numa constelação como representantes, de certo modo deixam o seu sistema e entram noutro sistema, ou poderíamos também dizer que entram noutro campo. E nesse campo entram em ressonância com tudo o que pertence a esse campo particular. E é claro que a constelação é parte desse campo e portanto os membros dessa família são afectados por aquilo que aconteceu na constelação.


BERT HELLINGER (México, 2004)

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PERCEPÇÃO REPRESENTATIVA

 

Albrecht Mahr : A PERCEPÇÃO DENTRO DA CONSTELAÇÃO

 

“Deixem-me explicar com maior detalhe: o que é uma constelação familiar? Sem que tenha fornecido qualquer informação prévia, um cliente configura uma pessoa que se encontra no grupo para representar a sua mãe ou pai, um colega, o seu próprio coração, o soldado japonês que salvou a vida do seu pai, o seu país, a sua fé ou a velhota vestida de um modo estranho que lhe apareceu em sonhos na noite passada. Na prática qualquer elemento, qualquer ser ou qualquer processo com um impacto importante sobre a pessoa, sobre a sua família ou sobre o seu grupo, pode ser representado. O representante “sabe” na sua experiência corporal, pelas emoções, imagens e pensamentos que vão emergindo na sua mente, a condição interna da pessoa ou elemento representado – muitas vezes de uma forma surpreendentemente precisa e significativa.

Este processo é simples e embora possa ser, ocasionalmente, dramático, é tão natural como respirar. Chamámos a este processo “percepção representativa”. A percepção representativa não requer nenhum conhecimento profissional, nenhum treino especial, nem um estado intelectual, psicológico ou espiritual especialmente evoluído.  Não há especialistas em percepção representativa, no entanto, temos a possibilidade de nos familiarizar com esse modo de percepção, de forma que ele pode aparecer com uma certa facilidade e flexibilidade oferecendo-se, por assim dizer, com um sorriso delicado. As constelações relembram-nos o facto de que, sem qualquer esforço, podemos tornar-nos, uns para os outros, num instrumento de experiências de que, através dos meios convencionais de informação, nada sabemos. Tornamo-nos receptivos a um órgão sensorial especial que medeia a percepção representativa, do mesmo modo que o olho medeia a visão. Este órgão sensorial concentra uma rica variedade de funções, a fim de proporcionar o conhecimento participativo da condição e da experiência de outros seres humanos e praticamente de todas as coisas.

Em primeiro lugar, ele utiliza o “conhecimento do corpo” através das suas valiosas capacidades perceptivas; utiliza, além disso, os sentimentos e emoções e a nossa capacidade para a imaginação e fantasia; utiliza ainda os nossos processos mentais, em particular o pensamento. A percepção representativa é não-localizada, isto é, a sua acção não se limita à proximidade espacial das pessoas envolvidas: é independente da distância a que se está daqueles que são apercebidos. A percepção representativa é trans-temporal, ou seja, inclui eventos que ocorreram há muito tempo atrás e também potencialidades futuras.

Isto inclui as pessoas já falecidas, ou seja, parentes que conhecemos ou pessoas que nunca conhecemos ou de quem nunca ouvimos falar e que tiveram uma influência profunda para a sobrevivência e o bem-estar da nossa família e cuja vida e destino, ainda que tenha ocorrido há varias gerações atrás, foi crucial para que hoje estejamos aqui. A percepção representativa recorda-nos que, para além de nossa experiência linear do tempo, vivemos também num espaço atemporal ou num espaço de concomitância temporal total, com frequência desdobrando-se numa constelação familiar como uma qualidade de imediatismo indubitável, simples agora e puro estar.” 

 

Este excerto foi retirado de uma conferência dada pelo Dr. Albrecht Mahr no evento International Transpersonal Association Conference, que ocorreu em 13-18 de Junho de 2004, em Palm Springs, EUA.

Traduzido do inglês por Eva Jacinto

Ilustração de Adolfo Serra

 

OS CAMPOS DE CONHECIMENTO

 

OS CAMPOS DE CONHECIMENTO (CAMPOS COM MEMÓRIA)

B. Ulsamer

 

As constelações familiares utilizam algo completamente novo que até agora não havia sido percebido conscientemente por nenhuma outra disciplina terapêutica. Trata-se do fenómeno do “campo de conhecimento”. Este conceito foi introduzido por Albrecht Mahr. Sem a compreensão deste fenómeno é impossível entender e levar a cabo o trabalho com as constelações familiares.

Através do conceito de “campo de conhecimento” descreve-se o fenómeno pelo qual os representantes têm acesso ao conhecimento que têm as pessoas que eles representam. Percebem os sentimentos e as relações na constelação da família, tal qual como essas pessoas. Os representantes põem-se em contacto com um estrato ou verdade muito profundo das relações nesse sistema desconhecido. Este é um fenómeno que até ao momento ainda não foi esclarecido.

A pessoa que tenha realizado a constelação presta total atenção a tudo o que dizem os representantes. Poucas vezes se vê que estas informações sejam rejeitadas por serem falsas. Pelo contrário, produz-se assombro sobre a verdade contida nessas expressões, ainda quando o comportamento externo, quotidiano, da família seja distinto. Embora isto possa parecer incrível, durante as constelações observa-se que pessoas totalmente estranhas são um canal para a verdade do sistema correspondente.

Imaginem, estimados leitores, que estão num grupo que pretende realizar uma constelação familiar, um participante desconhecido até esse momento apresenta-se, elege-o a si como representante e posiciona-o num lugar na sala.

As suas pernas começam a tremer no momento em que você toma o lugar junto aos outros membros da família e se compenetra no seu papel. Sente-se atraído pela irmã situada à sua frente e rejeita o irmão que está ao seu lado. Uma tia esquecida e excluída colocar-se-á em frente a si. Repentinamente vêm-lhe as lágrimas aos olhos e sentirá amor por esta pessoa desconhecida.

Isto soa disparatado e é natural que de início nos sintamos cépticos sobre este fenómeno. Contradiz a lógica do salutar senso comum e as dúvidas são razoáveis. Naturalmente que a pessoa que duvida também experiencia reacções dos representantes e os fortes sentimentos que aparecem. Será a autoridade do terapeuta que provoca estas reacções? Uma vez, depois de uma demonstração deste trabalho, acusaram-me com ira de “pura manipulação”. Ou será talvez auto-sugestão e os representantes trazem os seus próprios sentimentos, das suas famílias, à constelação e assim tudo se confunde cada vez mais? Note-se, contudo, que aparecem reacções que pouco ou nada têm que ver com a família própria.

O nosso são senso comum e as nossas experiências passadas são os pontos de referência para avaliar o mundo que nos rodeia. As constelações familiares apresentam uma visão do mundo contrária àquela que até agora tem a maioria das pessoas. É notável que este fenómeno que aparece nas constelações seja mais fácil de aceitar por um leigo do que pelo psicólogo profissional. Todo o seu conhecimento impede-o de ver e comprovar todo o desconhecido até ao momento. (…)

A experiência pessoal é a melhor demonstração. Ainda que o primeiro papel como representante possa parecer difícil, a pessoa acostuma-se a este fenómeno em cada novo papel até que finalmente tudo se torna normal e óbvio. (…)

A energia do “campo de conhecimento” expressa-se em duas direcções. As constelações familiares são, em primeiro lugar, um inventário das energias subliminares existentes numa família. Isto demonstra-se pelo lugar em que alguém está situado, a distância que há entre ele e os outros membros da família e a direcção em que olha. Os representantes percebem e compartilham estas energias.

Ao mesmo tempo, o “campo de conhecimento” tem uma energia que trata de alcançar a cura. Os representantes percebem uma corrente que os atrai, umas vezes mais forte, outras mais débil. Este influxo está sempre presente e orienta-se para a solução. O terapeuta pode, assim, confiar nos representantes mais do que aquilo que se acreditava no início das constelações familiares. (…) Continuar a ler

Reticência

Reticência

 

(Depois de uma constelação para uma criança autista)

Participante: Quando antes ouvimos aqueles gritos, foi dito que esta era a saída do autismo. Será que isso significa que a criança poderia ficar boa?

Hellinger: Você tem de ouvir-me atentamente. Eu disse: “Esta é a irrupção do autismo”. Pudemos ver isso aqui. O que realmente aconteceu, eu não sei. Então, se alguém pergunta, tal como você o está a fazer agora, “será que isto vai ajudar realmente?”, o que é que acontece na sua alma? Você está em sintonia com o que está a acontecer ou a sua conexão interior foi interrompida?

Georgia O'Keeffe - Light Coming On The Plains III 1917

Georgia O’Keeffe. Light Coming On The Plains III, 1917.

Participante: Então, se eu estiver sempre assim, não estou em sintonia?

Hellinger: Exactamente. Mas a questão não o afecta apenas a si, afecta também o sistema do cliente. Tais perguntas curiosas interferem com o movimento da alma. Portanto, é necessária reticência, reticência completa. Sem dúvida que eu teria também prazer em saber se a criança estaria a ficar melhor. Eu tinha isso no meu coração. Contudo, não me atrevo a fazer algo parecido.

Sempre que queremos alcançar um fim específico, quer seja em psicoterapia, quer seja no trabalho social ou em casa – assim que um objectivo específico seja determinado – as coisas correm mal. Correm mal porque nos colocamos no lugar de um movimento superior. Queremos correr na frente, forçar algo. Nesse momento, perdemos o contacto com os poderes maiores. O que nos controla, esta alma maior, tem em mente, inclui, mais coisas. Quando nos confiamos a ela, conseguimos muito mais do que aquilo que tínhamos imaginado.

Em psicoterapia e em casa fazemos a pergunta: o que é aconteceu ali? Porque é que foi deste ou daquele modo? Estas perguntas perturbam os movimentos da alma, enfraquecem. Mas se nos mantivermos somente ali, em consonância com o todo, imediatamente irradia. Nesta posição, um poder maior funciona em segundo plano. Os chineses chamam-lhe “actuar através do não-agir”.

Ao intervir, retiro-me sempre do meio. De repente, quando me retiro desta maneira, uma frase vem ter comigo, ou o próximo passo. Eu sigo-o, mas não sei onde isso vai levar. Então, mais uma vez eu espero um pouco e assim algo se vai desdobrando passo a passo.

A forma como deve encarar isto é: assim como aqui os representantes percebem directamente o que está a acontecer na família, a família imediatamente percebe o que se passa aqui. Assim, as soluções que encontramos aqui alcançam a família também.

Há uma história que se conta em Colónia. Eles lá tinham uns duendes muito úteis, que faziam o trabalho das pessoas durante a noite e faziam-no muito bem, mas só trabalhavam quando não estava ninguém. Um dia uma mulher quis saber exactamente o que eles faziam e esse foi o fim de tudo. Este é um belo exemplo para o que acontece aqui. É exactamente assim.

Esta extrema reticência é sempre cheia de respeito. E esse respeito dá asas a algo na alma. Abre um espaço na alma. Quando surge uma pergunta, a alma contrai-se: “o que é que ele quer agora de mim?” Ninguém se coloca a pergunta “o que é que o sol quer de mim?”, ele brilha somente. Portanto, eu deixo brilhar em mim – sem perguntas.

 

Bert Hellinger In Help for the Soul in Daily Living, Junho 2011

Tradução do inglês por Eva Jacinto